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Jornal de Jundiaí online

Ela quer o agricultor próximo à tecnologia

Publicado em 17 abril 2011

Por Alex M. Carmello

A primeira mulher que assume a diretoria do Centro de Engenharia e Automação do Instituto Agronômico de Campinas também foi a primeira engenheira agrícola a se formar no Brasil. Ila Maria Corrêa, 59 anos, é uma gaúcha de Porto Alegre que desde março esta à frente da unidade CEA de Jundiaí.

O CEA teve início na década de 60 como uma unidade do Departamento de Engenharia e Mecânica da Agricultura, cujo objetivo era promover a mecanização agrícola e a conservação do solo, bem como orientar as obras de engenharia rural no Estado de São Paulo. Em 1969, passou a fazer parte do Instituto Agronômico realizando estudos focados apenas em máquinas agrícolas. Hoje, a atividade de pesquisa é diversificada, com estudos que abrangem tecnologia da informação do agronegócio, tecnologia de pós-colheita de flores, frutos e hortaliças, segurança no meio rural, tecnologia de aplicação de insumos (fertilizantes, agrotóxicos), biocombustíveis, engenharia ambiental na agricultura, avaliação e desenvolvimento de máquinas agrícolas.

Além do novo desafio, muitas expectativas e planos estão na mesa da diretora. Alguns deles Ila comenta nesta entrevista. Mas antes de começar a entrevista, é preciso explicar o que é um engenheiro agrícola. Enquanto o agrônomo se aprofunda em matérias das áreas de biologia e química e cuida de todas as etapas da atividade agropecuária, o engenheiro agrícola tem sua formação com base em matemática e física e projeta e aplica técnicas e equipamentos necessários à produção.

Jornal de Jundiaí Regional: Qual o motivo para a escolha dessa área?

Ila Maria Corrêa: A escolha não teve nada de glamoroso. Minha família é de origem urbana e meu contato com a área agrícola se deu por meio de colegas do colegial, motivando-me a prestar vestibular para agronomia. Na ocasião da matrícula, tomei conhecimento da abertura do Curso de Engenharia Agrícola que estava sendo criado naquele ano, 1972. Resolvi arriscar e gostei. Sou a primeira engenheira agrícola formada no País numa turma de 15 homens. Minha primeira experiência profissional foi com testes de máquinas agrícolas no Centro Nacional de Engenharia Agrícola, em Iperó, São Paulo. Esta experiência foi fundamental para que eu viesse para o Instituto Agronômico trabalhar num projeto de avaliação tecnológica de tratores agrícolas. Aqui no CEA, antes de assumir a direção eu era substituta do diretor anterior e acumulava o cargo de diretora do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro.

JJ- Você é a primeira mulher a assumir um cargo de direção no Centro de Engenharia e Automação/IAC. É um grande desafio?

Ila - Mais do que motivo de orgulho, é uma responsabilidade muito grande, principalmente tendo em vista que a gestão anterior fez um bom trabalho, que propiciou melhor projeção do Centro de Engenharia na comunidade regional. Neste cargo, minha função é representar os interesses do CEA junto ao Instituto Agronômico (pleitear recursos: material, humano, financeiro), buscar parcerias públicas e privadas para incrementar as ações de pesquisa e promover maior visibilidade ao CEA junto à comunidade rural da região e de outros estados (desenvolvendo estudos de interesse dos agricultores, promovendo cursos de treinamento, dias de campo, palestras e outros).

JJ- Quais seus planos e projetos?

Ila- O objetivo é intensificar essas ações. Um dos segmentos a ser incentivado com parcerias deverá ser na área de treinamento. A realização de seminários e minicursos pode ser um atrativo tanto para a formação acadêmica como para atualização de profissionais. Já está sendo cogitada a oferta de um curso de especialização (lato sensu ou MBA) em algum sistema produtivo de cultura, o que deve passar por uma prospecção de demanda para sabermos qual cultura ou tema será abordado. A implantação de novos projetos de pesquisa depende muito dos recursos obtidos em agências financiadoras ou de parcerias com empresas. Temos, por exemplo, uma proposta de projeto para desenvolvimento tecnológico da fruticultura regional elaborada na gestão anterior que precisa ser retomado. Apesar da Região de Jundiaí ser considerada um polo de fruticultura do Estado de São Paulo, o que foi reforçado com a criação do Circuito das Frutas, a atividade agrícola vem decaindo. O alto custo da terra, a falta de mão de obra especializada, entre outros fatores, reflete-se na perda de qualidade e competitividade da produção. É preciso revitalizar o negócio da fruticultura, através de um trabalho de cooperação regional entre diversos órgãos do setor.

JJ- Como fazer essa revitalização?

Ila- O Centro de Engenharia já está engajado nesta revitalização. Temos em andamento um projeto de desenvolvimento de máquina para mecanização da poda e da colheita de uva para produção de suco e vinho, que suprirá a escassez de mão de obra, além de elevar o nível tecnológico da produção. Este projeto conta com recursos da FAPESP (Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e colaboração das empresas Kamao e Agritech, fabricantes de máquinas agrícolas. O sistema mecanizado já é utilizado em outros países na Europa e nos Estados Unidos. Outros trabalhos que contribuem para este segmento estão relacionados a estudos de conservação pós-colheita de frutas e hortaliças e de controle de doenças, onde se estuda o uso de substâncias que reduzam a ocorrência de doenças, como podridão mole, antracnose e aumentem a vida útil do produto. Estes estudos são realizados em parceria com o Centro de Frutas, que é outro centro de pesquisa do IAC, sediado em Jundiaí. Ainda na área de fruticultura, há estudo para verificar a qualidade do morango produzido sob diferentes formas de condução (sistema orgânico, convencional e produção integrada) em relação à presença de resíduos de agrotóxicos, além da análise da aparência e da incidência de podridões. É uma forma de verificar se o produtor utiliza boas práticas agrícolas, como por exemplo, uso de produtos recomendados à cultura, respeito à dosagem, bem como contribuir com programas de monitoramento de agrotóxicos na cultura do morango.

JJ- Existe algum tipo de necessidade que pretende suprir no Centro de Automação e Engenharia?

Ila- Temos necessidades de diversas naturezas. A infraestrutura física do CEA é antiga e necessita de reforma em laboratórios, precisamos de veículos novos para fazer acompanhamento de experimentos. Nosso automóvel mais novo tem 13 anos e está sempre demandando manutenção. Além da infraestrutura de pesquisa (laboratórios e salas de pesquisadores e administrativo) temos de cuidar das estradas, das áreas verdes, da rede elétrica, do tratamento de água e de esgoto que são próprios da Instituição. Isto requer um razoável aporte de recursos que, graças ao apoio do governo estadual, a quem somos subordinados, temos conseguido algum auxílio. Estão previstos para este ano a conclusão de reforma da rede elétrica de média tensão, melhorias na rede de baixa tensão e substituição de telhados no prédio da administração, no prédio dos pesquisadores e nos laboratórios de pós-colheita, num total de cerca de R$ 400 mil.

JJ- Você pretende trazer mais pesquisadores para trabalhar no instituto?

Ila: A renovação de pessoal é um problema mais sério e difícil de resolver. Nossos funcionários, e mesmo os pesquisadores, são contratados mediante concurso público que dependem da aprovação do governo estadual. Infelizmente, mesmo abrindo vagas em concurso, corremos o risco de não conseguirmos a efetivação dos mesmos por que o salário é pouco atrativo. Hoje somos 16 pesquisadores e cerca de 40 funcionários de apoio, mas dentro de 4 ou 5 anos, se não houver concurso, teremos uma redução de cerca de 25% no quadro de pessoal.

JJ- Haverá modificação do trabalho desenvolvido no Centro? Um dos que tinham boa repercussão era o trabalho de conscientização sobre aplicação de defensivos. O Centro tem vans específicas para esse tipo de trabalho. Como ficam?

Ila- Os trabalhos de pesquisa que já vinham sendo feitos continuam, pois são compromissos assumidos com as agências que os financiam. Da mesma forma, o Projeto Aplique Bem continua o trabalho de conscientização sobre a aplicação de agrotóxicos. Temos duas equipes que viajam o País todo em veículos caracterizados como laboratórios móveis. As ações destas equipes compreendem uma avaliação das condições do pulverizador, uma avaliação da técnica de pulverização utilizada pelo agricultor e, por fim, um treinamento sobre a aplicação de agrotóxicos. Isto tem contribuído para melhorar a eficiência da aplicação e reduzir a contaminação do ambiente e do trabalhador. Os cursos são agendados pela ARYSTA Lifescience, empresa parceira. Até 2010 foram realizados cerca de 460 treinamentos e treinados 11 mil trabalhadores rurais.

LUCIANA MULLER