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Em tempos de covid-19, como a reação das autoridades fomenta a ansiedade

Publicado em 20 março 2020

Por Luiza Pollo, do TAB

"Se eu me contaminei, isso é responsabilidade minha. Ninguém tem nada a ver com isso." Essa foi a fala do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) após ser questionado sobre sua presença nos atos a seu favor no domingo (15). Presente em uma comitiva nos Estados Unidos que já registra pelo menos 14 infectados pelo coronavírus, o presidente deu as mãos para diversos apoiadores, contrariando recomendações do próprio ministério da saúde.

Além disso, na quarta-feira (18) Bolsonaro realizou uma coletiva de imprensa presencial, com ministros e jornalistas, sobre a situação do novo coronavírus e por enquanto não cancelou sua festa de aniversário programada para sábado (21).

"Desde que a covid-19 começou a se expandir no mundo, estamos acompanhando de boca aberta este presidente produzir uma torrente de afirmações e reviravoltas verbais, junto com um comportamento inconsequente", avalia Thomas Lewinsohn, professor titular de Ecologia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e pesquisador apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). "A incapacidade de o presidente compreender o que está acontecendo é tão óbvia, que não devemos perder mais tempo prestando atenção ao que ele tuíta ou balbucia", defende o professor. Panelaços durante os discursos e pronunciamentos de Bolsonaro sobre o tema vão na mesma direção, em diversas cidades brasileiras.

No México, as ações e o discurso do presidente sobre a pandemia também não foram muito diferentes. "Dirão que sou um sonhador, mas quero que os sonhos se realizem e tenho um sonho de que nosso povo não sofrerá nem padecerá. Quero que nosso povo seja feliz", disse Manuel López-Obrador, após abraçar e beijar apoiadores.

Mesmo mudando o tom ao longo das semanas, Donald Trump foi mais um presidente criticado por sua resposta inicial à pandemia. Trump resistiu em cancelar comícios de campanha previstos e disse que tudo estava sob controle quando o primeiro norte-americano testou positivo para o vírus. Além disso, quis apressar o desenvolvimento de uma vacina sem considerar o tempo necessário para testá-la e passou uma informação errada sobre um site que seria lançado com informações sobre o novo coronavírus.

Em Isarel, a população já se revolta contra as medidas que considera autoritárias do recém-reeleito primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Além de medidas de isolamento que estão sendo tomadas em diversos países, Netanyahu impôs o fechamento do Parlamento e dos tribunais e solicitou que a agência de segurança interna use dados dos celulares dos cidadãos para controlar quem pode potencialmente ter entrado em contato com o vírus.

Deisy de Freitas Lima Ventura, coordenadora do doutorado em saúde global na Faculdade de Saúde Pública da USP e presidente da ABRI (Associação Brasileira de Relações Internacionais), faz uma comparação histórica entre as lideranças atuais e os chamados reis taumaturgos da Idade Média. "Segundo essa lei, se o rei te tocava, deus te curava. Havia essa ideia de que os reis representavam deus na Terra, e uma forma de demonstrar essa escolha divina era criar lendas de milagres", afirma.

Napoleão Bonaparte foi um dos líderes que refletiu esse comportamento anos mais tarde. A professora lembra do quadro "Bonaparte visitando as vítimas da peste de Jafa", encomendado por ele, que o retratava aproximando-se e tocando doentes vítimas da peste bubônica em Jafa (antiga cidade de Israel, hoje incorporada a Tel-Aviv). Acredita-se que a cena nunca ocorreu, mas a professora destaca a imagem de "salvador" que Napoleão tentava passar. "Fico pensando se é algo assim que vemos atualmente", reflete ela.

Descrédito na ciência

Respostas descoladas da realidade e que ignoram instruções médicas baseadas em fatos científicos não faltam por parte dos governantes. Isso não é novidade, mas ganhou uma nova cara com a ascensão da desinformação, das fake news e de governos de extrema-direita em diversos países, observa Ventura. "Esse grupo costuma defender a destruição de sistemas sociais de proteção, a violência como forma legítima de exercer o poder, entre outras coisas que não têm lugar institucional em épocas de normalidade social", afirma.

Ventura explica que o descrédito na ciência se associa à tentativa de desbancar a elite cultural e intelectual, que traz informações com base em fatos — fatos esses que não concordam com a ideia de perpetuação no poder de líderes populistas. "Quem faz política dessa forma incita a violência, cria falsos inimigos e recusa informações baseadas em evidência, porque elas contrariam interesses predatórios", diz a professora. "As evidências científicas mostram a fragilidade desses atores políticos extremistas, e então eles desqualificam os emissores, os mensageiros da ciência."

Para Lewinsohn, da Unicamp, esse negacionismo "se alimenta de uma combinação entre educação degradada, sectarismo religioso e fanatismo político, o que dá um caldo de cultura maligno." Ele observa, ainda, que atualmente isso se alastra com mais facilidade na internet. "Hoje em dia, chama a atenção a agressividade com que lideranças e pessoas públicas ostentam sua ignorância e se gabam dela. E essa ignorância agressiva se alastra pelas redes sociais afora — não por acaso, ela 'viraliza'."

Na força contrária, cientistas estão colaborando no mundo todo para entender melhor o novo coronavírus e saber como tratar e evitar a covid-19, doença causada por ele. Dezenas de revistas científicas e acadêmicas abriram seus bancos de artigos sobre o tema, e mais recentemente foi criado um banco de dados aberto com mais de 24 mil estudos ligados à epidemiologia. Centenas de cientistas de diversos países estão colaborando internacionalmente para identificar e testar remédios que possam ajudar no tratamento.

"Hoje, mais e mais cientistas se engajam em redes sociais, escrevem textos de divulgação, dão palestras abertas. O que está em jogo não é apresentar fatos verdadeiros. Mais importante é as pessoas entenderem o que é o conhecimento científico e como ele é produzido", defende Lewinsohn. O professor cita como exemplo a iniciativa Coalizão Ciência e Sociedade, que reúne mais de 70 cientistas de todo o país, de diversas áreas, para publicar textos claros e bem fundamentados que divulguem o conhecimento científico.

Investimento em pesquisa

Em 48 horas, um grupo de pesquisadores dos institutos Adolfo Lutz e de Medicina Tropical da USP conseguiu fazer o sequenciamento genético do coronavírus. O trabalho, que levava em média 15 dias em outros países, foi feito em tempo recorde por aqui, com investimento público, principalmente da Fapesp, e é um passo essencial para o desenvolvimento de vacinas e testes diagnósticos.

Aliás, pesquisadores brasileiros do Laboratório de Imunologia do Incor (Instituto do Coração) da Faculdade de Medicina da USP já estão empenhados no desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19.

"Leva tempo para formar pesquisadoras e pesquisadores experientes, compor equipes que se integram bem e prover a infraestrutura adequada", ressalta Lewinsohn. "Mais importante do que anunciar bombasticamente grandes investimentos, é a continuidade dos programas de formação de cientistas e a manutenção do suporte nas instituições de pesquisa e universitárias."

Ele lembra, no entanto, que esse longo trabalho pode ser desfeito rapidamente, e que a sociedade precisa ficar atenta, junto a políticos e gestores que entendem o valor da ciência e se preocupem em manter as condições necessárias para que ela se desenvolva.

"A crise é séria demais, e o tempo de reação é o recurso mais crítico. Temos que prestar atenção e dar suporte aos gestores e políticos que se preocupam em entender a crise em seu conjunto e que estão empenhados em prevenir e minimizar seus efeitos", afirma o pesquisador.

UOL

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