Notícia

A Granja

Eles conseguiram inovar

Publicado em 24 outubro 2007

Por Carolina Meyer e Daniella Camargos

Contra todos os vaticínios, empresas brasileiras provam que é possível fazer pesquisa de padrão internacional no país


Situações-limite costumam ser decisivas para o futuro de uma companhia -- para o bem ou para o mal. No caso da Trópico, uma pequena empresa de sistemas de telecomunicações sediada em Campinas, no interior de São Paulo, um recente drama coletivo provou do que seus técnicos eram capazes. No dia 12 de maio de 2006, em meio ao pânico provocado por uma série de ataques realizados pela facção criminosa PCC em São Paulo, os técnicos da Telefônica acompanhavam apreensivos a sobrecarga das centrais de comutação da empresa -- onde acontecem as conexões telefônicas. Assim como as principais vias de acesso da capital paulista, os sistemas das operadoras de telecomunicações ficaram supercongestionados. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas tentavam ligar para algum lugar. Enquanto parte das estruturas chegou à beira da sobrecarga, outro grupo foi capaz de suportar um volume de ligações três vezes maior do que o previsto. Eram justamente os equipamentos desenvolvidos pela Trópico. A performance das máquinas brasileiras foi tão superior à das demais que levou a Telefônica a recomendar a tecnologia à matriz espanhola e a suas subsidiárias em outros países. "A Trópico não deixa nada a desejar em relação à tecnologia desenvolvida pelas multinacionais do setor", diz José Luís Dutra, vice-presidente de tecnologia da Telefônica.

A Trópico é uma espécie de costela da Promon, uma das maiores empresas de projetos do país. Criada em 1974 por pesquisadores do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), a Trópico foi comprada pela Promon em 1982, virou uma unidade independente quase 20 anos depois e hoje emprega cerca de 300 pessoas. Seu faturamento -- de cerca de 100 milhões de reais em 2007 -- e suas dimensões são irrisórios perto das grandes empresas que desenvolvem equipamentos de telecomunicações no mundo. A alemã Siemens é uma companhia de 120 bilhões de dólares anuais. A japonesa NEC faturou 39 bilhões de dólares em 2007. A finlandesa Nokia emprega 68 400 pessoas, atua em 150 países e investe 5,7 bilhões de dólares por ano em pesquisa e desenvolvimento. Como uma pequena e quase desconhecida empresa de Campinas poderia competir e crescer num ambiente como esse? "Só provando que era possível criar produtos com tecnologia melhor que nossos concorrentes", diz o engenheiro eletrônico Raul Del Fiol, de 66 anos, presidente da empresa.

A Trópico viveu sua melhor fase após as privatizações do setor de telecomunicações, quando chegou a ter o dobro do faturamento atual. Com o estouro da bolha das telecomunicações, no início desta década, e a redução dos investimentos das empresas de telefonia, a companhia passou a enfrentar dificuldades -- em 2002 o faturamento caiu para apenas 2 milhões de reais, um décimo do ano anterior. A Trópico ficou, assim, a um passo de fechar as portas. A capacidade de inovar e de desenvolver tecnologia de ponta a salvou. Desde 2001, a americana Cisco, gigante na área de tecnologia da informação, tem 10% da empresa de Campinas. É seu único caso de participação acionária na América Latina. A Trópico hoje é parte de um ainda pequeno grupo de companhias que mostra que é possível, sim, produzir inovações de padrão internacional no Brasil -- mesmo em um ambiente adverso, de pouco apoio do governo e distância entre o mercado e as universidades. Essas empresas, cujos principais executivos ilustram as páginas desta reportagem, também derrubam um axioma segundo o qual apenas colossos com faturamentos bilionários, como Petrobras e Embraer, são capazes de sustentar políticas de inovação que possam fazer frente a concorrentes globais.

Não existe uma receita definida para estimular um ambiente de inovação. Mas, olhando o exemplo das empresas que ultrapassaram essa barreira, constata-se que sem o investimento em pessoas o desenvolvimento tecnológico é inviável. É preciso constantemente encontrar e manter gente muito qualificada. Isso significa ter uma política atrativa de remuneração e um programa agressivo de manutenção de talentos. O melhor exemplo mundial dessa estratégia é o Google. No pacote de benefícios da companhia estão incluídas desde excentricidades -- é permitido levar animal de estimação para o escritório -- até medidas que têm impacto direto na capacidade de inovação, como a possibilidade de o funcionário dedicar 20% de seu tempo a qualquer projeto de sua escolha, não necessariamente ligado ao trabalho. No Brasil, ainda é difícil encontrar empresas com essas características. A maioria dos cientistas ainda se concentra no mundo acadêmico justamente porque não enxerga nas corporações o ambiente ideal para desenvolver suas pesquisas. Hoje, apenas dois em cada dez cientistas brasileiros trabalham na iniciativa privada. Nos Estados Unidos, a proporção é inversa -- oito em cada dez deles estão nas empresas. Na Coréia do Sul, mais da metade dos pesquisadores trabalha em companhias privadas (veja quadro na pág. 131).

A grande chave para a inovação é assim: óbvia. Mas alcançá-la continua a ser um enorme desafio. A Trópico tem em seus quadros 11 mestres, dois doutores e outros 20 pesquisadores com pós-graduação, que ganham entre 10 000 e 15 000 reais por mês. Quando a bolha das telecomunicações estourou, as vendas desapareceram -- os custos para manter o pessoal, não. A decisão a ser tomada: manter a equipe e tentar criar algo novo ou adequar a folha de salários à nova realidade. Os melhores profissionais foram mantidos. Durante três anos, a Trópico deu prejuízo a seus acionistas, que só agora começam a colher os frutos dessa estratégia. Com sede em Brasília, a Politec foi criada em 1970 para desenvolver softwares e atuar em tecnologia da informação. Hoje tem 6 500 funcionários espalhados pelo país. Todos eles têm bônus atrelados ao desempenho. Para alguns, a Politec oferece cursos de doutorado em escolas internacionais como a Wharton, uma das mais celebradas dos Estados Unidos, e o Insead francês. "A idéia de investir todos os recursos num único departamento de inovação está superada", diz Humberto Ribeiro, vice-presidente da Politec. "É preciso disseminar o conceito por toda a empresa, porque uma boa idéia pode nascer em qualquer lugar." Foi assim -- acreditando que as idéias poderiam surgir de qualquer canto -- que a Politec passou de uma empresa de contabilidade a uma companhia baseada em inovação, com faturamento anual de 500 milhões de reais. Recentemente, a Politec ficou em segundo lugar no ranking dos competidores emergentes de outsourcing (como é conhecida a terceirização de serviços para linhas de programação no mundo) da Business Week, destacando-se como uma das melhores empresas de criação de software corporativo e uma alternativa aos programadores indianos, líderes de terceirização em tecnologia da informação. Em 2003, a empresa se habilitou a fornecer o sistema de identificação pela íris ao FBI, a Polícia Federal americana. A idéia de desenvolver esse sistema surgiu do chamado ócio produtivo. Um dos pesquisadores da Politec teve a idéia de gerar dinheiro com um produto fora dos moldes convencionais durante suas férias numa praia do Caribe ao ler uma reportagem sobre segurança nos aeroportos. O sistema levou sete anos para ser desenvolvido, envolveu 15 pessoas e custou à Politec 1,5 milhão de reais.

Por décadas, o mercado fechado e a instabilidade econômica foram os maiores entraves ao investimento de risco e de longo prazo no país -- e, conseqüentemente, aos projetos de inovação. "Sem concorrência estrangeira, não havia necessidade de inovar", diz Carlos Brito Cruz, diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Com a abertura da economia, no início da década de 90, o controle da inflação e o aprofundamento da globalização, o ambiente de negócios se transformou. A primeira fase, para as empresas brasileiras, foi a luta pela sobrevivência. Essa fase está praticamente superada. A luta passou a ser pelo mercado global -- cenário que oferece riscos e oportunidades. O grupo de São Paulo Dass, que produz no Brasil tênis para as grifes italianas Fila e Umbro, é um exemplo. A companhia investe 4% do faturamento de 550 milhões de reais em inovação. Recentemente, sua equipe de criação desenhou para a Fila uma linha de tênis com um design inovador que deixa à mostra a tecnologia utilizada. O solado é vazado e transparente, deixando expostos os sistemas de amortecimento e de ventilação do produto. A Fila internacional se encantou com o trabalho e decidiu lançar os modelos nos Estados Unidos e na Coréia do Sul. "Nos esforçamos para desenvolver a tecnologia por aqui e acabou sendo um sucesso", diz Vilson Hermes, presidente da Dass. A previsão é que sejam exportados 4 milhões de pares por ano, que renderam à Dass um contrato de 36 milhões de reais para os próximos três anos.

Evidentemente, o Brasil ainda continua em um patamar muito inferior de inovação se comparado às economias desenvolvidas ou aos países emergentes da Ásia -- sobretudo Coréia do Sul, Índia e China. E o dado mais acachapante para mostrar o porquê dessa diferença é o investimento em inovação. Desde o início da década, o Brasil tem investido com regularidade menos de 1% do PIB em pesquisa e desenvolvimento. Países como a Coréia do Sul, por exemplo, investiram uma média de 2% do PIB no mesmo período. O Brasil depositou, em 1996, 63 patentes nos Estados Unidos. (O registro de patentes no mercado americano ainda é a melhor forma de comparação da competitividade entre os países na área de inovação.) Dez anos depois, foram 121. No mesmo período a Índia aumentou suas patentes em mais de dez vezes, passando de 36 para 481. "Investe-se pouco em inovação no Brasil porque muitas empresas desconhecem completamente o assunto", diz Marcelo Gil, sócio-diretor da consultoria Accenture. "Para elas, inovar é criar algo revolucionário como o iPod, quando na realidade o simples aperfeiçoamento de um produto já pode ser considerado inovador."

Antes de partir para o desenvolvimento de novas tecnologias propriamente ditas, muitas empresas passam boa parte do tempo copiando produtos já consagrados no mercado para só depois se arriscar em novos projetos. Foi assim no Japão nos anos 60 e na China no final da década passada. Também na Coréia, companhias como LG e Samsung -- hoje referências mundiais em inovação -- lançaram-se no mercado vendendo cópias de produtos desenvolvidos na Europa e nos Estados Unidos. Quando criaram a Padtec, em 2001, cinco pesquisadores do CPqD foram buscar inspiração em outras empresas de tecnologia, como a americana Ciena, uma das maiores companhias do setor de fibra óptica. Da experiência acumulada por esses grupos, a Padtec desenvolveu seus sistemas de gestão, produção e pesquisa. "Queríamos partir de um modelo bem azeitado", diz Jorge Salomão Pereira, presidente da Padtec, sediada em Campinas. A partir daí, a empresa deslanchou. Hoje, é uma das únicas no mundo a desenvolver equipamentos de transmissão de dados por meio de feixes de cor. A Padtec, que no ano passado faturou 120 milhões de reais, fornece equipamentos para todas as operadoras de telefonia do país -- e ainda exporta para outros 28 países.

Embora não exista uma fórmula mágica capaz de criar um ambiente propício ao desenvolvimento de novas tecnologias, há casos já consagrados de países que conseguiram formar bolsões de inovação a partir do tripé universidade, empresa e capital. O Vale do Silício, nos Estados Unidos, é o melhor exemplo disso. Ali, centenas de incubadoras estabeleceram-se próximo à Universidade Stanford com o objetivo de transformar em negócio o conhecimento gerado na instituição. Fundos de capital de risco financiaram o que viriam a se tornar grandes revoluções da indústria, como Microsoft e Apple. No Brasil, só agora esse tripé começa a virar realidade, ainda de forma embrionária. Desde que foi criada, em 2001, a Biomm -- empresa de biotecnologia sediada em Belo Horizonte -- procurou firmar convênios com universidades dentro e fora do país. Para enfrentar competidores como a americana Eli Lilly e a dinamarquesa Novo Nordisk, a empresa fez parcerias com pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, USP, Unicamp e do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. "Foi a maneira que encontramos para competir no mercado internacional, produzindo tecnologia de ponta", afirma o engenheiro Francisco Carlos Marques de Freitas, presidente da Biomm. No rol de inovações produzidas pela empresa estão o uso de reagentes atóxicos e a criação de moléculas capazes de sintetizar uma quantidade duas vezes maior de insulina. O avanço rendeu à empresa um acordo com o governo da Arábia Saudita para a produção do material no país. Valor do contrato: 20 milhões de dólares.

Com poucos centros de excelência, a inovação brasileira se concentra essencialmente em dois setores: informática e telecomunicações. Segundo pesquisa do IBGE, 46% das empresas de telecomunicações e 58% das empresas de informática aprimoraram uma tecnologia ou criaram um produto novo entre 2003 e 2005. No caso das empresas de informática, a explicação encontra-se na própria dinâmica da economia brasileira. Com um mercado castigado pela hiperinflação, desenvolveu-se no país uma mão-de-obra qualificada para atender à demanda do setor bancário, grande contratador de serviços dessas companhias. No caso das telefônicas, a competição entre as empresas, que ocorreu graças à privatização do sistema Telebrás em 1998, é que vem impulsionando a descoberta de novas tecnologias. "Com as condições cada vez mais favoráveis, tanto no mercado externo quanto no interno, é possível que outros setores da indústria se arrisquem e desenvolvam estratégias inovadoras", diz Pablo Haberer, diretor da consultoria McKinsey. Isso, sem dúvida, contribuiria para que o país exibisse um dinamismo econômico proporcional à capacidade de seu povo de ter boas idéias -- como mostra a experiência de algumas empresas brasileiras, essa é uma meta possível.


Inovação made in Brazil

Os setores de informática e de telecomunicações são os que mais investem em pesquisa no país, apesar do número reduzido de cientistas atuando nas empresas


Os setores de maior inovação

Percentual das empresas com atividade de pesquisa e desenvolvimento, por setor, no Brasil

Informática: 57,6%

Telecomunicação: 45,9%

Indústria: 33,4%

Fonte: Pintec/ IBGE (2003-2005)


Escassez de cérebros nas empresas

No Brasil, poucos cientistas se dedicam a pesquisas nas empresas — ao contrário de outros países

Estados Unidos: 81%

Coréia do Sul: 75%

Canadá: 64%

Rússia: 63%

Inglaterra: 58%

Brasil: 18%

Fonte: OCDE


Performance limitada

O Brasil está na 27ª colocação no ranking de patentes registradas nos Estados Unidos entre 1996 e 2006

1º Estados Unidos 883 269

2º Japão 317 563

3º Inglaterra 106 272

4º Taiwan 48 930

5º Coréia do Sul 39 475

27º Brasil 1 028

Fonte: USPTO