Notícia

Gazeta Mercantil

Educação pode combater o desemprego

Publicado em 04 junho 1997

Por Fátima Laranjeira e Christiane Bueno Malta - de São Paulo
nvestir em educação básica, treinamento de mão-de-obra e no desenvolvimento da infra-estrutura de comunicação, transporte e energia deve ser a estratégia básica dos países em desenvolvimento para se inserirem na globalização e evitar a exclusão de grandes contingentes de trabalhadores do mercado. Esse foi um dos poucos consensos alcançados por pesquisadores de diversos países do mundo participantes do VII Seminário Internacional Tecnologia e Emprego: Desafio Mundial, promovido pela Planef Consultores Associados, Gazeta Mercantil e Fundação Vanzolini. "Para ser candidato a investimentos estrangeiros diretos, nenhum país pode pensar em ter apenas uma vantagem de mão-de-obra barata, mas uma combinação de custo baixo e infra-estrutura moderna ou pelo menos eficaz", afirmou El Mouhoub Mouhoud, consultor do Ministério do Planejamento da França e professor da Universidade d'Evry. Para ele, os países que têm apenas vantagens competitivas de mão-de-obra e recursos naturais fartos tendem a ser discriminados, porque ocorreram mudanças fundamentais na oferta mundial, com a introdução de máquinas informatizadas, e também na demanda, mais preocupada com a qualidade. "Hoje a tecnologia está levando de volta setores tradicionais da indústria para os países desenvolvidos, como têxteis e brinquedos", ressaltou, lembrando que a mudança permite diminuir custos e aumentar a produção e a variedade dos produtos, se somando à economia de escala. Ele lembrou que o norte da França, por exemplo, está recebendo de volta indústrias de confecção de roupas transferidas anteriormente para a índia, porque a tecnologia permite a produção mais rápida e sem desperdícios: "Uma camiseta é feita na índia em sete minutos e com 30% de perda de material, enquanto novas máquinas permitem sua produção em dois minutos, sem desperdício e com pouquíssimos trabalhadores", contou. Com a automação, o peso da mão-de-obra na produção cai a cerca de metade, além de ganhos adicionais com transporte, alfândega etc. "Por isso, a vantagem oferecida apenas pela mão-de-obra desqualificada não se mantém no médio e longo prazo", afirmou. Os economistas presentes ao evento concluíram ainda que o nível das pesquisas sobre a relação entre tecnologia e emprego é muito incipiente, o que não permite análises mais efetivas sobre o que ocorre nas diversas regiões do mundo. "Não estamos armados para enfrentar a realidade tão complexa que temos hoje, os indicadores que possuímos não nos permitem conclusões definitivas e os métodos que usamos são imperfeitos", afirmou o professor da Universidade d'Evry. Na visão do professor Jean Bourlès, da Universidade de Paris-Dauphine, atualmente não é mais possível se contentar apenas com investimentos tangíveis para se obter as inovações, que são a fonte de crescimento e emprego. É preciso efetuar os investimentos intangíveis, pois são eles que dão a competitividade. Investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), que podem ser feitos pelo setor privado ou público; educação e treinamento, visando alta qualificação; despesas em marketing, incluindo publicidade; habilidade organizacional nas empresas e softwares são alguns dos investimentos intangíveis ou imateriais citados por Bourlès. Para ele, a política de inovação adotada por um determinado país deveria englobar ambos os investimentos, onde o poder público teria um papel fundamental de fomento, principalmente visando atender pequenas e médias empresas, que normalmente têm mais dificuldades em obter empréstimos bancários. Bourlès lembrou que na Europa, por volta de 1984, dois programas comunitários foram implantados e proporcionaram à França um filão no segmento eletrônico. Um deles incentivava a pesquisa básica em vários setores que, depois de quatro anos, exigia a aplicação e divulgação da pesquisa em empresas, principalmente pequenas e médias. O outro programa consistia em um local onde as empresas obtinham informações, através da colaboração de outras empresas, visando inovações. A debatedora Maria Lúcia Horta de Almeida, da área de pesquisa da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia, citou que o Brasil ainda tem muito que avançar em investimentos intangíveis, embora esteja em uma fase crescente. Ela disse que os investimentos em P&D no País equivalem atualmente a 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB). No setor empresarial, conforme uma pesquisa da Associação Nacional de Pesquisas e Desenvolvimento de Empresas Industriais (Anpei) - que criou um banco de dados sobre investimentos em P&D - um universo de cerca de 600 empresas que têm uma produção equivalente a 50% do PIB industrial, investem o equivalente a apenas 1% de seu faturamento em P&D. Na avaliação de Maria Lúcia, o aumento dos pedidos de financiamento na Finep ainda é um misto de conscientização com uma reação à pressão externa. O expositor Rinaldo Evangelista, do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, disse que para a maior parte dos países o processo de mudança que vem com a inovação tecnológica será doloroso. Contudo, não se deve pensar que caberá aos países em desenvolvimento somente a produção de itens de baixo valor agregado ou mão-de-obra mais barata. A trajetória pode ser melhorada, a exemplo dos países do sudeste asiático, que investiram em capital humano e educação. Entretanto, não há fórmula para o problema. Cada país terá que analisar suas condições e eleger uma política para enfrentar as inovações de modo a tirar delas o melhor resultado. Evangelista que discorreu sobre o tema "Impacto da Inovação no Emprego: A Experiência Internacional", lembrou que a inovação tecnológica na Europa trouxe por um lado capacidade produtiva, mas por outro decréscimo no número de empregos. Particularmente na Itália, onde os setores produtivos são tradicionais, a inovação trouxe um impacto maior no emprego. Para empresas que faziam mais investimentos em P&D, o impacto tecnológico teve menor efeito sobre o emprego. Analisando o setor de serviços, de uma maneira geral, a inovação desencadeou um impacto positivo. O setor industrial na Itália parece ter tido maior impacto negativo do que o setor de serviços diante das inovações. E, o que se espera com isso é que haja compensações entre eles, ou seja, migração da mão-de-obra. Contudo, Evangelista analisa que a questão agora é se à medida que o setor de serviços começa a introduzir inovações tecnológicas o seu papel de contribuir para o crescimento econômico e aumento de empregos se manterá ou não.