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Em uma hora de trânsito em SP, população ‘fuma’ 5 cigarros, revela estudo

Publicado em 21 junho 2019

Por Cláudia Collucci | Folha de S.Paulo

Estudo inédito USP revela que uma hora de deslocamento no trânsito de São Paulo equivale a fumar cinco cigarros. Para chegar aos números, a Universidade de São Paulo avaliou pulmões de 413 cadáveres autopsiados na capital paulista.

A pesquisa envolveu cruzamento de vários dados. Por meio de questionários aplicados aos parentes próximos da pessoa morta, foram coletados dados como o local onde ela morava, a ocupação, se era fumante ou não, o tempo de residência em São Paulo e horas gastas no trânsito entre a casa e o trabalho.

Os endereços de todos os falecidos foram georreferenciados, e as ruas classificadas de acordo com a intensidade de tráfego da região.

Na autópsia, o pulmão foi avaliado para quantificar os depósitos de carbono resultantes da inalação repetida de poluentes atmosféricos, partículas de fumaça ou de carvão.

Essas partículas entram pelo sistema respiratório e podem ficar retidas nas regiões pulmonar e linfática por um longo período, levando a lesões chamadas de antracose. Nas imagens macroscópicas, elas aparecem como manchas pretas no pulmão. Em geral, são inócuas, mas podem evoluir para doenças pulmonares graves, como a fibrose, principalmente nos profissionais expostos à poeira do carvão.

Há vários estudos epidemiológicos mostrando o impacto da poluição do ar na saúde humana. Por exemplo, cerca de 12% das internações por causas respiratórias em São Paulo são atribuídas aos poluentes, que também responderiam por 4.000 mortes prematuras ao ano.

Mas a avaliação do efeito a longo prazo da exposição individual ao tráfego urbano ainda é um desafio. O trabalho da USP é o primeiro a analisar esse contexto por meio de um grande estudo de autópsia.

Isso é crucial para o estabelecimento de relações causais, para rastrear e monitorar a poluição do ar e para planejar políticas públicas locais.

O trabalho foi financiado pela Fapesp e publicado neste mês na revista Environmental Research. Esses e outros achados científicos sobre os efeitos dos poluentes na saúde humana serão apresentados nesta quarta, 19, na ONU (Organização das Nações Unidas) por cinco academias de ciências e saúde do mundo, inclusive a brasileira. A ideia é propor a criação de uma espécie de Convenção Quadro sobre o tema, semelhante à do tabaco.

Um dado curioso ainda não publicado mostra que, quando se olha os níveis de poluição medidos pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), eles são maiores onde há mais trânsito —ou seja, no centro.

No entanto, a pesquisa mostrou que as pessoas que mais concentravam poluentes nos pulmões foram as que moravam na periferia e passavam mais tempo no trânsito.

“As pessoas que viajam mais para trabalhar não só concentram mais doses de poluição como também são as que mais morrem por diabetes, infarto e AVC [acidente vascular cerebral]. Não têm tempo nem para adoecer, para cuidar da sua saúde. Juntam-se aí duas vulnerabilidades”, afirma o professor da USP Paulo Saldiva, diretor do IEA (Instituto de Estudos Avançados) e um dos autores do trabalho.

Para ele, esse achado foi uma das maiores contribuições brasileiras na declaração que as cinco academias nacionais de ciências e de medicina do mundo (Brasil, EUA, Alemanha e Africa do Sul) vão apresentar na ONU.

O documento chama a atenção para a crescente poluição do ar e o impacto na saúde humana e na economia dos países. Nas grandes cidades brasileiras, a poluição veicular é responsável pela grande maioria das emissões de poluentes.

Estima-se que eles contribuam para ao menos 5 milhões de mortes prematuras por ano em todo o mundo, com maior impacto nas populações vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas que vivem na pobreza.