Notícia

Gazeta Mercantil

Empregabilidade e educação

Publicado em 09 julho 1996

Por Evando Neiva*
O governo federal enviou um projeto de lei ao Congresso - Nacional, recentemente, com o objetivo de estabelecer um novo sistema de educação profissional, >buscando integrar o ensino ao trabalho, à ciência e à tecnologia e "visando propiciar o permanente desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva". Entre os pilares dessa visão de educação profissional está o conceito de "empregabilidade", um neologismo cada vez mais em uso. Os estudos que serviram de base para a formulação do projeto trazem uma conceituação bem certeira sobre a "empregabilidade". Deve ser entendida "como capacidade não só de obter um, emprego mas sobretudo de se manter em um mercado de trabalho em constante mutação, com características e natureza cada vez mais diferentes daquilo que se conhece, desde a Revolução Industrial até hoje", segundo informa uma publicação do Ministério da Educação. Surge, assim, um novo perfil profissional requerido do trabalhador, o de ser capaz não apenas de "fazer" mas de "pensar" e "aprender" continuamente, que tende a generalizar-se em todas as esferas produtivas. A construção desse perfil exige, antes de tudo, educação básica de qualidade e depende da educação profissional permanente, acrescenta o texto. A responsabilidade de levar a cabo um programa de tal envergadura não se pode limitar às autoridades, aos organismos governamentais e aos educadores - segmentos importantes da sociedade civil precisam engajar-se diretamente no esforço, em particular o empresariado. Os empresários brasileiros estão cada dia mais conscientes de que um ensino de má qualidade representa alto risco para a competitividade e sobrevivência das suas organizações, sobretudo diante do atual cenário de globalização da economia e de rápidas inovações tecnológicas. Só terá chance de enfrentar a acirrada concorrência internacional quem dispuser de mão-de-obra altamente qualificada, capaz de assimilar rapidamente novas tecnologias e de dominar as ferramentas do mundo informatizado. Foi-se o tempo em que a mão-de-obra desqualificada e, conseqüentemente, barata tornava as empresas competitivas. Estas podiam operar com custos baixos, sem grandes gastos com recursos humanos. Agora, a situação mudou: a força de trabalho barata, ou desqualificada, passou a ser um fator de limitação à competitividade, e a educação dos trabalhadores se tornou um dos atrativos para a escolha dos locais onde será investido o capital. A má qualidade da educação básica brasileira deixou, portanto de ser apenas um problema social - dos mais graves, diga-se de passagem - para se converter também em um problema econômico que exige soluções imediatas, sob risco de nossas empresas não se qualificarem adequadamente para disputar o mercado mundial. A vantagem tende hoje a ficar do lado das organizações que têm trabalhadores que sabem ler, escrever, expressar-se, fazer contas, assimilar novas tecnologias, trabalhar em equipe, dominar ferramentas do mundo informatizado. Consciente dos desafios dessa natureza, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais definiu prioridade ao setor e criou um Conselho de Educação. Sua missão é "transformar empresas e escolas em parceiros para o desenvolvimento e para a construção da cidadania", com ênfase no ensino fundamental da escola pública. Concretamente, fixou-se uma meta ousada: fazer com que cada uma das 10 mil escolas da rede pública mineira tenha como parceira pelo menos uma empresa, dentre as 80 mil indústrias instaladas no estado. Não se trata de filantropia, nem de apadrinhamento, nem de adoção, mas de parceria de fato. O Conselho de Educação elaborou uma cartilha enumerando ações práticas que podem começar, por exemplo, com o encontro do empresário com o diretor da escola para o conhecimento recíproco das suas organizações. As empresas podem colaborar na aquisição de recursos instrucionais (vídeos, melhorias de laboratório ou da biblioteca). Ou com o patrocínio de atividades de treinamento de professores e funcionários que ajudem a compartilhar técnicas de gerência de qualidade, programas 5 S, atendimento ao cliente, gerência ambiental ou uso da Internet. As iniciativas serão ditadas pelas necessidades e pela criatividade dos parceiros. A "empregabilidade" não é uma questão que diz respeito apenas aos mais diretamente tangenciados pelas rápidas mudanças no mercado de trabalho. Fala direto a toda a sociedade. Nesse aspecto, vale lembrar um dos ensinamentos de Kaoru Ishikawa, um dos pioneiros da gerência de qualidade total no Japão: "O controle de qualidade começa e termina com educação". * Educador, presidente do grupo Pitágoras, de Belo Horizonte, e do Conselho de Educação da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais.