Notícia

Jornal de Limeira

Eficiência no uso de fósforo: pesquisa a favor da cultura

Publicado em 03 junho 2013

As recomendações de adubação na citricultura brasileira por muito tempo tiveram como base informações disponíveis na citricultura mundial, destacadamente da Flórida (EUA). Assim, as doses de nitrogênio (N) e potássio (K) eram definidas pela extração desses nutrientes pelos frutos cítricos, da ordem de 1,5-2,0 kg/t de frutos frescos e numa relação 1:1.

Isto foi uma aproximação muito boa naquelas condições em que os solos apresentavam textura muito arenosa e pouca retenção de K, ao contrário dos solos tropicais predominantes na citricultura brasileira. Outro fato de destacada importância relacionava-se à baixa demanda de fósforo (P) pelos pomares da Flórida, devido tanto à alta disponibilidade desse nutriente em função do material de origem local do solo, rico em sedimentos marinhos, como também à baixa adsorção específica ou fixação do P. Resultado disso foram as doses baixas nas adubações aplicadas nos pomares brasileiros, até de 90 g de P205 por caixa de frutos produzida, equivalente, nos espaçamentos mais tradicionais, a menos de 80 kg!ha de P205.

Nesse contexto, no início da década de 90, o programa de pesquisa do Instituto Agronômico (IAC) desenvolveu uma extensa rede de experimentos de campo chamados de “fatoriais NPK”, cujos resultados permitiram a calibração dos teores disponíveis de P no solo extraídos com a resina trocadora de íons. Assim, solos com baixos teores de P (<12 mg/dm3) passaram a receber a recomendação para aplicações de maiores doses desse nutriente, até de 180 kg/ha de P205.

Sanada parte da deficiência das recomendações para a nossa citricultura, o programa de pesquisa evoluiu e foram estabelecidos novos experimentos no final daquela década, chamados como “fatorias NPK de formação”.

Esses estudos se adiantaram às mudanças que a citricultura passou com o aumento da diversificação de porta-enxertos necessária após a ocorrência da morte súbita dos citros. Os resultados demonstraram que laranjeira sobre porta-enxerto de tangerina Cleópatra demandavam mais P que aquelas sobre o limão cravo. Esta informação auxiliou no ajuste do manejo dos pomares, principalmente nos primeiros anos de plantio no campo e proporcionou lograr melhor crescimento das árvores e maior produção de frutos nos primeiros anos no campo.

O programa de pesquisa do IAC não parou por aí. Assim, no início dos anos 2000, a equipe de pesquisa buscou maior entendimento dessas respostas e estabeleceu novos estudos. Isto porque ainda ocorrem sintomas característicos da deficiência de P em pomares jovens, porém, pouco conhecidos pelo citricultor.

Nessa condição, as plantas apresentam folhas maduras de tamanho aumentado, de cor bronzeada, sem brilho, coriáceas, que caem quando a carência é severa, e os ramos tornam-se desfolhados da base para o ápice. Com os resultados desse novo ciclo de pesquisa, verificou-se que a deficiência de P está associada à diferença existente na eficiência das variedades porta-enxertos no uso desse nutriente. Por exemplo, plantas sobre os porta-enxertos de tangerinas são menos eficientes que aquelas sobre o limão cravo ou citrumelo SWingle. As razões para essa constatação são aditivas. A eficiência de aquisição do nutriente da solução do solo é menor para as tangerinas. Isto porque as plantas sobre Cleópatra, além de apresentarem sistema radicular menos eficiente na absorção de P, apresentam menor crescimento absoluto das raízes mesmo com altos teores de P no solo comparado ao cravo, o que limita a exploração e a absorção do nutriente. As tangerinas apresentam ainda menor eficiência de utilização, isto é, a quantidade de biomassa que é produzida por unidade de P absorvida.

Também é observado para Cleópatra menor atividade da fosfatase ácida nas raízes, uma enzima que promove maior possibilidade de aproveitamento do P de frações orgânicas pouco solúveis no solo. Além disso, devido à menor capacidade do sistema radicular na aquisição de P e atendimento da demanda da parte aérea, as árvores sobre Cleópatra apresentam maior atividade da fosfatase ácida nas folhas. Porém, muitas vezes isto pode não ser traduzido em vantagens, pois a maior necessidade da copa das laranjeiras sobre este porta-enxerto requer a solubilização de frações de P incorporadas a importantes frações na planta, como ácidos nucléicos e ésteres de fosfato, o que pode acelerar o processo de senescência foliar e reduzir o potencial fotossintético das plantas. O resultado desse processo é o prejuízo ao crescimento e consequentemente à formação da produção das laranjeiras. Assim, na falta de suprimento adequado de P, essas frações são utilizadas como reservas, que são mobilizadas para folhas novas, flores e frutos.

Os estudos que utilizaram o isótopo de P (32P), como forma de marcar o destino do nutriente dentro da planta, evidenciaram muito bem esse efeito. Por essa razão as folhas, em plantas deficientes, caem precocemente, pois a taxa de remobilização do P nessa condição é muito alta, podendo chegar a 40% do nutriente previamente acumulado na planta.

Adicionalmente, constatou-se que o suprimento adequado de P está também associado à melhor eficiência de uso de outros nutrientes como N, K, cálcio (Ca) e magnésio (Mg). Esses novos estudos, além de auxiliar no entendimento dos mecanismos relacionados à eficiência diferenciada de uso do P na citricultura, o que permite o melhor ajuste da adubação com P nos pomares sobre as tangerinas Cleópatra e Sunki, também demonstraram que a incorporação mais profunda dos fertilizantes contendo P no solo é uma prática para aumentar as respostas dos citros à adubação e consequentemente maior eficiência de produção.

Há que se destacar que nesses novos estudos também se verificou maior eficiência do suprimento do P nutriente quando aplicado na forma de fosfato comparada ao fosfito. Essas pesquisas receberam apoio da Fapesp, CNPq e Universidade da Flórida, e os resultados foram recentemente publicados em importantes periódicos científicos, como, Journal of Soil Science and Plant Nutrition (v.174,2011). Plant and Soil (v.355,2012) e Revista Brasileira de Ciência do Solo (v.36,2012).