Notícia

Agência C&T (MCTI)

Educação em ciências ganha publicação especial

Publicado em 15 maio 2008

O primeiro número temático da revista Ciência & Ensino, publicação voltada a professores de ciências do ensino fundamental e médio e seus formadores, foi lançado pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Ciência e Ensino (gepCE), vinculado à Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Com o tema "Educação em ciência, tecnologia, sociedade e ambiente", o número especial foi organizado por Noela Invernizzi, professora do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Laís Fraga, mestre em Política Científica e Tecnológica pelo Instituto de Geociências da Unicamp. O acesso à versão eletrônica da publicação, que tem periodicidade semestral, é gratuito.

A edição especial tem 19 artigos que trazem conclusões de estudos sobre o campo da ciência, tecnologia e sociedade (CTS) que, segundo os pesquisadores que assinam os trabalhos, representa uma nova forma de compreensão da ciência e da tecnologia e de suas relações com o ambiente social que, no Brasil, têm sido construídas desde o fim da década de 1960.

A partir da análise das implicações sociais, ambientais e éticas do desenvolvimento científico e tecnológico, o campo da CTS, ou CTSA, como também é chamado por alguns autores devido à importância que a dimensão socioambiental tem conquistado no sistema de ensino brasileiro, questiona a visão neutra da ciência e as idéias lineares de progresso a elas relacionadas.

-A visão neutra está associada com a idéia de que a produção científica não sofre influências de aspectos sociais, incluindo questões políticas e econômicas. Na visão da educação CTSA, a produção da ciência e da tecnologia não ocorre isoladamente e, por isso, faz parte de um contexto mais amplo, constituído por diferentes valores e interesses sociais e culturais - disse o editor da revista, Henrique César da Silva, professor do Departamento de Geociências Aplicadas ao Ensino do Instituto de Geociências da Unicamp, à Agência FAPESP.

Segundo Silva, ainda que as pesquisas sobre a abordagem CTSA no Brasil tragam novas perspectivas para o campo da educação em ciências, esses estudos contribuem para aprofundar elementos que são discutidos há várias décadas por profissionais da área no Brasil e em outros países.

-Um exemplo é a discussão sobre a própria natureza da ciência enquanto conteúdo do ensino de ciências, questão que está dentro da abordagem da CTS, mas que vem sendo objeto de estudo paralelamente ao surgimento desse movimento - apontou Silva.

-A natureza da ciência enquanto conteúdo significa ensinar física, química, geologia e biologia, por exemplo, e não trabalhar apenas os conceitos dessas disciplinas, mas também o imaginário dos alunos sobre ciência - disse.

O desenvolvimento acadêmico no campo da CTS, descreve a publicação, teve início a partir dos anos 1980 e que, ainda hoje, as universidades brasileiras contam com um número reduzido de programas de educação superior dedicados ao estudo das relações entre ciência, tecnologia e sociedade, que se localizam quase exclusivamente no nível da pós-graduação. "Há ainda uma tímida inserção da abordagem CTS ou CTSA no currículo escolar e acadêmico em todo o país", disse.

A formação dos indivíduos para a participação social, segundo ele, é um dos aspectos específicos que caracterizam essa abordagem e que, atualmente, está fortemente em pauta em diversos trabalhos. Trazendo para a prática, a necessidade, possibilidades e problemáticas relativas a construção de uma usina termelétrica, por exemplo, que não envolve apenas discussões técnicas sobre sua viabilidade de instalação em determinado local, ilustraria esse modelo de educação "socialmente participativo".

-A abordagem CTS levaria esse tipo de discussão à sala de aula para ensinar aos alunos não apenas os conteúdos técnicos e científicos envolvidos com a construção da usina, mas também ensiná-los a se envolver no processo de tomadas de decisões políticas, sociais e ambientais que envolvam a sua implementação - destacou.

Mais informações: www.ige.unicamp.br/ojs