Notícia

O Imparcial (Presidente Prudente, SP)

Emissão de poluentes pode ser monitorada por raio laser

Publicado em 28 maio 2000

Brasília - A poluição ambiental está diretamente relacionada ao aumento das populações urbanas. A emissão de gases e material particulados é um problema que aflige governo e população das principais capitais do país. Conforme o inverno se aproxima aumentam as preocupações com a qualidade do ar, devido a alta concentração de gás carbônico na atmosfera. Em São Paulo, a redução do número de automóveis em trânsito com a adoção do sistema de rodízio visando diminuir o lançamento de CO2, já é uma realidade com a qual os habitantes têm que conviver. Preocupados em monitorar a emissão de poluentes, pesquisadores das universidades Federal de Pernambuco (UFPE) e de São Paulo (USP), campus de São Carlos, desenvolveram um sistema capaz de identificar os gases dispersos na atmosfera com suas respectivas concentrações. O protótipo do sistema está em teste na UFPE, em Recife. O sistema é composto basicamente por uma fonte de luz (laser) e um fotodetector. Essa fonte projeta o laser sobre um horizonte determinado. Os gases existentes serão identificados por meio de ressonância. Cada substância está programada para refletir uma cor. Devido à limitação do equipamento, para cada substância é preciso emitir um feixe de luz. Se o interesse é verificar a presença de metano, é necessário que o fotodetector esteja programado para visualizá-lo. O sistema utilizado em Recife não é capaz de identificar várias substâncias simultaneamente. Frederico Dias Nunes, do Grupo de Fotônica do Departamento de Engenharia Eletrônica da UFPE e responsável pelas pesquisas, explica que há diferentes formas de medição. A princípio o objetivo das pesquisas em Recife está voltado para a mensuração pontual, localizada e com espectro limitado. Esta forma é usada para o controle de regiões delimitadas como fábricas, armazéns, lixões. Por meio de comunicação remota, o sistema emite os resultados do monitoramento do lugar. "O sistema permite que se acompanhe os níveis de poluição de uma fábrica, alertando sobre possíveis riscos à saúde dos funcionários", exemplifica Frederico. Outra possibilidade de varredura é o tipo LIDAR, sistema que lança um feixe de luz num horizonte variável entre 500 metros e dois quilômetros, e verifica as substâncias absorvidas pela ressonância. "São sistemas muito potentes, como alguns satélites", diz o pesquisador. Segundo Frederico, devido à limitação de recursos, a preferência é por fazer o controle em muitos pontos, opção mais barata. Em armazéns, por exemplo, o sistema seria útil para alertar os produtores sobre o amadurecimento de frutas. Quando chega o período de maturação, as frutas liberam gases - etanol, aldeídos - que identificados pelo sistema avisarão sobre a necessidade de comercialização. O sistema está apto, ainda, para medir os índices de particulados em suspensão - poeira, fuligem, materiais grosseiros. Até o momento os experimentos foram todos realizados em laboratório. A intenção agora, explica Frederico, é compactar os equipamentos para que possam ser levados a campo para testes externos. Um dos interesses do pesquisador é em relação à emissão de poluentes do Lixão da Moribeca, depósito de rejeitos localizado em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana de Recife. O lixo ao se decompor, além do mau cheiro, libera várias substâncias nocivas ao meio ambiente, como o chorume, que absorvido pela terra contamina os lençóis freáticos. Essa preocupação com a poluição causada pelo lixo tem a ver com a visão que o pesquisador tem a respeito da atividade científica. Segundo ele, os cientistas não devem estar voltados apenas para a realização de pesquisas e o desenvolvimento de trabalhos e papers. O papel social do cientista é muito importante, pois "é a população quem paga seus salários", assinala Frederico. "A atividade científica deve estar voltada para a geração de produtos e serviços úteis à população", acrescenta. Futuramente com outro aporte de recursos, o interesse do grupo é desenvolver um sistema mais potente, capaz de controlar áreas maiores. Atualmente os estudos são financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), pelo Programa de Núcleos de Excelência (Pronex), do Ministério da Ciência e Tecnologia e por bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Frederico lembra que a rítmica dessa pesquisa é diferente, mais lenta, pois os estudos são desenvolvidos por mestrandos. (Hebert França - Agência Brasil)