Notícia

Jornal do Commercio (PE)

Elizabeth Cardoso fala sobre a atualidade de Lúcio Cardoso

Publicado em 14 agosto 2012

A crítica literária, professora e tradutora Elizabeth Cardoso conversou, em entrevista por e-mail, com o Jornal do Commercio sobre a atualidade da obra de Lúcio Cardoso e sobre o tema da sua pesquisa de doutorado, a presença do feminino na obra dele. Sobre o assunto, ela escreveu Feminilidade e transgressão - uma leitura da prosa de Lúcio Cardoso, que sai ainda este ano pela Humanitas/Fapesp.

Jornal do Commercio - Qual a importância hoje da obra de Lúcio Cardoso?

Elizabeth Cardoso - Resumidamente eu diria que há dois pontos na prosa de Lúcio que tornam sua leitura especialmente relevante na atualidade.

Primeiramente ela representa uma outra abordagem literária, em relação ao romance regional. Não se trata de polaridades (regionalismos versus intimismo), mas sim de um olhar novo sobre a "realidade" brasileira. No caso de Lúcio o que predomina é a "realidade" dos afetos. Dentro do contexto do romance de 30 (as centenas de romances brasileiros editados durante a década de 1930) ele optou ir a fundo à alma humana, por esse caminho ele não deixou de retratar sociedade, haja visto a constante referencia as difíceis condições sociais e históricas da mulher (maioria de seus livros, especialmente Mãos vazias, de 1938). Lúcio impulsionou no Brasil uma literatura onde a personagem tenta resolver suas diferenças com o mundo subjetivando o conflito. A isso deu-se o nome de intimismo. Essa característica resulta em um texto repleto de solilóquios, monólogos interiores, ambientação em lugares ermos, escuros, solitários, e acima de tudo em personagens desesperadas em conseguir transformar suas vidas, conquistar liberdade, experimentar o novo, e, para tanto, elas transgridem, infringem as regras e criam o caos. Daí sua literatura estar atravessada pelo incesto, a loucura, o assassinato, a fuga.

Em segundo lugar, (ligado ao que falei anteriormente) a literatura de Lúcio abriu caminho para escritores como Clarice Lispector, Autran Dourado, Caio Fernando Abreu e Milton Hatoum, entre outros. Por que? Porque criou contexto, apresentou e divulgou para as editoras, críticos e leitores a possibilidade de uma prosa voltada para as questões do sujeito e dos afetos.

JC - Normalmente se fala muito de uma obra de Lúcio, Crônica da casa assassinada. É de fato a obra-prima do autor? Que outras obras você destacaria? Quais são as marcas da prosa do autor mineiro?

Elizabeth - Sim, Crônica é principal livro de Lúcio. Mas não só. Mãos vazias, novela de 1938, e Inácio, novela de 1946, são obras de grande valor para a literatura brasileira e ainda receberão a atenção que merecem.

A literatura de Lúcio está voltada para os afetos. Suas personagens, na maioria das vezes, estão vivendo conflitos internos (motivados por uma intensa insatisfação com suas condições sociais) e buscam libertar-se. Elas são insatisfeitas, por isso rompem com as regras sociais, daí os assassinatos, a loucura, os suicídios, os incestos presentes em seus romances e novelas. No que diz respeito ao ambiente, a prosa de Lúcio se dá, prioritariamente (mas não apenas) no interior de Minas Gerais, em cidades pequenas, tacanhas, decadentes. As personagens vivem em espaçosas, antigas e decadentes casas e amargam seus dramas em quartos escuros ou transitam por jardins durante a noite. Ou seja, o cenário de Lúcio busca sempre caracterizar externamente o desespero interno de suas personagens. Tais aspectos se espelham em um texto altamente poético, atravessado por imagens, que buscam traduzir os afetos, o estado emocional das personagens, e por solilóquios, que geram lindos jogos de foco narrativos. Nesse sentido, as soluções literárias mais interessantes estão em Crônica da casa assassinada, onde não temos um narrador convencional, mas sim a justaposição de mais de 10 narradores.

No que diz respeito aos temas recorrentes, diria que Lúcio volta constantemente em dois pontos: nas questões envolvendo o exercício do Mal. Seria o mal inerente ao homem ou temos controle sobre ele? Qual o limite da maldade humana? É possível encontrar ou praticar o Bem por meio do Mal? Estou aprofundando esses aspectos em minha pesquisa de pós-doutorado. E nas questões envolvendo a mulher, a feminilidade. Lúcio elege a mulher como sua personagem-modelo para abordar os dramas da alma humana e as agruras das injustiças sociais. Ao estabelecer o feminino no patamar da impossibilidade de definição, Lúcio lança seu texto na ambiguidade, o que enriquece sua literatura. Quem foi Nina? Houve ou não incesto? Quem organiza os documentos que compõem Crônica? São questões que acompanharão o leitor para sempre.

JC - Qual é o papel do feminino na obra de Lúcio? Por que, para você, ele pode ser considerado um autor de tantas personagens femininas?

Elizabeth - Meu principal trabalho com a obra de Lúcio versa sobre esse tema. Trata-se do livro Feminilidade e transgressão - uma leitura da prosa de Lúcio Cardoso que será lançado ainda este ano pela Humanitas/Fapesp e tem como base minha tese de doutorado. Com a pesquisa, que envolveu toda a prosa de Lúcio, pode-se afirmar que a presença da figura feminina é fulcral para sua literatura, pois a figura da mulher constitui a base de seu fazer artístico, como se ela fosse, a um só tempo, o enigma e a resposta. Ao menos três aspectos contribuem para esse efeito: a proliferação de personagens femininas nos títulos, a centralidade do feminino em paralelismo com a opção por uma prosa de tensão interiorizada ou intimista, se preferir, e a feminilidade atuando no arranjo dos acontecimentos. Lúcio Cardoso elabora seus textos no bojo da insatisfação das personagens femininas, gerando transgressão; no fato das mulheres exercerem o mal, visando à destruição do status quo; e na multiplicidade, vinculada à própria indefinição do feminino e responsável por uma ficção plena de ambiguidades.

Quanto grande número de mulheres em seus livros cabe ressaltar que quase metade de suas personagens principais é de mulheres. Esse equilíbrio entre personagens masculinas e femininas é raro, mesmo na literatura brasileira contemporânea. Além de serem muitas, elas são relevantes para a narrativa: quando não são personagens principais como em Mãos vazias (1938), A professora Hilda (1946) ou Crônica da casa assassinada (1959), elas são fundamentais para o desenrolar da ação, por exemplo, em Salgueiro (1935), Dias perdidos (1943) ou O anfiteatro (1946). Lembrando-se de que Crônica é elaborada e realizada em torno de uma mulher, Nina, a personagem mais conhecida da criação de Lúcio.

JC - Como a mulher é representada nos romances de Lúcio?

Elizabeth - Esmagada por casamentos infelizes, homens medíocres e cidades tacanhas essa mulher é, com frequência, insatisfeita, transgressora, questionadora do poder patriarcal, disposta a tudo para ser sujeito de seu desejo.

JC - Lúcio trata do seu homossexualismo na sua obra? De que forma?

Elizabeth - Nesse sentido, pelo menos dois títulos do autor trazem personagens relevantes: O desconhecido (1940), com José Roberto e seu amor platônico e homicida por Miguel, e Crônica da casa assassinada, com Timóteo, que se traveste de mulher e é apaixonado por Alberto.