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Em cinco anos, Brasil investe 5% do investido pela União Europeia em pesquisas sobre envelhecimento

Publicado em 09 fevereiro 2019

"A vida tem sons que pra gente ouvir / Precisa entender que um amor de verdade / É feito canção, qualquer coisa assim / Que tem seu começo, seu meio e seu fim", diz a canção do Roupa Nova.

Início, meio e fim. Assim é a vida. Mas a verdade é que cada vez mais, o fim é menos breve.

A sessão de musicoterapia no 4º andar do hospital Oswaldo Cruz é oferecida para pacientes e acompanhantes. A programação ainda tem aromaterapia, reflexologia e yoga. Essa foi uma das ideias do hospital para se adaptar ao fato de que além de 60% dos pacientes serem idosos, eles também passaram a receber acompanhantes mais velhos, com suas próprias limitações e até oferecem dietas específicas.

O hospital privado paulistano é referência em envelhecimento e fez parcerias pra ajudar outros 40 hospitais públicos de 9 estados brasileiros. A longevidade é um dos pilares disso.

Além da ala para acompanhantes, o hospital também fez adaptações nos quartos e corredores, treina funcionários e criou um manual de independência pós-alta para o público com idade mais avançada.

A Fátima Gerolin é superintendente assistencial do hospital e responde: com tudo isso, essas pesquisas e parcerias, o Brasil vai estar preparado para o aumento exponencial de quem tem mais de 60 anos?

"Isso eu não posso garantir (risos). Acho que tem uma grande chance. Gosto de pensar inclusive positivamente. Mas acho que existe uma grande possibilidade, porque existe de uma certa forma uma troca grande entre o hospital público e privado", aposta ela.

Pra poder entender quanto de fato as principais agências de pesquisa brasileira investem em envelhecimento, a reportagem da CBN encomendou levantamentos para o Capes, o CNPq e a Fapesp. Eles pesquisaram 16 marcadores de tema de pesquisa relacionados com isso entre 2014 e 2018 e chegaram aos seguintes números:

Ao todo, o país investiu R$ 448 milhões de reais em pesquisas sobre o assunto. Foram 1736 estudos realizados e pelo menos 588 continuam em andamento em 2019.

Há desde bolsas simples, como projetos mais complexos. Uma parceria entre o CNPq e a agência de pesquisas chilena Conicyt garantiu R$ 566 mil pra duas pesquisas. Uma sobre cidades latino-americanas para o envelhecimento saudável. Outra que fala sobre o declínio cognitivo no Alzheimer. No Capes, editais específicos financiaram pesquisas de tecnologia assistiva, serviços e produtos que garantem independência no envelhecimento, o que acaba ajudando quem tem dificuldade pra andar.

A professora Tania Zahar é especialista nesse mercado e dá aulas na pós-graduação da ESPM, incentivando esse tipo de estudo. Ela avalia que, a exemplo das universidades, as empresas deveriam se debruçar sobre o tema, pra se preparar pro futuro.

"Há de se mudar muitas coisas, inclusive a forma de se estudar o idoso, de entender o comportamento dele, de segmentar. O Ipsos, que é um estudo de meios super famoso, ele fez uma ressegmentação dos 50+. Que não é mais um bloco só. Eles estão trabalhando 50 até 55, 55 até 60, 60 até 65, eles estão trabalhando em grupos etários distintos. Isso já é um sinal de que as empresas também precisam olhar o público idoso de um jeito diferente e se comunicar com eles já é um grande desafio", explica.

Mas será que o Brasil tá bem na fita? O que os outros países andam fazendo por aí?

Horizon 2020: o maior programa de pesquisas do mundo é uma iniciativa da União Europeia, o maior bloco de países do mundo. €$ 80 bilhões para investimentos variados em pesquisas de diversas áreas entre 2014 e 2020.

Uma das categorias estudadas é o envelhecimento. São €$ 2 bilhões, que equivalem a R$ 8,6 bilhões. A ideia é fazer projetos que preparem os países para dar longevidade e atender bem os mais velhos.

São 28 países no bloco, o que dá uma média de R$ 307 milhões por país. Um valor menor do que os R$ 448 milhões investidos pelo Brasil no mesmo período dos últimos 5 anos.

Só que além das pesquisas sobre o público com mais de 60, tem também as pesquisas de quem já tem essa idade e pensa no mundo do futuro como faz o José Umberto Damigo, de 75 anos, que se juntou num projeto de empreendedorismo com outros contemporâneos e decidiu estudar a compostagem.

"No início é insignificante, mas se pegar como pegou a reciclagem, vai ter alguma proporção na economia de espaço e proteção ao meio ambiente transformando resíduos orgânicos em adubo ao invés de dispensar em aterros sanitários. É uma ideia que eu comecei agora, neste ano, estou ainda na fase de pesquisa, de me aculturar do assunto, pra depois propor alguma ação mais prática", diz.

Pois é, José, olhando pro Brasil do futuro, tem outro número que chama a atenção. Nas projeções do IBGE, o ano de 2047 marcará uma virada. É quando o número de mortes vai ultrapassar o número de nascimentos.

Também pudera, se hoje nossa idade mediana é de 33 anos. Em 2060 vai ser de 46. Um salto rápido, né?

Ao longo da semana falamos do Brasil! Que não tem pra onde correr, vai ficar mais velho mesmo...

Mas, e você? Tá preparado pra envelhecer?

Por Pedro Durán (pedro.duran@cbn.com.br)

*com colaboração de Bianca Kirklewsk e sonorização de Claudio Antonio

Horizon 2020, o maior programa de pesquisas do mundo, iniciativa da União Europeia. Foto: divulgação (Foto: )