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Jornal da USP

Em encontro na Fapesp, comunidade científica discute os temas que serão debatidos na Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, em junho, no Rio de Janeiro

Publicado em 12 março 2012

Por Sylvia Miguel

O lema da USpScientiavinces (vencerás pela ciência), foi lembrado pelo presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), professor Celso Lafer, na abertura do workshop preparativo para a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá no Rio de Janeiro de 20 a 22 de junho.
O workshop, realizado pela fundação nos dias 6 e 7 de março, mostrou de que forma os novos conhecimentos gerados a partir dos três mais amplos programas de pesquisa conduzidos pela agência nos últimos anos têm contribuído para a criação e condução de políticas públicas ambientalmente mais amigáveis.

"Só com ciência não serão resolvidos os desafios da Rio+20 e os grandes desafios da agenda mais ampla da relação entre ambiente e desenvolvimento. Porém, sem a ciência não há condições de desatar os nós que emperram o encaminhamento do desenvolvimento sustentável no mundo do século 21", lembrou Lafer.

Lafer frisou que as discussões sobre energia renovável continuarão na ordem do dia, mesmo que "esse tema proposto pelo Brasil com respaldo dos países da América Latina e do Caribe não tenha prosperado na Rio+10", disse, referindo-se à cúpula de Johannesburgo, em 2002. A alteração da matriz energética mundial vai requerer conhecimentos e nessa matéria o Brasil tem uma experiência que pode contribuir de maneira substantiva para as discussões internacionais, defendeu.

Gerar conhecimento para o progresso e a sustentabilidade faz um sentido todo especial quando as informações são capazes de interpor argumentos de países ou blocos hegemônicos, lembrou o ex-reitor da USP professor José Goldemberg, ao responder a uma pergunta da plateia sobre a sustentabilidade dos biocombustíveis.

Goldemberg, que falou sobre a produção de energia no contexto da Rio+20, enfatizou a insustentabilidade dos padrões mundiais de consumo e da limitação da matriz mundial energética primária, baseada essencialmente em fontes fósseis: 28% provêm de carvão, 34% de petróleo e 22% de gás. Isso, com o agravante de que os ínfimos 12,9% de fontes primárias renováveis provêm em grande parte (8%) de biomassa tradicional, como queima de madeira.

Na Europa, os argumentos contra a sustentabilidade dos biocombustíveis são muito fortes. "Mas por uma razão muito simples. Porque, se o etanol brasileiro se expandir, abrirá espaço para o etanol produzido a partir de milho, nos Estados Unidos, e o etanol derivado de outros produtos, na Europa", disse.

Ciência e política - É preciso lembrar que a substituição de culturas ainda é um assunto candente na Europa. Falar de espaços agricultáveis e de que forma a produção de biocombustíveis afeta a oferta de alimentos tem fundamento em países pequenos, onde cada centímetro de solo faz diferença. Mas esse discurso não é aplicável para o Brasil e é por isso que os dados e indicadores criados no País podem contribuir para mostrar aos cientistas de outros países que o que falamos faz sentido, ressaltou Goldemberg.

Talvez um exemplo máximo da posição contrária aos biocombustíveis seja a declaração feita por ninguém menos que o Prêmio Nobel da Paz de 2007, Rajendra Pachauri, atual presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Em entrevista publicada no site da ONG Andi - Comunicação e Direitos, o cientista declara que "a conversão de milho em etanol ou a conversão de óleo de palma (o azeite de dendê) em bio-combustível não é de fato uma boa abordagem".

Goldemberg discorda desse argumento, afirmando que os biocombustíveis, e em particular o etanol, são as melhores saídas para a substituição de fontes fósseis hoje, especialmente porque outras fontes renováveis, como a eólica e a solar, entre outras, ainda apresentam problemas de escala e tecnologia. Segundo o cientista, entre 20% e 40% das necessidades energéticas do mundo poderiam ser substituídas por biomassa, sendo o "etanol da cana-de-açúcar de países tropicais uma carta importante na discussão".

Segundo Goldemberg, a demanda por petróleo vem crescendo no mundo, em parte devido ao aumento do número de automóveis por habitantes. Num contexto mundial em que "o automóvel virou sinônimo de liberdade de ir e vir", a adoção do carro elétrico pode ser "uma saída perversa", afirmou.

O carro elétrico pode até contribuir para a redução do aquecimento global porque não emite os gases do efeito estufa. Mas, ainda assim, a eletricidade usada nesses veículos tão em voga na Europa e nos Estados Unidos provém principalmente de fontes fósseis. Portanto, não é um ciclo sustentável, argumenta.

Futuro - O "rascunho zero" - como é chamado informalmente o documento O Futuro que Queremos, elaborado pelos países-membros da ONU e que servirá de base para as discussões na Rio+20 - constitui essencialmente "um documento de exortações", diz Goldemberg. "Há 120 parágrafos com exortações e apenas seis parágrafos fazem considerações concretas sobre os rumos a seguir", disse o professor. Os parágrafos 70 e 71, justamente os que dispõem as diretrizes sobre energia, "são os mais específicos do documento", afirma.

Em síntese, a proposta lançada pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Kimoon, é que até 2030 seja dobrada a eficiência com que a energia é usada, ao mesmo tempo em que propõe duplicar, no mesmo período, a parcela de energia renovável na matriz energética mundial.

Trinômio - O secretário-executivo para a comissão brasileira da Rio+20, embaixador Luis Alberto Figueiredo Machado, destacou que o sucesso da conferência dependerá da incorporação efetiva do trinômio da sustentabilidade, composto pelas dimensões ambiental, econômica e social.

O embaixador reafirmou a posição do governo brasileiro, de olhar a sustentabilidade atrelada à erradicação da pobreza. "Tanto é que o governo usa o termo economia verde inclusiva para buscar resumir esta ideia", disse.
Ao final do workshop promovido pela Fapesp (após o fechamento desta edição), estava prevista a divulgação de um documento sintetizando os resultados de um questionário eletrônico de 40 perguntas encaminhado à comunidade científica envolvida nos programas temáticos Biota, Bioen e Climate Change, da Fapesp. "A ideia é sabermos quanto o pesquisador conhece do impacto que seu trabalho produz sobre as políticas públicas e sobre um elenco de legislações criadas a partir de pesquisas científicas", disse o coordenador do Biota-Fapesp, professor Carlos Joly, da Unicamp.

Mais informações sobre a Rio+20 e a íntegra do documento O Futuro que Queremos, da ONU, estão disponíveis no endereço eletrônico www.fapesp.br/rio20.

Crítica: para José Goldemberg, o documento que norteará as discussões na Rio+20 contém poucas propostas efetivas para a solução dos problemas ambientais