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Embalagem "avisa" sobre produto estragado

Publicado em 17 outubro 2011

Por Franciele Xavier

Sobras de alimentos que ainda podem ser consumidos têm destino certo para muitos consumidores. Os que não vão direto para o lixo são acondicionados em vasilhas ou embalados em filmes plásticos para serem guardados na geladeira. A novidade é que, em breve, os adeptos da segunda opção poderão contar com uma solução inteligente, que promete prolongar o tempo de armazenamento do alimentos. Uma das vantagens é que a embalagem muda de cor quando o produto armazenado começa a estragar.

Pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (USP) estão desenvolvendo embalagens bioativas, que têm ação anti-microbiana, são resistentes à umidade do ar, aos gases e "avisam" quando um alimento está em processo de deterioração."

A ideia original de produzir o material veio de uma doutora da Universidade de Campinas (Unicamp), que idealizou um filme plástico orgânico, mas sem funcionalidades práticas. Desde então, a coordenadora do atual projeto e professora da USP, doutora Carmem Tadini, junto com sua equipe, trabalha para transformar a embalagem em mais um instrumento de proteção à saúde dos brasileiros.

Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) e do Conselho " Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o projeto já completou uma fase importante: ade desenvolvimento laboratorial de todo o material. Segundo Carmem Tardini, a nova embalagem já foi testada para o acondicionamento de pães, biscoitos, queijos e até com óleo vegetal, para conferir o poder de vedação.

As matérias-primas usadas para a produção deste produto, que se assemelha ao filme já comumente utilizado por várias donas de casa, são fécula de mandioca, açúcares e glicerol, um composto orgânico que confere a propriedade plástica ao material.

Para aumentar a resistência a agentes externos, são aplicadas nanopartículas de argila, moléculas que funcionam como barreira para vapores e outros componentes que danificam os alimentos.

"Imaginem uma superfície de tecido e cartas de baralho espalhadas sobre ela. Se um líquido cair sobre elas, nada passa. O funcionamento das minúsculas lâminas de argila é semelhante ao dessas cartas", comparou adoutora.

A ação contra micróbios fica a cargo de aditivos naturais. Durante a fase de testes para identificar quais deles seriam os mais adequados, foram usados, dentre vários, extratos de própolis e de laranja, mas os mais eficientes foram os óleos essenciais de cravo e de canela.

"Hoje, essas são duas substâncias que estão em alta na aplicação de vegetais com propriedades curativas. Além de poder antimicrobiano, elas têm também função cicatrizante", explicou a pesquisadora da USP.

Na terceira parte da produção entram os componentes chamados, pelos pesquisadores, de "inteligentes", pois têm propriedades capazes de identificar quando um alimento começa a estragar por meio da mudança do pH, ou seja, pela diferença na concentração de íons de hidrogê

nio. Em contato com o alimento embalado, os extratos de vegetais identificam sais, ácidos e componentes orgânicos que estão aumentando ou diminuindo e reagem com essas substâncias. Como consequência, a embalagem muda de cor.

"Açor das embalagens varia de rosa escuro, passando pelo roxo, até o azul escuro, dependendo do vegetal que foi usado. Já a variação da coloração de acordo com a deterioração do que está embalado depende das propriedades de cada alimento. Mas, certamente, se ela já mudou de cor é porque tem algo errado", garantiu Carmem Tadini.

Para a produção dos filmes, estão sendo usados extratos de uva, repolho roxo, açaí, jabuticaba e outros vegetais e frutos de cor arroxeada. Apesar das vantagens, encontrar essa novidade nas prateleiras de supermercados pode demorar um pouco.

"Agora é a fase de entrarmos na fabricação de grandes volumes. Estamos à espera de aprovação de recursos das financiadoras para comprar uma máquina extrusora, equipamento comum para a produção desse tipo de material em larga escala", explicou a pesquisadora da USP.

Segundo Carmem Tardini, assim que a compra for autorizada, o produto entra em fase de teste industrial, ou seja, será colocado no mercado aos poucos para as provas de eficiência e aceitação junto ao consumidor.