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“Ele me ensina novas formas de amor”

Publicado em 07 fevereiro 2016

Aos 26 anos e grávida pela terceira vez, a carioca Pollyana Rabello já conhecia o trajeto a percorrer na madrugada de 28 de dezembro. As contrações fortes e frequentes não a deixaram dormir. Exausta após 48 horas de dor persistente, Pollyana foi encaminhada ao centro cirúrgico de um hospital em Niterói, cidade vizinha ao Rio de Janeiro. A anestesia da cesariana tirou sua sensibilidade da cintura para baixo, mas Pollyana continuou desperta. Rodeada por médicos e enfermeiros, acompanhou cada movimento que precedeu a chegada de Luiz Phillipe: o corte na barriga, a mão alcançando o bebê, o cordão umbilical sendo cortado. Ouviu o choro do filho e sentiu o êxtase da maternidade. O torpor raro foi interrompido pela notícia que mudaria sua vida: “Mãezinha, seu filho nasceu com microcefalia”, disse o médico, sem rodeio.

Naqueles dias em que Pollyana se preparava para o parto, outra gestante varava noites à caça de orientação. Ao longo de dois meses, a terapeuta capilar Mariana Mendonça, de 33 anos, comparecera dia sim, dia não a um laboratório no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro, para exames de controle de ovulação. Apontado o período fértil, o médico recomendava: “Você precisa namorar amanhã”. Mariana cansou de namorar mecanicamente. Interrompeu o acompanhamento médico - e aí, sim, engravidou. Soube logo com um mês de gestação e a paz durou poucas semanas. Aos dois meses de gravidez, seu corpo foi tomado por manchas vermelhas, dores fortes e febre moderada. Seu obstetra pensou ser dengue. Mas, duas semanas depois, Mariana soube pela televisão da existência de um novo vírus que circulava pelo país. “Eu pirei”, afirma. O zika começava a aterrorizar e ninguém sabia explicar nada. 

Em dezembro, Mariana apenas começava a enfrentar a torrente de dúvidas que já se abatera, por meses, sobre a paulista Gisele de Lima. Ela chegou sem respostas ao Hospital Universitário de Jundiaí, no interior de São Paulo, às 10 horas de 17 de dezembro. Por quase seis horas, trabalhou o parto de sua menina. A cada contração, vinham a dor, normal, e a angústia, que não deveria ser. Com quatro meses de gestação, Gisele fora diagnosticada com o zika. A posição de sua caçula no ventre impedira uma ultrassonografia conclusiva sobre o tamanho do cérebro da pequena. Às 15h40, a menina veio à luz. A médica a observou, tomou um pequeno susto - e Gisele, que passara os últimos cinco meses de gestação no escuro a respeito da saúde da filha, perdeu o ar. “Calma, mãe. Foi só o cordão umbilical que rompeu”, disse a médica. “Ela está bem. É saudável.” Gisele não ousou perguntar mais nada, de medo da resposta. Chorou, enquanto a filha era posta em seu peito, e fitou a cabeça da menina. Parecia normal. O desafogo da mãe foi intenso, mas incompleto. A menina teve anemia e ficou sete dias na semi-UTI. Ninguém sabe dizer se foi por causa do zika. Ninguém sabe dizer muito. O quarto de Gisele ficou cheio de médicos atrás de informações. Ela, cheia de dúvidas, era entrevistada em vez de orientada. Por pelo menos um ano, mãe e filha serão monitoradas. “Falaram que o cérebro da Geovanna ainda pode não se desenvolver. Não sabem se pode ter sequela, porque é um vírus novo”, diz.

As mães Gisele e Pollyana e a gestante Mariana se batem com incertezas que atormentarão famílias brasileiras por anos. Quando se tornaram públicos, em novembro, os casos dos 140 bebês que nasceram com a cabeça menor que o normal em Pernambuco, o fenômeno ainda parecia um mistério isolado. Na semana passada, 3.670 casos em investigação depois, viraram emergência global. A médica chinesa Margareth Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), alertou que a recente explosão de casos de microcefalia merece um esforço internacional. É preciso acelerar o entendimento científico de como age o principal suspeito, o vírus zika. E é preciso combater a proliferação de seu principal transmissor, o mosquito Aedes aegypti (leia as reportagens a partir da página 58). Legisladores e juízes também terão de enfrentar, com a urgência que uma crise demanda, temas difíceis como o aborto (leia mais na página 54). Os discursos, os números assustadores e o empenho de cientistas, porém, fazem pouco ou nada, neste momento, pelas famílias que precisam tomar decisões e fazer preparativos já.

Agora que sabe que cuidará de um bebê com microcefalia, Pollyana terá de fazer escolhas complexas. Seu filho, Luiz Phillipe, veio ao mundo com 26 centímetros de perímetro cefálico - 6 a menos do que o considerado normal pela OMS. Cada criança com microcefalia tem potencial distinto, diante da presença ou ausência dos tratamentos e estímulos corretos. Oferecer essas condições exige tempo, conhecimento e dinheiro que Pollyana, neste momento, não tem. Suas preocupações são bem imediatas.

Ainda na sala de parto, após a notícia dada pelo médico, ela se apavorou menos com o palavrão (mi-cro-ce-fa-li-a) e mais com a possibilidade de dormir e não encontrar o bebê vivo ao acordar. Ficou incontrolável. Quis ir até a sala onde estava Luiz Phillipe, mesmo sabendo que os pontos recém-fechados a impediam. Precisou ser sedada. “Quando acordei, só sabia chorar.”

Ela soube da gestação tarde e por acaso. Depois de dias de enjoos e quase desmaios, foi a um pronto-socorro. Embora não usasse métodos an-ticonceptivos, o terror diante da possibilidade da terceira gravidez a colocou em estado de negação. Uma hora depois, foi informada: estava grávida de seis meses. “Senti tristeza e alegria”, diz. “Quando você tem um filho, quer tudo de melhor para ele. Pensei: mais um para passar dificuldade?” A criação dos dois primeiros filhos, cada um de um pai diferente, foi difícil. Ela não conseguiu sustentar Pedro, hoje com 10 anos, e o entregou a uma tia. Contou com a ajuda da família para cuidar de Yasmim, de 3 anos. Até ficar grávida de Luiz Phillipe, Pollyana trabalhava como segurança de uma casa de shows. Agora, está desempregada. O marido, Misael Junior, faz bicos de pedreiro e toca numa banda de pagode. Ela não concluiu o ensino médio. Ele parou no fundamental. Moram numa casa sem acabamento nem banheiro. Usam o do irmão de Junior, que mora ao lado.

Hoje, Pollyana sabe o que provocou a condição de seu bebê. No oitavo mês de gestação, porém, ela ignorava o noticiário sobre a associação entre o vírus zika e o mosquito da dengue. Ela mora na cidade de Maricá, numa área de mata fechada, cheia de insetos e teve os sintomas de virose - febre, diarreia, dor persistente pelo corpo. Mesmo com tantos fatos sugestivos, não passou por sua cabeça a possibilidade de serem, ela e o bebê, contaminados. “A gente nunca acha que vai acontecer com a gente”, diz. Com pouca instrução e tantas atribulações, porém, Pollyana encontrou tempo e palavras para fazer o que tem sido difícil para os médicos: tentar ajudar outras mulheres.

Mariana, a gestante moradora de Bangu, no Rio, ficava mais assustada conforme tentava obter mais informações a respeito de zika e microcefalia. 

Ela tivera dengue ou zika em agosto, no segundo mês de gestação. As ultrassonografias até novembro não indicavam nenhuma anormalidade, mas ela não se acalmava. “E se passar pela placenta? O que pode causar lá dentro?” Ninguém sabia

- e ainda não sabe - explicar. Ao completar sete meses de gestação, em janeiro, sem contar a seu obstetra, Mariana recorreu a um amigo médico. “Não aguento esperar a próxima ultrassonogra-fia. Tive zika, preciso tirar essa dúvida da cabeça agora.” Marcaram o exame para uma noite da mesma semana. Mariana foi a última a ser atendida. Estava acompanhada do marido, Anderson, e de Cauã, o filho de 5 anos. Deitada na maca, com os olhos fixados no monitor que mostrava seu bebê em imagens distorcidas, Mariana ouviu do médico amigo que seu filho tinha mesmo um atraso na formação da cabeça: seu peso e perímetro equivaliam ao crânio de um feto três semanas e meia mais novo.

Ao confirmar o que tanto temia, Mariana chorou sem controle. O marido também não se conteve. O filho Cauã observou, sem compreender. O médico abraçou a amiga. “O mundo da gente se abre”, diz Mariana, ao relembrar daqueles poucos minutos que transformaram suas últimas cinco semanas num misto confuso de ansiedade e autocomiseração. Assim que recebeu o diagnóstico de microcefalia associada a hidrocefalia de seu bebê, ela foi para a internet e leu tudo, inclusive o que não devia, sobre essas condições. Entrou num grupo de mães numa rede social que se encontram em situação semelhante à dela. Tentava insistentemente prever como será o futuro com o filho Leandro. Numa de suas buscas, em 25 de janeiro, cruzou no mundo virtual com Pollyana

- a mãe de Luiz Phillipe -, àquela altura com algumas semanas de experiência em cuidar de um bebê com microcefalia. Encheu a outra de perguntas. “Seu caso foi por zika? Você teve sintomas na gestação? Ele precisou ficar na UTI? Nasceu de 39 semanas? Mama no peito?” E pediu perdão pela ansiedade, absolutamente compreensível. “Desculpa perguntar, mas, como tudo é muito novo para mim, fico buscando informação.”

Serenamente, Pollyana explicou o que Mariana já sabia, mas com que só agora consegue se conformar: cada criança com essa condição é única. De nada adianta especular sobre como será cada uma. “Nossos filhos são crianças de luz. Deus mandou para nos fazer enxergar a vida de outro ângulo”, escreveu Pollyana.

A fé foi um recurso também para a evangélica Gisele, mãe de Geovanna - a menina que nasceu sem microcefalia, mas que ficará em observação por pelo menos um ano. Aos 22 anos, seis meses de gestação e dois depois de ter zika, Gisele ouviu, em um programa de TV, que cientistas começavam a vincular o vírus à microcefalia. A gestante era só paúra. “Pensei mil coisas. Senti medo, medo, medo de ela nascer com microcefalia, de ela não resistir, de ela viver alguns meses e depois não resistir, de eu rejeitar, de não amar, de não saber cuidar, de não estar preparada”, diz. Entre os mil pensamentos de Gisele, ela diz não ter passado o aborto. “Eu pedia a Deus para fazer a vontade dele, não a minha. Se ele achasse que eu estava capacitada para ter uma filha doente... não, especial, se ele me desse uma filha especial, que ele me desse capacidade para lidar com isso”, afirma. Agora, com Geovanna aparentemente saudável, as angústias da mãe mudaram de foco. Gisele ainda tem medo. Ainda passam mil coisas por sua cabeça. A cada espirro diferente, a cada mamada mais curta. “Tenho medo de ela não se desenvolver bem. A médica falou para eu ficar estimulando.”

Não se sabe que tipo de efeito a zika na gestação pode ter sobre a criança, no médio prazo. Por isso, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo está organizando 28 polos de estudo sobre o tema, e Jundiaí é um deles. Gisele se voluntariou para os estudos a cargo da Faculdade de Medicina de Jundiaí. Espera-se que a disposição de mães como ela e o trabalho dos pesquisadores deem mais segurança a outras famílias, num futuro ainda um pouco distante.

Mariana, à espera do filho Leandro, concentra-se no futuro próximo. Após ouvir as recomendações de outras mulheres, como Pollyana, e recorrer a terapia e florais, tenta controlar a ansiedade na reta final da gravidez. Parou de ler sobre o assunto e deixou o grupo de mães na internet. Trabalha muito e se ocupa dos últimos detalhes para a chegada de Leandro, como a montagem do berço. Quer ver o filho e compreender como a microcefalia afetará sua cabecinha. Ter alguma noção de que futuro os espera.

Pollyana se concentra no presente. Luiz Phillipe tem a rotina normal de um recém-nascido. Apenas parece chorar um pouco mais. Não se sabe que tipo de sequela a microcefalia deixará. Se conseguir atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ele contará com apoio de neurologistas, fisioterapeutas e fonoaudiólogas. A mãe, aos 27 anos, transmite força e serenidade. Diz ter ficado mais sensível e carinhosa > emenos bruta”, depois do nascimento do filho. “Não tem um dia que eu não aprenda uma coisa nova. O Luiz Phillipe está me ensinando que existem outras formas de amor”, afirma, com o bebê no colo. 

1 - Existem exames para detectar se a gestante foi contaminada com o vírus zika? Sim. A análise que procura por material genético do vírus (PCR) deve ser feita nos primeiros dias da infecção. A busca por anticorpos específicos só funciona após duas semanas da infecção.

2 - Que outros fatores podem causar microcefalia? Anomalias cromossômicas, infecções do feto portoxoplasmose, rubéola, citomegalovírus. Abuso de álcool, uso de drogas e desnutrição grave da mãe também são fatores.

3 - Faz diferença para o feto em que fase da gravidez a mulher foi infectada? Estudos têm mostrado que, quanto mais cedo a mãe pegar zika na gravidez, maior a probabilidade de a criança sofrer lesão neurológica.

4 - É conveniente adiar planos de gravidez? Por quanto tempo? Por precaução, recomenda-se que as grávidas não viajem para as áreas atingidas pela epidemia, anão ser que seja absolutamente necessário. Não há consenso entre os médicos se é melhor evitar ou não a gravidez neste momento.

5 - Mulheres que já tiveram zika podem engravidar com tranquilidade? Aparentemente sim, porque é provável que a infecção pelo zika dê imunidade permanente. Mas ainda não há estudos conclusivos. 

Fonte: Roberto Medronho, diretor da Faculdade de Medicina e professor titular de epidemiologia da UFRJ

 

Veiculo:

REVISTA ÉPOCA

 

Secao:

VIDA

 

Data:

2016-02-07

 

Localidade:

RIO DE JANEIRO

 

Hora:

15:40:03

 

Tema:

DOENÇAS NEGLIGENCIADAS

 

Autor:

Aline Ribeiro e Flávia Tavares com Marcela Buscato e Sérgio Garcia