Eduardo Lemos fundou a Petgenoma em 2023, com laboratório próprio na Universidade de São Paulo para identificar raças e predisposições de cães e gatos a mais de 250 doenças
Eduardo Lemos construiu uma carreira nas áreas de marketing e vendas de empresas como L'Oréal e Pearson, mas decidiu empreender em outro ramo: a genética animal. Para isso, montou um time de especialistas para fundar a Petgenoma startup de testes genéticos para pets. “Temos um potencial brutal para ser o unicórnio do mercado pet brasileiro e revolucionar a clínica veterinária”, declara.
Os testes genéticos já passaram pelo seu hype para humanos, com startups como Genera e meuDNA. A premissa é a mesma: com um simples swab bucal, feito em casa, os cientistas conseguem acessar informações valiosas sobre o perfil genético do animal e fazer um mapeamento de saúde. Fora do Brasil, startups como Embark, Wisdom Panel e My DogDNA lideram o mercado. Por aqui, a DNA Pets, do Grupo DNA, foi lançada em 2022 com o mesmo objetivo.
Na opinião de Lemos, o mercado latino-americano ainda é um oceano azul e a Petgenoma sai na frente. “Somos a primeira da região com um laboratório dedicado a pets, a primeira com base científica de cães e gatos com linhagens brasileiras e latinas”, conta.
No time de cientistas estão os profissionais Fabiana de Andrade , com doutorado e pós-doutorado em genética canina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Paula Rohr , doutora em genética pela UFRGS; e Darilene Tyska , zootecnista e doutora em melhoramento genético animal pela UFRGS. Douglas Maia , CTO e engenheiro de software formado pela Universidade de São Paulo (USP) completa a equipe.
O negócio surgiu há cerca de três anos e meio para focar em humanos. A ideia inicial era estudar condições cognitivas para ajudar pais e psicopedagogos no desenvolvimento das crianças. O mercado pet seria explorado apenas em um segundo momento. “Começamos a ter dificuldades, freudianas inclusive. A criança é uma projeção do que o pai não foi. É difícil assumir que, geneticamente, ele pode ter uma condição que precisará de ajuda. E empresa que não vende não existe”, pontua.
Eles decidiram pivotar o negócio em 2023 para a segunda aposta. Para ser donos de todo o processo, resolveram montar o próprio laboratório. A Petgenoma foi selecionada em um edital público para ocupar um espaço no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), na USP. “Bebemos de informações e da cultura da universidade. É uma troca gratificante. No futuro, pretendemos compartilhar dados com a universidade para fazer ciência”, afirma.
Com um investimento próprio de R$ 4,5 milhões, a startup montou um ambiente de trabalho que atende 19,6 mil amostras por mês. Em parceria com a Illumina, empresa norte-americana de biotecnologia, customizou a tecnologia adotada para o sequenciamento genético. Todo o processo de estruturação da startup durou cerca de dois anos, com esforço para genotipar mais de 1,5 mil cães em canis em todo o Brasil.
“Os testes genéticos são as vacinas do século 21. Se vacinamos por profilaxia para doenças infectocontagiosas, os testes serão adotados para doenças genéticas. Quando você conhece a predisposição do animal, você pode mudar a rotina alimentar, incluir exercícios e fazer um rastreamento periódico da doença”, diz.
Atualmente, a Petgenoma oferece dois testes. O mais simples custa R$ 590 e é restrito à identificação de raça, com análise comportamental baseada nessa informação, o que Lemos define como a parte mais lúdica da genética. Já a versão premium custa R$ 690 traz dados de saúde, com investigação de 250 predisposições genéticas, entre doenças cardíacas, renais, endócrinas, neurológicas e gastrointestinais, além de análise de metabolização de fármacos.
Como todo o processo é feito internamente, o prazo para o resultado é mais curto: 15 dias úteis. Segundo o CEO, 88% das análises feitas até agora foram entregues em 11 dias úteis. Ao todo, a equipe conta com 17 colaboradores.
Mais dois produtos serão adicionados ao portfólio: em junho, o premium clinical, que custará R$ 890 e trará informações sobre obesidade e um painel oncológico; e em agosto, o produto será lançado para gatos, com identificação de raças e mais de 80 doenças.
60% das vendas vêm do B2B, para veterinários e criadores, e o restante do B2C. O desejo é que a venda para profissionais chegue a 70%. Segundo o CEO, mais de 3,5 mil cães já foram atendidos desde o início das operações, em julho de 2024. Nos últimos meses, cerca de 550 kits foram vendidos. Com os lançamentos previstos, Lemos estima duplicar as vendas e chegar a R$ 1 milhão de faturamento mensal até dezembro de 2025.
Além do Brasil, a Petgenoma está estruturando a operação no Chile por meio de um parceiro. O fundador conta que não tinha plano de internacionalização até 2027, mas um veterinário entrou em contato pelo WhatsApp da startup pedindo para comprar kits para vender em suas clínicas em Santiago.
No momento, a empresa está estudando as licenças para que os testes não fiquem presos na alfândega – todos os kits serão montados no Chile, com as diretrizes da startup, mas o processo de sequenciamento continuará sendo feito no laboratório no Cietec. “Quando entendermos a parte legal de envio, queremos replicar primeiramente para México e Colômbia e expandir para Peru, Argentina e Uruguai na segunda fase, em 2026”, afirma.
A startup também está no processo de solicitar a Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE2), na Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (FAPESP) para continuar pesquisas oncológicas e comportamentais de animais. Além disso, iniciou conversas com fundos para captar um aporte em troca de equity. “O capital de agências de fomento não dão conta do go to market tão acelerado que desejamos para ser unicórnio, mas contribuiu para a parte científica, que o venture capital não permite. Vamos combinar os mundos”, conclui.
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