Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Eficácia da lama negra é objeto de estudo da USP

Publicado em 19 maio 2013

Por Victor Miranda

A tradicional lama negra de Peruíbe está em análise. Um projeto de mestrado em andamento tenta provar, cientificamente, que o material tem, de fato, características medicinais. Encabeçado pelo médico clínico e coordenador do Projeto Lama Negra, Paulo Flávio de Macedo Gouvêa, o trabalho deve ser concluído até 2015.

O projeto se desenvolve em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), órgão associado à Universidade de São Paulo (USP), e com o apoio da Prefeitura de Peruíbe. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) é a responsável pelo financiamento do estudo.

Segundo Gouvêa, o trabalho é fundamental, por restaurar uma lacuna na literatura sobre o assunto, que é muito escassa no País. Além disso, se os resultados ficarem dentro do esperado, a pesquisa pode valorizar um patrimônio da região, considerado único no Brasil. “Apesar do sucesso que temos visto ao longo dos anos com as pessoas que fazem seus tratamentos com a lama negra; precisamos de uma confirmação científica”, comenta, ao citar que das mais de 100 mil pessoas que utilizaram o material desde 2001, nenhuma teve reação adversa.

O pesquisador do Ipen/USP, Paulo Sergio Cardoso da Silva, também ressalta a importância de um trabalho desse tipo. Segundo ele, é uma tentativa fundamental de trazer para o campo acadêmico uma situação que apresenta resultados positivos na prática.

“O que temos no Brasil são estudos com animais. Com essa pesquisa, podemos chegar a resultados mais. substanciais da eficácia desse material em humanos”, destaca. Ele acrescenta que os campos da pesquisa incluem a “parte química, clínica e mineralógica”.

EFICÁCIA

Se ainda carece de confirmação científica para ter sua eficácia aceita, o sucesso do material é tratado como uma convicção pelo coordenador do Projeto Lama Negra. Ele destaca que a sede do projeto – conhecida como lamário – é indicada por médicos das redes pública e particular no tratamento alternativo de pacientes com necessidade de revitalização de tecidos, bem como problemas em articulações, na pele, de circulação e até de cicatrização.

Em 2012, o lamário atendeu 641 pessoas – não houve atendimento nos meses de maio e dezembro. Nesse período, 262 pacientes tiveram o aprovação para fazer um tratamento mais específico. Os joelhos, ombros e costas são as partes do corpo que mais receberam aplicações. A maior parte dos pacientes veio de Peruíbe (191), Itanhaém (32) e São Paulo (7).

”Nós temos hoje um cadastro no SUS (Sistema Único de Saúde)”, comenta Gouvêa. Essa parceria acontece por meio de um trabalho do Ministério da Saúde, chamado de Política Nacional das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde Humana, que envolve tratamentos alternativos. “Ou seja, podem até não ter a confirmação científica de que a lama negra funciona. Mas também estão certos que não faz mal”.

DUAS FORMAS

Hoje, o atendimento no lamário acontece de duas maneiras. A primeira, pela demanda espontânea. Ou seja, as pessoas que procuram o local por curiosidade ou vontade própria. Neste caso, o serviço mais utilizado é o da máscara facial (que custa R$ 2,00). A segunda demanda é das pessoas que buscam atendimento ambulatorial, justamente no tratamento de problemas de saúde. Em ambos os casos, o contato é possível na própria sede, na Avenida Brasil, 345, Stella Maris, ou pelo telefone (13) 3455-4343.

Enxofre: maior diferencial

A lama negra de Peruíbe é encontrada na margem esquerda do Rio Preto e considerada um rico material, por sua capacidade medicinal e por ser 100% natural. A origem oceânica aumenta as suas qualidades. Um dos seus diferenciais em relação a outras lamas existentes no País está na característica orgânica do seu enxofre.

A exploração do material é autorizada pelo Ministério das Minas e Energia, Cetesb, Ibama e pela Secretaria de Meio Ambiente. Há indícios de que os índios guaranis foram os primeiros a utilizar a lama negra de Peruíbe. Os portugueses, durante a colonização, teriam desprezado esse fato.

Até que, em 1950, um médico alemão encontrou a jazida no rio Preto por casualidade. Ele montou um pequeno hospital termal, mas abandonou tudo por um amor, sem deixar uma sequência de trabalho.

Na década de 1970, durante a febre de criação dos chamados camarões-da-malásia, a jazida foi reencontrada. Um médico boliviano conhecido como Dr. Machado tornou-se o grande incentivador do uso medicinal da lama.

Após a sua morte, em meados da mesma década, um grupo de guerrilha liderado por Carlos Lamarca começou a se esconder na região – mais precisamente em Ana Dias, na vizinha ltariri. O regime militar associou o esconderijo à jazida. Houve um temor de que a lama negra pudesse conter urânio, o que assustou os militares.

INTERVENÇÃO

Houve, então, a intervenção da jazida e, por esse receio, tiveram início as pesquisas envolvendo renomados institutos e universidades públicas. O médico termalista Mário Mourão começou a frequentar o Brasil e detectou o potencial da lama de Peruibe. “Se as águas minerais fossem um instrumento, a de Peruíbe seria uma orquestra”, dizia, se referindo às características poliminerais.

A água mineral do local deixou de ser utilizada. A lama negra voltou ao ostracismo, de onde só saiu no começo dos anos 2000. E hoje encontra- se em um processo de valorização. A jazida, localizada no bairro Veneza, tem estimadas 83 mil toneladas de lama.

DA SUCURSAL