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Diário do Poder

Educação para Sustentabilidade em escolas do Brasil é modelo para britânicos

Publicado em 25 janeiro 2019

Artigo sobre pesquisa da Unesp em parceria com a Universidade de Birmingham é destaque do site da instituição britânica. Os professores Peter Kraftl e José Antonio Perrella Balestieri colaboram, desde 2016, em um projeto temático da Fapesp que investiga a percepção de crianças e adolescentes sobre a relação entre alimento, água e energia.

A publicação no site da universidade foi motivada por recorrentes matérias e reportagens veiculadas na mídia no Reino Unido abordando o crescente distanciamento que os jovens do país estão estabelecendo com a natureza. O assunto parte do projeto desenvolvido entre Unesp e Universidade de Birmingham com o apoio da Fapesp e rendeu um artigo que foi publicado em novembro do ano passado no periódico Transactions, do Institute of British Geographers.

No texto, o professor da universidade do Reino Unido explica a ideia do projeto de pesquisa, sua metodologia, a experiência de trabalho no país e algumas percepções sobre a forma com que o jovem brasileiro entende a relação entre esses elementos.

Surpreendeu o professor britânico o entendimento bastante claro que os jovens brasileiros têm do nexo alimento-água-energia, e a forma com que os diferentes sistemas escolares do Brasil trabalham a Educação para a Sustentabilidade. Professor Kraftl sugere inclusive que ele sirva de modelo para as escolas britânicas.

A publicação original pode ser encontrada no site da Universidade de Birmingham. Segue abaixo uma tradução livre:

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De onde vem o queijo? Como a água chega às suas torneiras? Como os abacates crescem?

O professor Peter Kraftl realiza pesquisas com jovens em todo o mundo e acredita que tais manchetes não refletem a diversidade de realidades. Deve-se ficar atento, diz ele, porque padronizar afirmações como estas acima pode levar a que as vozes dos jovens sejam omitidas de importantes conversas sobre o futuro.

“O modo como as pessoas experimentam, consomem e interagem com alimentos, água e energia está no coração dos projetos de cidades sustentáveis”, diz o professor Kraftl. “Se estamos fazendo planejamentos para o futuro, nosso papel é garantir que a próxima geração tenha uma voz na formação desse projeto. O que descobrimos em toda a nossa pesquisa é que a compreensão deles, e o desejo de proteger suas fontes vitais de comida, água e energia são muito maiores do que as manchetes podem levar você a acreditar”.

Com uma população global crescente e as cidades vivendo uma rápida expansão, há uma pressão crescente sobre os “metabolismos urbanos” – os sistemas essenciais que sustentam as pessoas dentro desses espaços. A pesquisa feita pelo professor Kraftl e os parceiros da Unesp usa as vozes dos jovens para ajudar a manter e melhorar esses metabolismos urbanos para as gerações vindouras.

O interesse do pesquisador pela voz de jovens marginalizados começou ainda em seu doutorado, quando a experiência em uma escola britânica o motivou a deixar a área de arquitetura verde para escutar a opinião dos jovens. “Ao invés de me interessar pelo prédio, passei a me interessar pelas pessoas e a forma como as crianças sentiam nesse prédio”.

Mudando o foco para o Brasil
Na Universidade de Birmingham, o professor Kraftl, ao lado de colegas da Universidade de Leicester, da Universidade de Northampton, todas do Reino Unido, e da Unesp, usa algumas metodologias alternativas para pesquisar as geografias de crianças e jovens no Brasil. “Eu estava trabalhando com a professora Sophie Hadfield Hill, uma colaboradora de longa data, e havíamos acabado de concluir um projeto no Reino Unido que analisou as experiências das crianças de morar em comunidades planejadas de grande escala”, diz o professor Kraftl. “Perguntamos se eram espaços para crianças e, se não, como poderiam ser mudados. Sophie havia acabado de concluir uma pesquisa semelhante na Índia. Vimos a oportunidade de investigar a mudança urbana sustentável no Brasil e achamos que era bom demais para deixar passar”.

Uma parceria foi estabelecida com o professor José Antônio Perrella Balastieri, da Unesp de Guaratinguetá. Ao invés de cientista social, ele é um engenheiro de energia que lidera um grupo de pesquisa brasileiro sobre o nexo energia/água no Brasil.

“Essas primeiras conversas foram realmente interessantes”, lembra o professor Kraftl. “O professor Balastieri vem de uma perspectiva da engenharia, mas ele é profundamente interessado em questões sociais. Como você constrói um sistema de energia que suporte de forma eficiente e efetiva a comunidade como um todo? Este não seria um grupo de engenheiros chegando e simplesmente fornecendo ‘soluções’ que não estão preocupados comos problemas sociais. Isso foi muito importante para nós”.

Depois dos primeiros projetos exploratórios e visitas para estabelecer o networking, o grupo garantiu um auxílio à pesquisa temático financiado pelo ESRC (Economic and Social Research Council) e pela Fapesp. O recurso ampliou a parceria e permitiu estabelecer a pesquisa sobre a relação entre três dos mais prementes desafios do desenvolvimento para o Brasil (e de muitos outros países): alimentos, água e energia. O coração do metabolismo urbano.

Conhecendo o nexo
O movimento em direção à análise deste nexo e a compreensão de complexos metabolismos urbanos são anteriores aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, estabelecidos pela ONU em 2015, embora eles também se alinhem ao desejo de desenvolver cidades mais sustentáveis. “Cerca de uma década atrás, uma série de iniciativas políticas esboçaram que, para abordar adequadamente o desenvolvimento sustentável, não poderíamos mais trabalhar de forma segmentada”, diz o professor Kraftl. “Não poderíamos mais ter soluções para o manejo da energia separadamente dos planos de prevenção de inundações, ou mesmo para nossos sistemas de fornecimento de alimentos. As cidades hoje têm esses sistemas de sistemas vastos e complexos. Existem conexões intrincadas e elas fluem através e para fora de nossas cidades”.

Essa mudança mostrou-se útil para dar uma visão holística à gestão e ao design da cidade, mas a perspectiva de cima para baixo frequentemente deixava os projetos desprovidos do elemento humano e da realidade das experiências vividas pelas pessoas nesses locais.

“Sim, a modelagem matemática complexa e as análises computacionais são boas maneiras de analisar os trade-offs entre os sistemas, mas eles correm o risco de remover as pessoas dentro desses espaços como se elas fossem incidentais. Existem atores com diferentes níveis de poder, recursos financeiros e acesso a qualquer tipo de serviços. É crucial reintroduzir as experiências humanas antes de implementar quaisquer mudanças”.

É aí que entra o grupo de pesquisa. Eles desafiam a modelagem tradicional, explorando a real experiência cotidiana vivida pelos jovens nos temas comida, água e energia. O trabalho em si se espalhou para além de São Paulo e para as áreas rurais em torno da enorme cidade brasileira, mas manteve a mesma questão fundamental: quão apropriado é este modelo do nexo comida-água-energia no mundo real?

Além de realizar um levantamento entre jovens de 10 a 24 anos, eles trabalharam com professores, organizações não-governamentais e partes interessadas dentro do próprio nexo,  procurando conectar esses modelos de alto nível com as vozes de pessoas reais por meio de profissionais e organizações. Professor Kraftl resume: “Nós nos vemos como o tecido conjuntivo entre os formuladores de políticas, os profissionais e os jovens”. É um papel que inclui a tarefa altamente complicada de reunir as diversas vozes de muitos jovens.

Descobrindo nuances na experiência cotidiana
A pesquisa com mais de 3.700 jovens brasileiros continua sendo uma das pesquisas de maior escala já realizada com jovens. “Tivemos que trabalhar muito para obter uma amostra representativa neste que é realmente um país diverso”, diz o professor Kraftl. “Realmente foi uma enorme quantidade de trabalho. Os questionários em si são bastante detalhados, e onde o acesso à Internet era problemático, teríamos que reverter para cópias em papel e preencher com os dados nós mesmos”.

Os questionários foram acompanhados de um trabalho qualitativo com 50 jovens. Isso começou com uma entrevista inicial sobre o papel da comida, água e energia em suas vidas cotidianas, antes que o grupo recebesse um telefone celular e um aplicativo que lhes permitisse tirar fotos de suas interações com os principais processos de alimentos-água-energia ao longo do seu dia.

O estágio final foi sentar-se com eles e explorar esses resultados, antes de mapear suas experiências e imagens através de um exercício de visualização que poderia ajudá-los a delinear sua própria interpretação do nexo.

O professor Kraft explica que esses cartazes detalhados continham uma ou duas surpresas.

“Com essa perspectiva de baixo para cima do nexo, nós nos encontramos com muito mais nuances do que tínhamos visto antes. Isso foi incrivelmente valioso. Ao invés de pensar nos nexos da comida, da água e da energia como aparentemente bem definidos, os jovens falaram sobre uma gama diversificada de coisas. Uma jovem universitária falou sobre como ela comprou uma bicicleta e como isso mudou tudo. A bicicleta permitiu a ela fazer compras no supermercado, tornou mais seguro sua ida e vinda aos lugares, salvou sua energia. Para ela, havia este nexo muito mais complexo que continha essa simples bicicleta no centro. Isso faz você pensar, talvez uma ciclovia poderia aliviar a pressão sobre o fornecimento de comida-água-energia?”.

Outra descoberta inesperada veio de posições políticas tomadas nas respostas, uma descoberta que parece mais relevante à luz de mudanças políticas significativas no Brasil este ano.

“Nós fomos muito claros sobre não fazer perguntas políticas”, diz o professor Kraftl. “No entanto, os jovens usaram essas entrevistas para falar sobre justiça social, para falar sobre como o estado precisa garantir que todos os jovens tenham acesso à comida e água. Eles estavam certos de que a atual “crise” política e econômica dentro do país estava tendo um efeito sobre o nexo – e que isso era algo que nós pesquisadores precisávamos estar cientes”.

“Talvez o mais surpreendente de tudo tenha sido sua ambivalência em relação às mídias sociais. Muitas vezes ouvimos sobre como é uma influência prejudicial e significativa sobre os jovens, mas eles realmente viram isso de uma maneira muito mais equilibrada. Eles pensam que as mídias sociais podem ser úteis para acessar múltiplos pontos de vista em um país que se acostumou a mensagens políticas mediadas por meio da mídia, mas ao mesmo tempo eles culpam o aumento do consumismo e do individualismo. Eles veem isso como quase anti-brasileiro. Quando eles falavam sobre comida, por exemplo, um grande número preferia os pratos nacionais do Brasil a qualquer outra coisa. Ficamos bastante surpresos com essas críticas ao consumismo. Talvez não devêssemos ter ficado”.

“Saber como as pessoas realmente se identificam com alimentos, água e energia – e o que é importante para elas – transformou nossa compreensão do que se torna importante na criação de sistemas sustentáveis ​​para o futuro”. Como um “tecido conjuntivo” entre a geração mais jovem e os atores envolvidas no planejamento dos espaços do futuro, o grupo acredita que as descobertas podem fornecer uma plataforma para sistemas mais inteligentes e mais sustentáveis. Eles continuam trabalhando ao lado de planejadores para incorporar as recomendações ao projetar o nexo comida-água-energia no Brasil.

Educando jovens para a sustentabilidade
A importância de buscar opiniões que desafiem opiniões pré-concebidas é evidente em toda a pesquisa do professor Kraftl. Isto é sustentado por (Re)Thinking (Re)Connectiono assunto de um novo artigo do grupo publicado em Transactions of the Institute of British Geographers e que teve participação de diversos pesquisadores da Unesp.

“Uma das maiores preocupações, especialmente no norte do globo, é que os jovens não estão mais conectados com a natureza. Eles não sabem de onde vem a sua comida, água ou energia. Eles não passam tempo suficiente ao ar livre, não são ativos e assim por diante. Há também muitas críticas sobre as quais eu participei, mas queríamos levar essa crítica para fora da minoria do norte do globo e para o Brasil para ver o que isso poderia nos dizer”.

No Brasil, houve um movimento em direção ao que é amplamente conhecido como Educação para a Sustentabilidade. O Brasil tem um sistema educacional diversificado, oferecido por diferentes meios (educação privada, educação pública, educação patrocinada por ONGs) e, portanto, existem diferentes modelos de Educação para a Sustentabilidade. No coração de todos eles, no entanto, há um movimento para reconectar os jovens com a natureza. Parte do nosso projeto de pesquisa envolveu o trabalho com os próprios educadores para ver o que pode ser aprendido com os diversos métodos de ensino.

Como visto no projeto de mapeamento do nexo, os jovens conheciam muito bem os sistemas de água em suas vidas, ou como a energia poderia ser economizada. Isso estimulou o grupo de pesquisa a refletir como, globalmente, nós podemos “reconectar” as crianças com a natureza em todo o mundo, colocando maior ênfase na compreensão dos sistemas a partir da perspectiva dos jovens.

O desafio agora é incorporar as descobertas feitas nos diversos sistemas de educação no Brasil. O grupo de pesquisa está desenvolvendo ferramentas educacionais que podem ser adotadas em sala de aula. Além do Brasil, fala-se de uma questão mais ampla sobre a adoção de métodos para a Educação para a Sustentabilidade.

“O modelo atual de Educação para a Sustentabilidade no Reino Unido não é problemático, por si só. Mas poderia ser mais informado pelo modelo brasileiro mais dialógico que está enraizado em ouvir as próprias comunidades e construir o modelo a partir daí. Os jovens estão interessados, mas eles precisam se envolver de uma maneira que reflitam sobre suas próprias experiências”.

O docente já está trabalhando no sentido de fornecer uma base de evidências mais global com um projeto em andamento com o Canadá, a Austrália e o Reino Unido, financiado pelo Conselho de Pesquisa em Ciências Sociais e Humanidades do Canadá (SSHRC). A contribuição do Reino Unido será as abordagens experimentais para educação energética em Balsall Heath, Birmingham.

O professor Kraftl conclui: “As conversas que tive com os jovens me deram grande motivo para otimismo. Com frequencia eles estão bem conscientes dos problemas em suas comunidades e é apenas uma questão de se engajar em um diálogo e envolvê-los mais no processo. Afinal, este é o futuro que planejamos”.

ACI Unesp