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TV TEM (São José do Rio Preto, SP)

Em estudo: osso, cartilagem e fissura

Publicado em 12 novembro 2006

De um lado, pesquisadora da Unesp de Botucatu, Elenice Deffune, avança nos estudos sobre regeneração óssea e cartilagem

Os médicos precisaram de 12 anos para diagnosticar a doença que dificulta os movimentos de Giuliana Mariano. Hoje ela sabe que é portadora de uma distrofia muscular rara e progressiva. Aos 26 anos, ela não sabe como, mas acredita que as células-tronco vão curá-la. "Não posso perder as esperanças", diz.
Antes de garantir a cura para Giuliana, pesquisadores precisam comprovar as possibilidades de aplicação das células-tronco, divididas entre adultas e embrionárias (leia no quadro abaixo). Em Bauru e Botucatu, atualmente, as pesquisas envolvem somente as adultas.
Na FMB (Faculdade de Medicina de Botucatu) da Unesp (Universidade Estadual Paulista), os primeiros estudos com células-tronco foram na década de 1990 e envolviam células de camundongo. Em 2001, iniciaram as pesquisas com células-tronco adultas de humanos.Desde então, o Laboratório de Engenharia Celular da faculdade centrou as atividades em tecidos ósseos e cartilaginosos. A técnica desenvolvida com tecidos ósseos já é adotada na área de implantes dentários e a expectativa é de que tenha aplicações em casos de osteoporose no futuro.
Segundo a coordenadora da linha de pesquisas em células-tronco da FMB, Elenice Deffune, a intenção agora é se aproximar do Instituto Branemark, centro especializado de tratamento em osseointegração, e disponibilizar a técnica para tratamentos de ortopedia.
Na área de tecidos cartilaginosos, as pesquisas estão em fase de teste animal, mas os indicativos são positivos e no final de 2007 devem começar em humanos. A técnica, já usada em outros países, seria adotada para recuperar regiões do corpo afetadas por queimaduras, câncer, ou possibilitar tratamento a pacientes com lesões articulares causadas por LER (Lesão por Esforços Repetitivos). Para a pesquisa ser feita em humanos, a instituição precisa de autorização da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), do Ministério da Saúde.
A pesquisadora Elenice Deffune adianta que o laboratório pretende iniciar também estudos sobre células nervosas, adiposas e de pele. Em 2007 começam os primeiros testes em animais e a expectativa é recuperar áreas paralisadas e regenerar partes da pele de vítimas de câncer ou de queimaduras graves.
Os reais resultados, no entanto, precisam aguardar as pesquisas. A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que 128 milhões de pessoas sejam beneficiadas com a terapia de células-tronco. As células adultas já apresentam bons resultados, mas ainda é necessário estudar mais. "A terapêutica não está pronta. Os pacientes precisam desta esperança, mas temos que ser moderados quando se fala nisso", pondera Elenice.

USC mantém dois projetos
A USC (Universidade do Sagrado Coração) promove estudos com células-tronco adultas em duas linhas, ambas relacionadas ao curso de mestrado de biologia oral. Um deles estuda a aplicação das células para recuperação de fissura labiopalatal.
Coordenado pela pesquisadora e professora, Lilian Piñero Eça, o estudo faz parte do mestrado da aluna Renata Ramalho e começou em 2005. Até o momento, os testes foram feitos em animais e os primeiros resultados se mostram positivos. O objetivo é, a partir das células-tronco adultas retiradas do cordão umbilical do bebê, iniciar a recuperação da área afetada pela fissura já no sexto mês de vida. "Hoje é preciso esperar até um ano e isso gera complicações para a criança", explica Lilian Eça.
No final de 2007 a pesquisa deve formalizar os resultados e em 2008 os estudos em humanos devem começar. "Acho que serão necessários dez anos para concluirmos esta pesquisa", lembra.
A outra frente de estudo é coordenada pelo pesquisador Sérgio Catanzaro, coordenador do programa de pós-graduação da USC. Resultado de oito anos de pesquisa, ele fundamenta-se na regeneração óssea e já é adotada por médicos para recuperação de grandes perdas ósseas causadas por cirurgias de câncer ou traumatismos.
O objetivo é agora é desenvolver materiais biosintéticos capazes de estimular a produção das células-tronco injetadas no local afetado.

USP e Centrinho estão no início
No segundo semestre deste ano, a USP (Universidade de São Paulo) de Bauru e o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (Centrinho) formaram grupo de pesquisadores para elaboração de linhas de estudo com células-tronco adultas.
Elas serão relacionadas às áreas de odontologia e deficiência auditiva. "Primeiro teremos que conseguir recursos para compra de equipamentos", explica a presidente das comissões de pesquisa do Centrinho e da Faculdade de Odontologia, Maria Inês Pegoraro Krook.
As pesquisas com células-tronco abrem precedentes para novos tratamentos, mas pesquisadores lembram a dificuldade de financiamento. As pesquisas da Unesp de Botucatu, por exemplo, envolvem R$ 800 mil e os estudos da USC para recuperação de fissuras labiopalatais, cerca de R$ 300 mil, destinados pela própria universidade.
Quando a universidade não tem recurso, a fonte são agências como a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e a CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
Desde 1997, a Fapesp aprovou 84 projetos sobre células-tronco adultas. Atualmente, 15 mil pesquisas são financiadas em diversas áreas. Já o CNPq não soube estimar o número real, mas ao menos 41 projetos são custeados desde 2005. O conselho afirma ter cadastrado cerca de 400 grupos de pesquisas de células-tronco.

Para geneticista, ausência de informação prejudica pesquisas
Foram as discussões sobre o uso das células-tronco embrionárias que trouxeram à tona a terapia celular. A geneticista da USP (Universidade de São Paulo), Mayana Zatz, e defensora do uso destas células, esteve em Bauru esta semana. Durante palestra realizada na Faculdade de Odontologia de Bauru afirmou que a desinformação prejudica as pesquisas.
Consideradas mais promissoras do que as adultas, as células embrionárias estão em fase inicial de pesquisas. Até 2005, questões religiosas e científicas barravam o uso destas células por se acreditar que embriões humanos seriam mortos. "Não vamos acabar com a vida", afirma Mayana Zatz.
Desde o final do ano passado, a Lei de Biossegurança permite o uso de embriões congelados há mais de três anos e doados com o consentimento dos pais. A aprovação da lei se tornou sinônimo de expectativas para descobrir tratamento para pacientes de lesões medulares, diabetes, doenças cardíacas, entre outras. As pesquisas, porém, estão em fase inicial. "É preciso lembrar que a terapia celular não será um milagre para todos os males. É preciso realizar muitas pesquisas ainda", diz a geneticista.