Notícia

JC e-mail

Elson Longo, chefe de laboratório da Ufscar, conta como funciona a parceria com empresas

Publicado em 06 novembro 2000

Daniel Piza escreve para "O Estado de SP": A química entre Universidade e industria tem poucos exemplos no Brasil equivalentes ao do Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica, o Liec, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). O Liec nem precisava ter-se tornado um dos dez centros de excelência assim considerados - e financiados - pela Fundação de Amparo à Pesquisa de SP (Fapesp), o que ocorreu há menos de dois meses, para ser um modelo de pesquisa científica atrelada a demandas do setor privado. Mas, alem de celebrar um trabalho, a escolha da Fapesp fez o laboratório iniciar uma fase de conquistas ainda mais impressionantes. Desde que premiado pela qualificação "de excelência", o Liec já assinou cinco novos contratos. É mais e mais procurado por empresas multinacionais como a Johnson & Johnson, a White Martins e a 3M e por gigantes da siderurgia nacional como a CBMM e a CSN. Adquiriu mais equipamentos modernos, num ativo que já chega a US$ 6 milhões. E passou a tocar projetos mais diversos e desafiadores, levantando a curva de produtividade do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC). O centro, na verdade, é bastante autônomo em relação ao Depto. de Química da Ufscar. Os pesquisadores são professores cujo salário é pago pela Universidade, que também lhe garante luz e água. Mas o prédio foi construído com recursos da CBMM. Os equipamentos e despesas são pagos pela verba da Fapesp, a "enzima" da equação, que todo ano dá o equivalente a US$ 1,5 milhão para o centro. Pesquisadores e estudantes, na maioria, tem bolsa das outras fundações: CNPq, Finep e Capes. "O Liec é a espinha dorsal do centro." Quem define é o professor e pesquisador Elson Longo, de 59 anos, responsável pela direção do centro. Longo, formado em Química pela Unesp em Araraquara, fez pós-graduação em Química Teórica e Farmacologia e deu aula em curso pré-vestibular até ser convidado pela Ufscar. Mas foi menos como professor e mais como pesquisador que ele se realizou, depois da criação do Liec em 88, cuja identidade se confunde com sua figura simples e risonha, sempre transparecendo orgulho pelo laboratório. "Ele está trabalhando numa tecnologia que ainda vai dar o que falar", diz Longo, apontando para um pesquisador. Ele faz experimentos com filme luminescente amorfo, um material que o Liec conseguiu produzir a temperatura ambiente, pioneiramente, e poderá ajudar a desenvolver o silício poroso. "Chips de silício poroso estão sendo pesquisados no mundo todo. Registraram mais de cem patentes em um ano", conta Longo. São chips com memória volátil, que poderão armazenar dados à velocidade da luz, transformando a computação. As máquinas, sofisticadas, são na maioria americanas e alemãs. O microscópio eletrônico, da marca Zeiss, foi importado da Alemanha. Longo entra na sala e aponta para o monitor, onde aparece a varredura eletrônica de um fio de cabelo. É a pesquisa requisitada pela Johnson & Johnson, para desenvolver um xampu que protege o cabelo do sol. Outra imagem amplia uma peca de oxido de estanho, um material cerâmico que tem o poder de tilintar como um cristal, tal sua consistência. É uma inovação que o Chile já comprou e pode abrir todo um campo para a industria. Aquele "spray dryer", que converte gás em sólido, veio dos EUA. O laboratório não para de tirar soluções dos fornos. Corrosão é uma especialidade. Máquinas de lavar da Brastemp e bocais de garrafa da Brahma já passaram pelas mãos dos 15 pesquisadores, que resolveram problemas graves de deterioração material. A americana Merck vem buscar avanços na tecnologia de nanoparticulas ("Outra coisa que vai estourar", avisa Longo) e a leva. Longo conta com especial orgulho a historia do queimador cerâmico da CSN. A empresa procurou o Liec em 89 porque um grupo japonês, com o qual ela negociava, pressionava para que o aparelho ("Pense num bico de Bunsen de dez andares") fosse consertado. Mas o conserto exigia que a CSN parasse os altos fornos e perdesse muitos recursos com isso, arriscando falência. Os japoneses diziam que se tratava de problema físico: o queimador teria sofrido choque térmico. O laboratório brasileiro mostrou que não, que o problema era uma corrosão do refratário. Os japoneses testaram e confirmaram, e os fornos - e a CSN - ganharam sobrevida de quatro anos. A CSN está com o Liec até hoje. "Éramos extremamente dependentes da importação de refratários", lembra o químico. "Hoje somos exportadores. Além disso, criamos uma nova concepção de refratários." Dez anos depois, a CSN faz parte de uma industria siderúrgica que, na opinião de Longo, é uma das melhores do mundo. "Somos muito colonizados", reclama Longo. "Partimos sempre do principio de que o estrangeiro faz melhor. Nos provamos que não é sempre." Mas por que são tão raras parcerias como essa, entre Universidade e industria, no Brasil? Longo não hesita: "A Universidade não sabe vender seu potencial e a industria não sabe que ele existe." Para ele, é antes de mais nada um problema de comunicação. Patentes, por exemplo, não significam grandes rendimentos, na maioria dos casos. Mas são fundamentais para divulgar uma tecnologia. O centro tem 11 patentes registradas, em vários países, e já solicitou outras seis. Longo acha que os instrumentos necessários para estimular a parceria entre industria e Universidade já existem no Brasil. A legislação é correta. Há isenção de impostos para a Universidade importar equipamentos. As multinacionais estão despertando para a necessidade de desenvolver tecnologias aqui. E o dinheiro para a pesquisa vem, na maior parte, do poder público. O que ocorre, segundo Longo, e* menos um problema de verba do que de política. "Trabalho com Universidades de diversos Estados. O dinheiro para a pesquisa científica é previsto no orçamento, mas não chega aos centros de pesquisa. Fica parado nas fundações, por questões políticas." Demonstração clara de como a política nacional prejudica a pesquisa científica, diz Longo, é o que ocorre em Minas. Lá estão concentradas as "terras raras", dotadas de areia monasitica, essencial para a energia atômica, mas todos os projetos relacionados a elas estão parados: a verba federal não chega por causa do atrito entre o governador Itamar Franco e o presidente FHC. O que o governo de SP faz, diz Longo, é realmente destinar por meio da Fapesp os recursos para a pesquisa de ponta. Ao elegê-lo um dos dez beneficiados pelo programa de excelência, inspirado no modelo americano, o órgão garantiu ao centro dotação anual de cerca de US$ 1 milhão por um prazo de cinco anos, renovável duas vezes por mais três anos cada. Da industria, estão assegurados mais US$ 500 mil distribuídos por quatro anos. A situação dá segurança a ponto de beneficiar outras Universidades, com serviços, maquinas e alunos. "Sem a contrapartida da industria, nada disso seria possível." "A função da Universidade é formar pessoas para o meio produtivo", continua. "É claro que existe a pesquisa básica. Mas a parceria com a industria é imprescindível." Longo se lembra dos tempos de estudante e professor de cursinho, em que a Química era ensinada como uma das disciplinas mais chatas, na base de decoreba e abstração. "É preciso mostrar ao aluno a ocorrência do fenômeno natural, senão não adianta." O financiamento da Fapesp implica um papel educador para o Liec. Alunos de Química e outras áreas da Ufscar trabalham no centro, num total de 120 pessoas, somando a unidade de São Carlos e a de Araraquara. Também professores de secundário receberão instrução complementar. Os ex-alunos de Longo, estudando ou lecionando em outras Universidades, do Paraná ao Maranhão, continuam em cooperação. E Longo também forma rede com Universidades na Franca, onde fez sua pós-graduação, na Espanha e na Itália. Essa condição privilegiada do Liec, no entanto, é muito mais expressa na infra-estrutura do que nos salários. Longo não se queixa, mas sabe que mesmo um centro de excelência como o que dirige tem grande chance de perder pesquisadores para o mercado privado. Um professor da Ufscar, segundo ele, ganha em media R$ 3 mil, ao que pode somar R$ 1,2 mil de uma bolsa federal. Um pesquisador de empresa privada, seja da CSN seja da Johnson & Johnson, ganha em media R$ 7 mil. "Mas a experiência de trabalhar aqui compensa", afirma Longo, "embora a maioria acabe indo embora." Afinal, o que sedimenta mesmo o trabalho do Liec é a utilidade de suas pesquisas para a industria. Para a White Martins, por exemplo, desenvolveu tecnologia inédita para evitar o "coração negro" das cerâmicas, o problema da discrepância de tonalidades que surgia no aquecimento do material. A solução desenvolvida acabou com o problema técnico e estético e, de quebra, acelerou o tempo do processo e aumentou a produção em 30%, significando ganho de mais de US$ 400 milhões por ano para a empresa. Os resultados podem ser significativos para a área social também. Um dos trabalhos do Liec é desenvolver materiais mais consistentes e baratos para a cerâmica artística, numa parceria com a Comunidade Solidária na cidade de Porto Ferreira (SP). Outro projeto em curso é a invenção de um material modular para construir casas populares, encomendado pela CSN, cujos dejetos industriais inorgânicos são reciclados numa espécie de compensado plástico. Há ganhos ambientais que também saem da criatividade do Liec. Um deles é a utilização das areias de fundição, normalmente expelidas pela industria siderúrgica para os lençóis freáticos, causando grande estrago por não serem biodegradáveis. A tecnologia torna a areia reaproveitável no processo. A formação do centro promete expandir ainda mais essas atividades, beneficiadas como são pela internacionalização da economia e do conhecimento. O trabalho do professor Elson Longo e do Liec é uma expressão perfeita desse salto científico que o país começa a dar. Como ele diz, a competência do laboratório sempre foi reconhecida, mas, "quando um órgão financiador aponta essa competência", tudo fica mais fácil. (O Estado de SP, 5/11)