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Jornal da USP online

Em favor da paz e da tolerância

Publicado em 24 fevereiro 2013

Por Valéria Dias

Uma parceria entre o Laboratório de Estudos da Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) da USP e a entidade judaica B’nai B’rith do Brasil possibilitou a criação, no último mês de dezembro, do Instituto Shoah de Direitos Humanos (ISDH). O instituto, que surge como um departamento da entidade judaica, vai administrar um acervo inicial com cerca de 12 mil documentos sobre o Holocausto – a matança de 6 milhões de judeus pelo regime nazista, que controlou a Alemanha de 1933 a 1945 –, reunidos nos últimos anos por pesquisadores do LEER.

São documentos oficiais, biblioteca, testemunhos de sobreviventes e objetos doados por aqueles que buscaram refúgio no Brasil fugindo do nazismo, como fotografias, passaportes e diários. O convênio entre a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e a B’nai B’rith do Brasil deve ser assinado em breve.

“A missão do Instituto Shoah de Direitos Humanos é, tendo o Holocausto como referência histórica, pesquisar, informar e educar sobre os perigos do racismo, da xenofobia e do negacionismo, que, nestes últimos anos, têm proliferado em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, atuando, assim, em prol de uma cultura de paz e tolerância”, destaca Abraham Goldstein, presidente da B’nai B’rith Brasil.

A professora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do LEER, conta que, nos últimos anos, cresceu o número de pesquisadores que procuravam o laboratório interessados em desenvolver trabalhos sobre o tema tendo como fonte de pesquisa o Arquivo Virtual do Holocausto (Arqshoah), projeto do LEER e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). E também de professores em busca de material didático, em razão das Jornadas Interdisciplinares para o Ensino do Holocausto, atividade oferecida a docentes do ensino fundamental e médio a partir de parceria entre a B’nai B’rith e o LEER.

Iniciadas em São Paulo, as jornadas aconteceram também no Rio de Janeiro, Niterói, Curitiba, Porto Alegre e Brasília. Em 2012 foram cerca de 1.200 educadores reunidos somente em São Paulo. “Decidimos formar o Instituto Shoah de Direitos Humanos ao constatarmos a evolução e aceitação desse programa e a oportunidade de ampliá-lo para outras cidades, além de complementá-lo com outras formas de expressão, como teatro, música e literatura”, afirma Goldstein. Com o instituto, todas as ações de pesquisa e divulgação da história do Holocausto serão intensificadas.

Ainda em 2013, o instituto pretende implantar programas como oficinas e workshops (teatro, música e literatura) para a reciclagem de educadores, além de colóquios, simpósios, encontros de gerações, cursos e exposições iconográficas para a divulgação e debate sobre o Holocausto, intolerância e direitos humanos.

Bolsista – Outra iniciativa é o Projeto Adote um Bolsista. “A ideia é captar recursos com empresários e pequenos doadores para que haja o financiamento, durante um ano, de bolsistas que irão realizar pesquisas sobre o Holocausto, antissemitismo e direitos humanos, com possibilidade de abatimento em imposto de renda”, explica a professora.

Outra vertente são ações envolvendo relações internacionais com instituições e órgãos governamentais que também atuam em favor da construção de uma cultura voltada para a paz e a tolerância.

Há ainda o projeto Da Tragédia à Realidade: a Arte dos Judeus Refugiados do Nazifascismo, que pretende mapear as obras originais (esculturas, pinturas, fotografias) de artistas judeus, hoje sob a guarda de museus de São Paulo. A equipe do Arqshoah já está preparando o mapeamento, além de registrar testemunhos de artistas como Walter Levy, Alice Brill, Agi Strauss, Arpad Zsenes, Erich Brill, Axl Leskoschek, Franz Karjsberg, Fayga Ostrower, Franz-Josef Weissmann, Gerda Brentani, Holde Weber, dentre outros.

Para 2014, está prevista a exposição “Movimento Áustria Livre: a resistência ao nazismo”, que trata dos protestos ocorridos no Brasil contra a ocupação da Áustria em 1938 pelos nazistas. “O movimento dos austríacos que moravam no Brasil foi uma reação política à ocupação”, conta Maria Luiza. Ela diz que vários dos resistentes foram fichados pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops). O evento inclui seminário, exposição e lançamento de livro em parceria com a Embaixada da Áustria no Brasil, Arquivo Público do Estado e Arquivo da Resistência de Viena.

Mais que museu – Segundo Maria Luiza, “o Instituto Shoah é mais que um museu: além de arquivo físico, com material histórico sobre a trajetória dos sobreviventes do Holocausto radicados no Brasil, haverá um centro educativo, com ações direcionadas para a reciclagem de professores, tendo como proposta a educação em direitos humanos”.

Abraham Goldstein completa: “Existem, pelo mundo, diversas instituições e museus sobre o tema. No Brasil, ano passado, foi inaugurado em Curitiba o Museu do Holocausto. Já o ISDH tem o objetivo de agir de forma próativa, implementando estratégias multidisciplinares direcionadas para a produção de conhecimentos e a conscientização da população brasileira dos perigos da proliferação de ideias racistas”.

Interessados em doar material sobre o Holocausto e recursos (Lei Rouanet) devem entrar em contato pelos e-mails malutucci@gmail.com, com a professora Maria Luiza Tucci Carneiro, ou agoldstein51@gmail.com, com Abraham Goldstein. O Instituto Shoah fica na Rua Caçapava, 105, 4ºandar, Jardins, São Paulo. Mais informações pelos e-mails brasil@bnai-brith.org.br e eleer@usp.br e no site www.arqshoah.com.br.

Agência USP de Notícias