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Jornal do Estado (PR) online

Em busca de outros mundos

Publicado em 26 dezembro 2006

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP

O satélite francês Corot tem o objetivo de localizar, fora do sistema solar, planetas com condições semelhantes à da Terra, que possam abrigar vida. Histórica para a humanidade, a missão também é especial para o Brasil: pela primeira vez astrônomos brasileiros participaram diretamente do desenvolvimento de um satélite científico.
Segundo o professor Eduardo Janot Pacheco, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), que coordena a participação brasileira no projeto, existem pouco mais de 200 planetas conhecidos fora do sistema solar. Mas todos eles são gigantes gasosos, como Júpiter, onde não há possibilidade de existência de vida como conhecemos.
A tecnologia do Corot, no entanto, permitirá identificar planetas rochosos tão pequenos quanto o nosso. O satélite detecta planetas ao registrar variações na intensidade da luz que eles causam quando passam diante de uma estrela. Mas essa variação é quase insignificante: um décimo milionésimo da intensidade luminosa original. "Pela primeira vez vamos poder observar eclipses tão pequenos", disse Pacheco à Agência FAPESP.
Segundo o astrofísico, o Corot, cujos primeiros projetos datam de 1993, tem características que permitem uma precisão de observação até agora inédita. "O equipamento recebeu um tratamento extremamente sofisticado do nível de ruído, aliado a um detector muito preciso e a um aprimoramento profundo da aquisição da imagem", declarou.
Além da descoberta de novos planetas, o satélite também tem a missão de estudar a sismologia estelar, isto é, a estrutura e a evolução das estrelas. "Vamos estudar estrelas do tamanho do Sol, e também menores e maiores. Isso vai permitir um grande avanço do conhecimento sobre o universo", afirmou o pesquisador.
O satélite pesa 600 quilos, tem 4 metros de altura e 6 metros de envergadura dos painéis solares. É equipado com um telescópio de 270 milímetros, uma câmera com ângulo de 10 graus, quatro detectores e uma central eletrônica de controle, processamento e transmissão de dados.
Durante três anos, o Corot vasculhará uma região de 10 graus em duas direções opostas. "O satélite vai observar oito mil estrelas de cada vez, num total de 100 mil estrelas. Esperamos encontrar cerca de mil planetas do tipo gigantes gasosos e uma centena de planetas rochosos, como a Terra", disse.
A órbita do satélite terá uma característica peculiar: ele vai girar perpendicularmente ao equador, numa altitude de cerca de 850 quilômetros. "A órbita polar permite que o satélite aponte para uma região do céu durante seis meses sem que haja eclipses. Em compensação, depois de seis meses, ele terá que girar 180 graus para não olhar para o Sol, o que danificaria os detectores irreversivelmente", explicou Pacheco.
Segundo o professor, ao localizar planetas rochosos, o Corot fornecerá subsídios para os estudos das próximas gerações de satélites. "Satélites científicos levam cerca de dez anos desde o pré-projeto até o lançamento. A próxima geração, com lançamentos estimados entre 2012 e 2015, estudará as atmosferas bióticas destes planetas rochosos. O Corot dará um mapa de planetas que poderemos estudar à procura de seres vivos."

Presença brasileira
Pacheco afirma que cerca de 80 cientistas brasileiros estão envolvidos com o projeto, que teve investimentos de US$ 2 milhões do Ministério da Ciência e Tecnologia. "A contribuição brasileira foi equivalente a 2% do custo do satélite. Mas teremos acesso a todos os dados e os mesmos direitos dos parceiros europeus", afirmou Pacheco.
O projeto, liderado pela França, tem participação da Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha e Brasil. Segundo o cientista, a contribuição brasileira ocorreu de três formas: a utilização de uma estação de recebimento de dados em Alcântara (MA), a participação de cinco engenheiros na elaboração do software embarcado no satélite e nos estudos científicos de pré-análise dos alvos do Corot.
Os brasileiros se destacaram especialmente no desenvolvimento dos softwares, segundo Pacheco. "São softwares de alta confiabilidade, que não podem falhar, por isso têm alto valor agregado. Os brasileiros que participaram voltarão com um know-how especial nesse tipo de softwares, que pode ser usado em vários ramos industriais."
O engajamento dos cientistas brasileiros na missão, de acordo com Pacheco, abre a possibilidade de aumentar as parcerias com cientistas europeus, envolvendo estágios de doutorado e pós-doutorado, além de programas de colaboração científica entre Brasil e Europa. "Já estamos ligados à missão européia Plato, que será lançada em 2015 para investigar detalhes de planetas rochosos", declarou.