Notícia

Gazeta Mercantil

Embraer modernizará túnel de vento da Aeronáutica

Publicado em 15 junho 2001

Por Virgínia Silveira de São José dos Campos
A Embraer - Empresa Brasileira de Aeronáutica vem investindo cada vez mais em tecnologia de ponta no Brasil, em projetos próprios ou de terceiros, para diminuir a dependência externa e os riscos de espionagem industrial. Um exemplo dessa estratégia é a parceria que acaba de fechar com o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), da Aeronáutica, que fica em São José dos Campos (SP), para a modernização do seu túnel de vento, onde é possível simular os efeitos do ar sobre a aeronave quando ela está em movimento. O objetivo da modernização, segundo o chefe da subdivisão de aerodinâmica do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), do CTA, major Olympio Achilles de Faria Mello, é aumentar a produtividade e a confiabilidade dos ensaios realizados no túnel, além do desenvolvimento de novas tecnologias que permitam a realização de testes mais sofisticados. "A Embraer quer acelerar o ciclo de desenvolvimento dos seus aviões e uma campanha de ensaios em túnel de vento costuma ser muito longa", diz. Com o projeto de modernização do túnel TA-2, a Embraer e o CTA esperam reduzir em 30% o tempo médio de ensaios. No passado, a Embraer levava até 14 meses para fazer a montagem completa de uma aeronave, com uma produtividade por empregado de US$ 40 mil. Hoje, utilizando-se de recursos tecnológicos de última geração e uma nova filosofia de trabalho, a empresa conseguiu reduzir o ciclo de produção de um avião para cinco meses e ainda aumentar a produtividade por empregado para algo em torno de US$ 300 mil. A modernização do TA-2, segundo o engenheiro Olympio Mello, vai custar US$ 1,8 milhão e será financiada em partes iguais com recursos da Embraer e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O projeto também tem o apoio do campus da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos. Além de reduzir o tempo de ensaios, as melhorias que serão feitas no TA-2 permitirão o desenvolvimento de tecnologia de ensaios bidimensionais e tridimensionais e o estabelecimento da correlação entre um tipo de ensaio e outro. Construído na década de 50, o TA-2 do CTA é um túnel subsônico, que opera em baixas velocidades, na faixa de 500 quilômetros por hora, mas ainda é considerada a maior instalação do gênero na América Latina em escala industrial. Além dos aviões da Embraer, o TA-2 foi muito utilizado por empresas como a Avibrás Divisão Aérea Naval e a antiga Engesa, para o desenvolvimento de mísseis e carros de combate. Empresas dos setores de construção civil, eletroeletrônico, automobilístico, naval, plataformas de perfuração de petróleo, entre outras também se valeram do túnel do CTA para qualificarem seus projetos de acordo com padrões internacionais de qualidade. A taxa histórica de ocupação do túnel de vento do CTA chegava a níveis altos, em torno de 85%. Na época do desenvolvimento do caça de combate brasileiro AMX, o túnel chegou a ter um nível de ocupação superior a 100%. A Embraer hoje, de acordo com o engenheiro Olympio Mello, absorve 70% do tempo de utilização do túnel. A empresa faz uma média de quatro a cinco campanhas de ensaios em cada avião. O jato regional ERJ-145, para 50 passageiros, por exemplo, realizou cerca de quatro mil horas de ensaios no TA-2 do CTA. O ERJ-170 (70 lugares), por sua vez, tem feito a maior parte dos ensaios em túneis transônicos (que opera em limites próximos a velocidade do som) de países como a Rússia. Holanda e França. O CTA também tem um túnel transônico piloto, desenvolvido em cooperação com os russos, mas que ainda não pode operar em escala industrial. O projeto do túnel transônico piloto teve um custo de US$ 5 milhões. O desenvolvimento de uma versão para operar em escala industrial custaria mais US$ 100 milhões. O projeto está paralisado no CTA por falta de recursos. A Embraer chegou a acenar com a possibilidade de colaborar com o túnel transônico, mas ainda avalia se o número de ensaios exigidos pelos programas de desenvolvimento dos seus aviões compensaria um investimento desse porte a longo prazo. Apesar do elevado custo de implantação, o investimento num túnel desse porte, ainda é inferior a 5% dos recursos necessários ao desenvolvimento de uma nova aeronave militar, por exemplo. Além de ser indispensável ao desenvolvimento criterioso, ágil e sigiloso dos projetos aeroespaciais, o túnel de vento é também um meio eficaz de se verificar a influência do arrasto (resistência do ar ao vôo) no avião, um dos pontos fundamentais do projeto de uma aeronave. O túnel de vento permite ainda fazer a simulação do efeito do escoamento em uma entrada de ar no motor, o valor da pressão do ar sobre determinado ponto do avião ou mesmo de situações de risco como a perda de uma superfície de sustentação, abertura do reverso na decolagem ou falha de motor.