Notícia

Informe MS

Emigrantes de chuteiras

Publicado em 03 novembro 2008

Entre os milhões de brasileiros que atualmente residem no exterior, há cerca de 5 mil jogadores de futebol. Um estudo feito na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) traçou o perfil dos emigrantes de chuteiras e constatou que eles vivem em condições tão especiais que não chegam a ser considerados imigrantes nos países de destino.

A pesquisa, publicada na revista Horizontes Antropológicos, aponta ainda que os jogadores emigram cada vez mais jovens, normalmente são os caçulas da família e, em grande parte, são evangélicos. A autora, Carmen Silvia Rial, é professora do Departamento de Antropologia da UFSC.

O ato de emigrar para jogar em clubes do exterior – ou “rodar”, na linguagem futebolística, é classificado como “circulação” no estudo, já que os jogadores estão em outros países de passagem, de acordo com a antropóloga. “Eles não se consideram e não são considerados como imigrantes. Suas referências de fronteiras simbólicas não são as nacionais ou locais, mas as dos clubes”, disse Carmen à Agência Fapesp.

Segundo ela, essa circulação ocorre em circuitos particulares, que podem abranger diversos Estados-nações, sem que suas fronteiras sejam especialmente relevantes. A primeira característica que se diferencia esse grupo dos emigrantes é o registro, mais preciso do que nos casos de emigração convencional.

“Não há dados precisos sobre a emigração no Brasil, porque grande parte das pessoas sai sem declarar. No caso dos jogadores de futebol isso não ocorre. Todo esse fluxo é registrado. Embora esses jogadores venham, em grande parte, das camadas médias e subalternas, com perfil parecido dos emigrantes que normalmente saem do país, eles não são vistos como imigrantes lá fora, mas contam com um estatuto especial”, disse.

De acordo com Carmen, o perfil desses jogadores em nada se aproxima do imigrante que aparece na mídia estrangeira – rótulo geralmente impingido com teor pejorativo. Normalmente, segundo ela, o termo é empregado para designar os trabalhadores braçais e é associado ao crime e à ilegalidade. “Em reportagens sobre imigração, os jogadores são invisíveis nas matérias. Nem os próprios jogadores se identificam como imigrantes nos países onde estão jogando”, afirmou.

“Há uma grande distância entre o estatuto do jogador de futebol e o que se considera imigrante nos países de destino, mas, por outro lado, há uma proximidade com outros tipos de circulação hoje no mundo. Intelectuais e estudantes que vão fazer doutorado e pós-doutorado no exterior não são vistos como imigrantes e eles também não se representam de modo”, disse.

A idéia de emigração hoje, afirma a pesquisadora, “precisa ser repensada para incluir essas pessoas que circulam pelo planeta sem corresponder ao perfil daqueles que rompem vínculos e referências familiares e nacionais”.

A pesquisa, iniciada em 2003, partiu da perspectiva dos jogadores brasileiros no exterior. Participaram cerca de 40 jogadores que viviam ou haviam vivido e exercido sua profissão no exterior – muitos deles em mais de dois países. De acordo com a pesquisadora, o estudo etnográfico se concentrou nas cidades de Sevilha (Espanha) e Eindhoven, na Holanda.

“Também conversei com muitos de seus familiares, amigos, empresários, técnicos e secretários diversos, realizei entrevistas, assisti a treinos e a jogos, visitei seus restaurantes preferidos e algumas de suas casas no Canadá, Holanda, Japão e também no Brasil. E mantive longas conversas telefônicas com jogadores e seus familiares na França, Mônaco e Bélgica”, explica Carmen, que atualmente escreve um livro sobre o tema.

Caçulas e evangélicos

O estudo aponta que cerca de 90% dos entrevistados que migraram são provenientes de camadas com menores faixas de renda. A maioria dos jogadores entrevistados tinha apenas o primário, e uma parcela de cerca de 10% conseguiu terminar o secundário. Apenas duas entre as esposas concluíram o terceiro grau, mas segundo o estudo “há uma tendência de que as mulheres apresentem uma escolaridade maior do que a dos jogadores”.

O perfil identifica ainda que os jogadores receberam apoio familiar e, em geral, são os caçulas da casa. Um dado que chamou a atenção, segundo Carmen, diz respeito à prática religiosa. “É interessante como Deus – e não a religião – é um valor central na vida deles, em sua grande maioria, evangélicos.”

De acordo com a pesquisadora, uma das hipóteses para explicar a centralidade da fé é que a situação de vida do jogador muda radicalmente em pouco tempo. “Eles precisam de algum tipo de auxílio externo que os ajude a elaborar esse tipo de situação, que dêem alguma explicação. Eles encontram na religião esse campo onde se sentem amparados”, apontou.

Segundo o estudo, é no consumo cotidiano em que se percebe mais claramente a dimensão da “identidade nacional” nesses jogadores. Os altos salários recebidos pelos jogadores na Europa e no Japão não se refletem em consumos ostentatórios. Seus hábitos, afirma o artigo, “aproximam-se mais os de uma camada média-alta do que da faixa dos milionários, que são efetivamente. Não transitam em aviões particulares, não possuem iates, não passam as férias em ilhas particulares, nem freqüentam restaurantes de luxo.”

“Eles moram em casas espaçosas localizadas em bairros nobres – geralmente os que concentram grande número de jogadores de futebol –, mas não vi na decoração das casas nenhuma grande extravagância. Continuam a vestir-se como os jovens de sua idade, com tênis, jeans e camisetas, a comer em casa ou em restaurantes que sirvam comida próxima da brasileira”, disse.

Os únicos consumos de luxo recorrentes entre eles, acrescenta, são “os automóveis, sempre carros novos de luxo, mas às vezes fornecidos pelo próprio clube, os brincos de diamantes ou as invariáveis trousses de toilette Louis Vuitton”.

A autora diz que, ao contrário do que se vê um pouco na mídia ou do que torcedores brasileiros imaginam, esses jogadores não se europeizaram. “Eles continuam sendo muito nacionalistas, tendo o Brasil como principal referência, e no seu cotidiano o país é extremamente presente”.

A pesquisadora destaca a efemeridade de suas permanências nas instituições de trabalho e nos países no exterior e caracteriza essa emigração como uma “circulação”, que poderia ser chave explicativa para a manutenção desse sentimento nacional. Segundo ela, o estudo terá continuidade. Mas com outro foco.

“Trabalhei muito com celebridades, com jogadores que tiveram carreiras de sucesso no exterior em clubes globais, e menos com os desconhecidos, que estão em outra faixa salarial. Quero agora focar nesse grupo que está no exterior, mas que não tem a mesma trajetória de sucesso, anônimos para nós brasileiros, que estão em clubes menores e periféricos. E também focar nos que já retornaram”, disse.