Notícia

Jornal da Cidade (Bauru, SP)

Em busca da origem da biodiversidade amazônica

Publicado em 14 março 2013

Por Elton Alisson

A origem e as transformações pelas quais passou a mega biodiversidade da Amazônia ao longo de milhões de anos são questões que intrigam muitos biólogos, em diferentes partes do planeta.

Na tentativa de respondê-las, foram lançadas diversas hipóteses nas últimas décadas. Muitas delas, no entanto, não passaram pelo escrutínio científico em razão da escassez de dados paleológicos (fósseis) e de evidências geomorfológicas. Agora, especialistas das mais diversas áreas – incluindo paleoecologia e arqueologia – investigam o tema.

Um grupo internacional de pesquisadores, liderado por brasileiros e norte-americanos, deu início a um Projeto Temático para reconstruir a origem e a distribuição dos organismos na Amazônia nos últimos 20 milhões de anos.

O projeto é apoiado pela Fapesp e pela National Science Foundation (NSF) no âmbito de um acordo que prevê o desenvolvimento de atividades de cooperação entre os programas “Dimensions of Biodiversity” (NSF) e Biota-Fapesp. O estudo também conta com o apoio da agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa.

“Há muito interesse por parte de paleoecologistas como eu – que estudam a ecologia no passado a partir de polens fósseis – em relação a questões como a origem da biodiversidade da Amazônia, o que ocorreu na floresta durante e depois do Último Máximo Glacial (ocorrido há aproximadamente 20 mil anos), as mudanças surgidas no bioma no Holoceno médio (há 6 mil anos) e se a floresta era intocada ou foi um ambiente altamente domesticado nas eras pré-colombianas (antes de 1492)”, disse Frank Mayle, professor da Universidade de Edimburgo, na Escócia, durante o simpósio “The assembly and evolution of the Amazonian biota and its environment”, na sede da Fapesp, em São Paulo.

Realizado no dia 4 de março, o evento serviu como reunião preparatória dos pesquisadores integrantes do projeto e foi aberta ao público. Entre os dias 5 e 8 de março, os especialistas voltaram a se reunir na Fundação, a portas fechadas, para definir os detalhes do andamento da pesquisa.

Refúgios

De acordo com Mayle, uma das hipóteses apresentadas nas últimas décadas para explicar a grande biodiversidade amazônica foi a “Teoria dos Refúgios”. Proposta pelo ornitólogo e biogeógrafo alemão Jürgen Haffer (1932-2010) em um artigo publicado na Science em 1969, a teoria defendia que durante os períodos glaciares algumas áreas da floresta amazônica se tornaram secas. Por causa disso, formaram-se diversos fragmentos florestais – separados uns dos outros por áreas de savana – que teriam servido de refúgio para diversas populações de animais. Durante o período de isolamento geográfico (vicariância), essas populações de animais “sem floresta” evoluíram longe de seus semelhantes e sofreram especiação geográfica (alopátrica). Quando retornava o período úmido, as regiões abertas voltavam a apresentar vegetação e os fragmentos florestais se conectavam novamente, permitindo que estendessem sua distribuição.

A teoria, contudo, não se sustentou por falta de dados paleológicos, explicou o especialista. ”A Teoria dos Refúgios gerou um paradigma para os biólogos, mas faltavam dados paleológicos e precisávamos de mais evidências geomorfológicas para testar suas hipóteses”, disse Mayle.

”A teoria não passou por um escrutínio científico e hoje a maioria de nós não dá muito mais crédito para ela” , afirmou. Segundo o pesquisador, os primeiros dados de paleovegetação da bacia amazônica foram fornecidos por Paul Colinvaux, em um artigo publicado também na Science em 1996 e contradisseram a Teoria dos Refúgios.

Colinvaux achou registros de florestas de umidade contínua onde se achava que fosse área de savana no Último Máximo Glacial, quando a temperatura média do planeta era cinco graus mais fria do que a atual. “Isso levou muitos de nós, paleoecologistas, a inferir que a Teoria dos Refúgios estava incorreta”, afirmou.

Questões em aberto

De acordo com o pesquisador Frank Mayle, uma pergunta ainda sem resposta sobre a Amazônia é: que tipo de floresta tropical existia na região no Último Máximo Glacial? Para respondê-la, estão em curso esforços para tentar modelar a extensão de floresta úmida e de floresta seca na época. A qualidade dos dados disponíveis, no entanto, representa um dos principais gargalos para esclarecer as dúvidas.

”As controvérsias sobre a Amazônia no Último Máximo Glacial resultam do conjunto de dados dos quais dispomos”, disse Mayle. “Há poucas informações; o desafio é identificar qual escala espacial e o tipo de cobertura florestal que correspondem ao perfil de paleodados mais antigos. Por isso, somos forçados a fazer extrapolações e trabalhar com modelagem de vegetação.”