Notícia

Gazeta Mercantil

Em xeque o futuro da pesquisa

Publicado em 19 junho 2000

Por Luiz Eugênio A. M. Mello
Em contraste com o passado recente, os novos ventos do atual governo federal parecem, em vários ministérios, apostar no desenvolvimento econômico e social do país, calcado em um desenvolvimento científico e tecnológico. Dentro da comunidade científica, há um clima de otimismo e esperança em face da aprovação iminente de uma nova leva de fundos setoriais. Os recursos já obtidos com o Fundo da Agência Nacional do Petróleo e a abertura de um edital de chamada para projetos científicos dentro das áreas cobertas por esse fundo por parte do CNPq constituem os elementos que alicerçam as esperanças da comunidade científica quanto ao futuro dos outros fundos. Conforme percepção unânime, a aprovação e a implementação dos outros fundos constituirão a "redenção da lavoura" para uma área constantemente abalada e afetada pelos contingenciamentos de verbas e pela escassez de recursos. O otimismo aumenta quando se sabe que essas verbas serão extra-orçamentárias e, portanto, suficientemente distantes das mãos dos executores da área econômica. O debate entre os chamados desenvolvimentistas e os monetaristas passará, esperamos, ao largo desses recursos. Muitas vezes a nós professores universitários se pergunta qual o retorno econômico de nossa atividade. A essa pergunta, nossa resposta é vaga e sem o conteúdo numérico em dólares ou reais que poderia se esperar. Entre outras coisas, a lenta maturação de alguns desses frutos dificulta essa quantificação. Hoje, o exemplo do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, de São José dos Campos, e de seu fruto mais direto, a Embraer, parece não deixar dúvidas sobre o retorno que pode ser esperado. É inclusive sob esse prisma, do impacto do sucesso da Embraer, que hoje muitos são os que acreditam na base científico-tecnológica como propulsora do desenvolvimento do Brasil. Mas, se por um lado há esperança e otimismo quanto à geração de recursos financeiros para a atividade científico-tecnológica, há que se considerar os agentes dessa mudança: os pesquisadores e professores universitários das instituições públicas do país. É inconteste que a pesquisa científica e tecnológica no Brasil tem origem nas instituições públicas. As eventuais exceções e núcleos de competência nas instituições privadas resumem-se às chamadas instituições confessionais, isto é, com vínculos religiosos, como as PUCs. Assim, considerando que agora, além do estado de SP, que felizmente já podia contar com uma forte Fundação de Amparo à Pesquisa, a Fapesp, também outros estados poderão ver alcançando seu desenvolvimento científico e tecnológico, resta saber quem vai fazê-lo. Isso porque tanto a possibilidade de contratação de pessoal quanto a de revisão dos valores pagos como salário continuam atadas ao velho modelo. O quadro atual das Universidades públicas é, nesse sentido, desesperador. Ter dinheiro para fazer pesquisa é fundamental. Mas igualmente fundamental é ter o pessoal para fazer essa pesquisa. Pessoal, nesse caso, traduz-se tanto nos pesquisadores-docentes como nos alunos e nos técnicos. Nos três níveis os gargalos são tremendos. No âmbito dos pesquisadores-docentes e dos técnicos, a condição salarial atua sob multiplas formas. Primeiro, sobre os que já são profissionais nessas áreas, ao induzir a realização de "bicos" e atividades que dispersam o foco na pesquisa. De outro lado, ao gerar o pedido de demissão daqueles que, embora extremamente competentes, não tem como se sustentar. Para citar um exemplo familiar para mim, a disciplina de endocrinologia da Universidade Federal de SP (Unifesp) perdeu três docentes por essa razão nos últimos cinco anos. Finalmente, no nível de entrada, ao estabelecer uma péssima perspectiva financeira futura desmotivado várias pessoas brilhantes e competentes. No âmbito dos alunos de pós-graduação, componente essencial da pesquisa científica no país, a insuficiência de bolsas de pós-graduação, associada ao seu baixo valor, é outro entrave. O governo pode falar o que quiser, mas é fato inconteste que há uma enorme demanda reprimida na área da pós-graduação. O simples crescimento assombroso da pesquisa científica no país (medido em número de trabalhos e de citações desses trabalhos), nessa última década, constitui por si só um indicador do descompasso entre demanda e oferta na pós-graduação. Para justificar recentes cortes no número das bolsas de pós-graduação, o presidente FHC afirmou que a procura pelas bolsas era fruto do desemprego! Não sei bem em quais dados o presidente se baseou. Os dados levantados pela Federação de Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe) revelam que, do total de doutores formados em nossa área, 94% trabalham na atividade de ensino e pesquisa em instituição pública ou privada. Assim é que as recentes greves das Universidades públicas, muito mais do que reivindicar reajustes salariais, refletem que não haverá futuro para o Brasil se não tivermos a possibilidade de estabelecer condição atual (salário) e perspectiva futura de trabalho (vagas) para os pesquisadores-docentes, técnicos e pós-graduandos. Um importante ponto para reflexão é um recente depoimento feito durante uma assembléia de docentes da Unifesp, em que uma docente afirmou que, após ter ficado inadimplente por dois anos em relação às escolas dos filhos, decidiu dar aulas remuneradas em cursos de extensão universitária para poder continuar a viver sem parar de trabalhar na Universidade pública. Mantidas as condições salariais atuais, bastarão mais alguns anos para que as Universidades públicas do Brasil possam ser visitadas como monumentos arqueológicos de um passado recente. Professor - titular de fisiologia da Universidade Federal de SP (Unifesp) e secretário-geral da Fesbe.