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Educação e mídia no II Congresso Internacional sobre Competências Midiáticas

Publicado em 16 dezembro 2017

Saber usar as informações presentes nas mídias como garantia de uma atividade cidadã mais plena e democrática é o que trata o conceito de competências midiáticas. Diante do enorme número de informações que somos bombardeados hoje sob diversas linguagens, seja a verbal, sonora ou imagética, o cidadão deve ter cada vez mais domínio das potencialidades discursivas de cada mídia para evitar ser manipulado ou acabar caindo no antro da divulgação de notícias falsas. Além disso, as competências midiáticas asseguram que os usuários participem ativamente da produção de conteúdos para outros, gerando uma rede descentralizada de informações diversificadas, garantindo a democracia. Visando publicizar essas questões, o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFJF realizou, nos dias 23 a 25 de outubro, o II Congresso Internacional sobre Competências Midiáticas.

Na programação estava inclusa a conferência “A articulação entre mídia-educadores e educomunicadores como garantia para a superação dos obstáculos à disseminação da educação midiática, no Brasil”, ministrada pelo Prof. Dr. Ismar de Oliveira Soares (Universidade de São Paulo e ABPEducom), sobre o qual falaremos neste post.

No início de sua apresentação, o professor comentou sobre seu projeto de educação midiática que vem realizando em São Paulo com duas escolas da cidade. As realidades das duas instituições são bastante diversas: Dante Alighieri é um colégio particular e de classe média-alta e o Umei Casablanca é uma escola municipal na periferia. Com essa introdução, Ismar quis exemplificar como projetos de educação midiática podem ser implementados dentro de escolas.

“Vou trabalhar aqui a partir disso e mostrar como a área da educomunicaçao parte exatamente do reconhecimento que a criança tem um direito de conhecer o mundo da comunicação e conviver com ele de forma adequada”, relata.

Segundo o professor, existe no Brasil desde 2010 um plano nacional de educação e direitos humanos e cada estado deve produzir seu plano. Em São Paulo, a prefeitura chamou os alunos das duas escolas apresentadas anteriormente para debaterem o plano e mostrarem o que elas gostariam que estivesse lá.

Ainda de acordo com ele, existem na América Latina diversas iniciativas com relação a discutir e implementar questões voltadas para a literacia midiática. Em Cuba, o professor Pablo Ramos trabalha com crianças e adolescentes, entregando câmeras de cinema para elas produzirem filmes e analisá-los, criando um plano de trabalho. Ele ainda pesquisou como na América Latina se desenvolvia essa relação comunicação-educação.

Além disso, congressos em Santiago, Curitiba, Buenos Aires e Las Vertientes (Chile) produziram o material “Educación para la Comunicación – Manual Latinoamericano, produzido pela CENECA em 1992. Esse material mostrava uma convergência de pensamento entre universitários, pesquisadores e a sociedade civil. Segundo o palestrante, esse livro não fala de educomunicação como falamos hoje, mas mostrou que existia na América Latina uma perspectiva acadêmica.

“Quero, com esse foco na América Latina, dizer que aqui foi feito um percurso como foi realizado na Europa e nos EUA. São muitas matrizes de pensamento a respeito da presença da mídia. No caso do nosso continente, não é exatamente a mídia, mas os processos de comunicação, incluindo a mídia, os processos, as atitudes e a gestão de ecossistemas que estão sendo investigados”, comenta.

A partir do apoio da Fapesp o grupo de pesquisa de Ismar realizou um projeto de pesquisa em 12 países da América Latina com o intuito de saber na época como os agentes da relação comunicação/educação imaginavam como se dava essa relação e como eles se colocavam frente a isso. Conforme Ismar relatou, foi um longo questionário, seguido de 25 entrevistas em profundidade entre 1997 e 1999. “Percebemos que grupos que não se conheciam tinham pensamentos e práticas confluentes. Conseguimos identificar os elementos de coincidência e percebemos que as questões delicadas das interfaces e da realidade antropológica se concretizava naquilo que poderia ser um campo emergente. Tomamos ‘educomunicação’ para designar esse elemento”, argumenta.

Ainda segundo Ismar, depois de sistematizado esse campo a partir do conceito central de educomunicação ficou mais fácil dialogar com outros sistemas e áreas do conhecimento. “Fomos chamados para resolver um problema na Prefeitura de São Paulo: a violência dentro das escolas. Não fomos chamados para falar de mídias, nem de currículo, pois nos deram espaço marginal aos sábados. Trabalhamos durante 4 anos com professores, alunos e membros da comunidade a partir do uso da comunicação para o alcance da paz”, diz o professor, que ainda afirmou que entre 2000 e 2017 cerca de 250 mestrados e doutorados versaram sobre o assunto da educomunicação.

Para finalizar, Ismar deixou como assunto os principais desafios para uma maior implementação de práticas de competências midiática tanto em escolas quanto nas diversas relações do indivíduo com as mídias. “Um dos grandes desafios hoje está na Base Nacional Comum Curricular, pois detectei que nos textos havia um imenso espaço de atuação para educomunicação, que se trabalhasse a mídia na educação, principalmente na área de linguagem. Devemos colaborar na base e devemos nos unir para interferir nessa base. Acredito que nossos próximos passos estejam no avanço da perspectiva prática para fazermos a educomunicação acontecer nas escolas e locais próximos a nos”, finaliza.