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Em busca do equilíbrio: melhorar práticas em sala de aula passa pela valorização do estágio na formação de professores

Publicado em 28 maio 2015

Por Christina Stephano de Queiroz

"Quando o docente se dedica apenas à transmissão do conhecimento, acaba se perdendo do seu papel, pois hoje o aluno consegue a informação de maneira rápida na internet", alerta Raquel Lazzari Leite Barbosa, professora da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Coordenadora de um projeto da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) que investiga processos de avaliação do ensino, ela constatou que muitos professores ainda preferem trabalhar com provas que analisam a capacidade de memorizar conteúdos. "E a forma como eles concebem a avaliação é a mesma em que se baseiam para dar suas aulas", afirma.

Para ajudar os futuros professores a repensarem sua função na sala de aula, Raquel pede aos seus estudantes que relembrem os conhecimentos e as práticas pedagógicas que tiveram durante o ensino médio e que consideram negativas. "Com isso, eles tomam consciência de atividades que não funcionam e não perpetuam essa relação quando lecionam", acredita. Além disso, nos estágios obrigatórios realizados nas escolas públicas, ela exige que os estudantes não apenas observem a dinâmica das aulas, mas também proponham mudanças e melhorias. De acordo com ela, seus alunos realizam estágios tanto em instituições com fraco desempenho - para tentar entender os motivos dos problemas - como em outras com bons resultados. "Assim, eles podem comparar as duas situações e pensar em formas de intervir naquilo que não funciona", justifica.

Para as licenciaturas e os cursos de pedagogia, Mozart Neves Ramos, diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna, propõe a criação de um programa de estágio pedagógico semelhante ao modelo das residências médicas. "Hoje o licenciado é um bacharel que teve algumas disciplinas de pedagogia. Não tem vivência nas escolas", critica. Para resolver esse problema, ele defende a criação de um programa de certificação de instituições, para que elas operem como residências docentes em áreas diversas, como química ou biologia. "Com isso, seria possível padronizar, organizar e supervisionar os estágios realizados pelos futuros professores do ensino médio", conclui.

Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, também defende a reformulação dos estágios docentes no sentido de reaproximar as universidades da realidade das salas de aula. O primeiro passo para mudar o cenário atual, segundo ele, é aumentar a consciência das universidades sobre as formações que oferecem, que pouco se debruçam sobre as questões práticas que o aluno irá enfrentar. "Muito se discute sobre o direito à aprendizagem desde pontos de vista teóricos, porém há pouca preocupação em falar das condições materiais e objetivas para fazer valer esse direito", reforça. Henriques defende que os cursos de pedagogia e licenciatura precisam investir mais tempo para responder perguntas do tipo: como lecionar bem em aulas de 45 minutos? Como motivar os estudantes? Como trabalhar com exemplos e não só com teoria? Como fazer com que o conteúdo se conecte com a vida dos alunos?