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A Tribuna (Santos, SP) online

Em busca do berço das tempestades

Publicado em 29 março 2011

Por Ana Lucia Azevedo - O Globo

Aviões, balões, radares e uma parafernália de equipamentos e modelos computacionais sofisticados começam a ser instalados esta semana em Fortaleza para responder a um das perguntas mais antigas, fundamentais e quase sempre sem resposta do Brasil: será que vai chover? A chuva é um paradoxo. Misto de problema frequente e fenômeno de dinâmica complexa e ainda pouco conhecida.

É aí que entra o Projeto Chuva, cuja meta é entender o regime de precipitações no Brasil e, com isso, melhorar a previsão e dizer não só se vai chover quanto que tipo de impacto isso poderá causar. De Fortaleza, o projeto correrá o País, no rastro das nuvens e das tempestades.

Coordenado pelo Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTec/Inpe) e integrado por mais de uma dúzia de instituições brasileiras, além da Nasa e de outros centros estrangeiros, o projeto começa a sua jornada na investigação das chamadas nuvens quentes. Você pode nunca ter ouvido falar dela, mas certamente já sentiu como uma nuvem quente pode ser desagradável.

Na verdade, de quentes propriamente ditas tais nuvens não têm nada. Elas recebem esse nome porque seus topos estão abaixo dos cinco mil metros de altitude e, por isso, não chegam à fase de formar gelo. Mas podem despejar colossais volumes de água. São aquelas nuvens que costumam acompanhar a Zona de Convergência do Atlântico Sul (Zcas), chovem por dias seguidos, cinzentas, persistentes, sem os trovões e raios das tempestades, mas com força para causar tragédias.

"O desmoronamento do Morro do Bumba, em Niterói, no ano passado, pode ter sido causado por nuvens quentes. Elas se formam ao longo da faixa litorânea brasileira", observa o coordenador do Projeto Chuva, Luiz Augusto Toledo Machado, do CPTec.

Ele explica que o objetivo do projeto, financiado pela Fapesp, é fazer uma espécie de tomografia das nuvens. Nem uma gota vai escapar.

"Queremos ver o interior da nuvem, o caminho das gotas de água, como se formam. Tudo isso é importante para a previsão do tempo. Os processos que acontecem no interior das nuvens são pouco conhecidos", observa Machado.

Pois os satélites não conseguem captar as quentes. Elas confundem os equipamentos e podem passar despercebidas pelos satélites.

"As chuvas tropicais são ainda mal conhecidas de forma geral. Quase toda a ciência climática foi produzida em países temperados, menos interessados em estudar os problemas dos trópicos. Precisamos fechar essa lacuna", afirma Machado.

E é em Fortaleza, onde a estação das chuvas começa em abril, que os pesquisadores buscarão solucionar vários desses mistérios. A campanha científica em Fortaleza, organizada pela Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme), testará ainda um sistema de alerta, em parceria com a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros.

"Vamos ampliar e testar um protótipo que desenvolvemos para o Vale do Paraíba, e que já foi usado em cerca de 25 municípios da região", diz o coordenador do sistema de alerta, Carlos Frederico Angelis, chefe da Divisão de Satélites do CPTec.

O sistema é um programa de computador que monitora as condições do tempo e dá alertas automáticos. Ele combina a previsão do tempo com as condições geográficas e detalhes urbanos (como, por exemplo, a proximidade de hospitais) de uma cidade.

"Ele pode dizer, por exemplo, que áreas de uma cidade serão alagadas se um determinado rio subir três metros durante uma chuva. Com isso, a Defesa Civil pode retirar pessoas de áreas de risco", afirma Angelis.

De Fortaleza, os pesquisadores rumarão, em junho, para Belém. O alvo será uma linha de instabilidade capaz de fazer chover intensamente.

Sudeste

No fim do ano será a vez do Vale do Paraíba, com seu tempo diverso, tempestades elétricas e também - mais uma vez - nuvens quentes. Foz do Iguaçu e as frentes frias tão típicas da Região Sul serão a próxima etapa. O projeto incluirá ainda a chuva que vence a secura de Brasília. Por fim, as torrenciais tempestades amazônicas em Manaus.

Ao final do projeto, em 2014, os pesquisadores esperam ter em mãos uma ferramenta poderosa para evitar desastres provocados pela chuva.

"Será fundamental, claro, também haver uma integração entre todos os envolvidos na previsão e combate de desastres climáticos. É preciso haver mais ação local e uma nova cultura no País", destaca Angelis.