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Revista Beach & Co

Em busca urgente de pesquisadores

Publicado em 01 dezembro 2011

A descoberta do pré-sal na Bacia de Santos, aliada à atual fase desenvolvimentista do país, embora bem-vinda, traz consigo um grande impasse: a falta de mão de obra especializada. E esta foi a temática dominante do 7º Gás na Economia, Fórum de Ciência e Tecnologia, Pesquisa e Inovação, realizado em 20 de setembro passado, e que este ano discutiu a criação do Parque Tecnológico de Santos.

Convidados, palestrantes e autoridades em geral foram unânimes em suas mensagens: precisam-se, urgente, de pesquisadores.

Segundo Guilherme Sales Soares de Azevedo Melo, diretor de Engenharia, Ciências Exatas, Humanas e Sociais do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), enquanto que no Brasil há 1.3 pesquisador para cada mil habitantes, na China, país com mais de um bilhão de habitantes, esse número é de 1.7 e nos países desenvolvidos chega a 9.

O assunto é grave, como esclarece Jorge Luis Nicolas Audy, pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e diretor da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec): "Pesquisa se faz com doutores, não com gente bem intencionada. E isso não significa diminuir o tempo da formação dos nossos doutores, pelo contrário, precisamos que esse tempo de estudo aumente, porque o conhecimento é cada vez mais complexo. O que precisamos é diminuir o tempo para a busca de inovação. A universidade necessita de uma mudança cultural rápida, mas empresas e governos também estão descompassados nesse jogo do desenvolvimento."

José Luis Marcusso, gerente geral da Unidade de Operações de Exploração e Produção da Bacia de Santos da Petrobras

De acordo com o secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia de São Paulo, Paulo Alexandre Barbosa, o estado detém 51% de toda a produção em ciência e tecnologia do Brasil. Mesmo assim, os pesquisadores ainda estão, em sua maior parte, na academia. Nos Estados Unidos, para cada três pesquisadores em empresas privadas, há um na universidade; o inverso do que acontece por aqui. E isso dificulta a transformação do conhecimento em bens com valores agregados.

Como se não bastasse a falta de investimentos na pós-graduação, a educação básica brasileira também ainda está muito aquém do desejável, como mostram os últimos resultados obtidos pelo país nas avaliações internacionais. Apesar de ter melhorado em relação às avaliações anteriores, o Brasil ainda ocupa uma das últimas colocações em matemática e ciências. "Essa dificuldade gera os gargalos na falta de mão de obra qualificada no país e a necessidade de importação de profissionais", diz Jorge Luis Nicolas Audy.

Uma das soluções pode estar na destinação de parte dos recursos obtidos com o pré-sal para a educação e a ciência e tecnologia, como defendem, por exemplo, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que reivindicam 10% dos royalties do petróleo para essas áreas.

Conectores

Paulo Alexandre Barbosa, secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do estado de São Paulo, falaram sobre os desafios da educação no setor de petróleo e gás

Para se promover a interação entre universidade-empresa, faz-se necessária a intermediação das agências de fomento à pesquisa. Na concepção do diretor-presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), João Fernando Gomes de Oliveira, os conectores entre o setor acadêmico e as empresas são as fundações, a exemplo da Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Em seu entendimento, essas instituições podem atuar como agentes de transformação da pesquisa em produto para aplicação nas empresas, e dar suporte antes e depois de o produto chegar ao mercado, apresentando as soluções mais adequadas, estudando o ciclo de vida dos produtos no ambiente etc.

Para o coordenador adjunto para Pesquisa em Inovação Tecnológica da Fapesp, Sérgio Queiróz, a interação entre universidade e empresa no país ainda é fraca. Essa ligação é fundamental para que a inovação aconteça.

Desafios

A responsabilidade em relação a um futuro bem próximo é grande, como diz José Luiz Marcusso, gerente geral da Unidade de Operações de Exploração e Produção da Bacia de Santos da Petrobras. Atualmente, atuam três plataformas marítimas, mas, até 2020, será feito um investimento em mais 30. Só para o setor de petróleo e gás, o Brasil precisará de 200 mil engenheiros e tecnólogos. Para se ter uma ideia, nem todos os engenheiros formados, mais os que estão em formação no país suprirão a demanda. Diz Marcusso: "O país produz 2 milhões e 100 mil barris de petróleo por dia; o plano é chegar próximo a 5 milhões até 2020. Para isso, a Petrobras deve investir em grandes programas tecnológicos e em parcerias com universidades e empresas. E Santos tem como se consolidar como grande pólo tecnológico."

Já o gerente de relacionamento com a comunidade de Ciência e Tecnologia da Petrobras Luis Claudio Sousa Costa, explica que o investimento, ano passado, em universidades e centros de pesquisa foi de US$1,2 bilhão. "Uma das maiores agências de fomento à pesquisa do país".

Nos próximos cinco anos, segundo Costa, deve ocorrer um "investimento agressivo" no pré-sal, da ordem de US$ 5 bilhões, sendo que 95% desse montante ficarão dentro do país. Mas os desafios são grandes para os pesquisadores e Costa enumera alguns: a expansão de limites (ele não acredita que o petróleo e o gás vão desaparecer tão cedo, mesmo assim, a empresa continua investindo em outras fontes de energia) e a logística; a problemática da emissão e captura de gás carbônico na atmosfera, uma vez que o óleo do pré-sal lança mais CO2 que o óleo de Campos; as rochas são muito duras e, investir na perfuração a laser e melhorar o escoamento do óleo, que fica impregnado nas rochas é imprescindível (a atual é feita com diamante - o material mais resistente encontrado na natureza).

Na opinião do superintendente de Planejamento e Pesquisa da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Elias Ramos de Souza, o pré-sal é uma oportunidade ímpar para o Brasil crescer, mas é preciso aproveitar e investir em recursos humanos.

Os desafios ambientais também são motivo de preocupação para Ícaro Aranovich da Cunha, cientista político e social e professor da Universidade Católica de Santos. Para ele, são necessários estudos permanentes de impactos ambientais, consultas e discussões entre os atores no processo de desenvolvimento.

Só para o setor de petróleo e gás, o Brasil precisará de 200 mil engenheiros e tecnólogos. Para se ter uma ideia, nem todos os engenheiros formados, mais os que estão em formação no país suprirão a demanda