Notícia

Gazeta Mercantil

Em P&D, muito paper e pouca patente

Publicado em 20 maio 2005

É na empresa que a ciência vira "solução", vira produto melhor e mais barato. A terceira edição dos Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação em São Paulo 2004 confirmou a tendência de que o Brasil vai bem na produção de conhecimento teórico, mas claudica na hora de transformar esse conhecimento em inovação tecnológica. O estudo, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), mostrou que a produção científica brasileira publicada em revistas internacionais alcançou, entre 1998 e 2002, crescimento anual de 54%. É feito respeitável porque, nesse período, a produção científica mundial, medida pelos mesmos critérios, avançou 9% ao ano.
A participação brasileira no universo da produção científica saltou de 1,1% em 1998 para 1,5% em 2002. O problema está no que fazemos com o conhecimento em forma de papers. A FAPESP informou que o número de patentes concedidos pela United States Patent and Trademark Office (Uspto) ao Brasil, nesse período, alcançou 0,07% do total de registros. O resultado dessa distorção entre o teórico e o prático em pesquisa e desenvolvimento (P&D) a FAPESP também mostrou: entre 1998 e 2002 a participação de produtos de alta tecnologia nas exportações brasileiras ficou na faixa de 15%. É muito baixo para uma economia que se pretende industrializada.
Atraso tecnológico tem preço alto. Em 2004, como revelou o Economist World in Figures, a utilização de alta tecnologia representou 32% dos empregos no Japão e 28% na Coréia do Sul, economia parecida com a nossa. Nos dois casos, os empregos de geração tecnológica anterior foram "exportados" via fábricas montadas na China. Dentro de cada país ficou só o que interessa, que gera emprego de maior qualidade. E o que interessa é conhecimento transformado em tecnologia.
O estudo da FAPESP revelou que mais de um quarto da produção científica brasileira de alta qualidade é em medicina. Ótimo. Depois vem física, com 14%; química, com 11%; botânica e zoologia, com 9%; e mais algumas ciências puras, todas com menos de 5% do total. Conclusão da FAPESP: o forte crescimento nas publicações "não produziu efeito real no incremento da produção tecnológica e nos esforços de inovação das empresas brasileiras".
Em janeiro, relatório da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (Ompi) revelou que o Brasil registrou apenas 221 patentes em 2003. Nesse ano, a China registrou 1,2 mil, a Índia 611 e a África do Sul 376. A pequena Cingapura pediu registro de 313 patentes. Em 1999 o Brasil registrou 126 patentes, o dobro da Índia, mas em 2003 registramos um terço do que alcançaram os indianos. Também em 1999 registramos metade das patentes registradas pela China e em 2003 os chineses registraram seis vezes mais patentes que o Brasil. A comparação com a Coréia do Sul é também grave. Perdemos, portanto, aproximação com os concorrentes. Vale lembrar que, dos 113 mil registros de propriedade intelectual de 2003, os EUA são donos de 41 mil; o Japão, de 16,7 mil; e a Alemanha, de 13,9 mil.
Por que a produção de ciência não vira tecnologia no Brasil? Repetir que a universidade está isolada da empresa não resolve, porque esse isolamento está diminuindo. A universidade produz muito paper e pouca patente porque é estimulada, pressionada para isso. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que domina a avaliação dos cursos de pós-graduação, desenvolveu áurea de infalibilidade em torno de sua função pelos bons serviços realizados no passado. Não é mais desse modo. Há excesso de burocracia e critérios de avaliação de produção científica discutíveis, pouco atualizados e muito suscetíveis a influências regionalizadas. Isso não é problema só deste governo: desde os anos 80 os mesmos quadros funcionais dominam a Capes, coordenados com interesses localizados, em especial em algumas universidades federais. O mundo e a relação entre o que é conhecimento e a relevância dele mudaram e a Capes manteve seus postulados: pontuação de produção científica vem de papers publicados. A regra vale também em institutos de pesquisa.
O estudo da FAPESP colocou o dedo na ferida. Revelou quem produz (dez universidades no País são responsáveis por 96% desses artigos, metade deles nas três universidades estaduais paulistas) e exibiu a "solidão" do Estado no investimento em P&D. Fez mais: mostrou que eficiência em pesquisa pura exige esforços concentrados, enquanto inovação tecnológica demanda a maior "capilaridade" possível. É na empresa que a ciência vira "solução", vira produto melhor e mais barato. Por isso o pesquisador (como aliás já disse o diretor científico da FAPESP) deve ficar na empresa e não na universidade. Mas aí ele não "fabrica" paper... e o burocrata perde o poder de dizer quem deve evoluir, ou não, na carreira acadêmica.