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Gazeta Mercantil

Educação é chave para região crescer, diz BID

Publicado em 15 setembro 1997

Por Maria Helena Tachinardi - de Washington
A América Latina deverá registrar, neste ano, os melhores resultados em crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e redução da inflação depois de uma década de reformas estruturais, anunciou o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em seu relatório "Progresso Econômico e Social, 1997". A inflação média da região deverá ficar em 9,5%, comparada com 18,5% em 1996, e o crescimento atingirá 5%, em relação a 3,6% no ano passado. Argentina, Chile, México, Peru e outras economias menores terão taxas de expansão do PIB ao redor de 6%, mas esse índice no Brasil não ultrapassará 4%. Somente um país -a Venezuela - exibe inflação acima de 30%. Os déficits fiscais diminuíram, e atualmente os países da América Latina estão mais dentro dos requisitos fiscais estabelecidos pelo Tratado de Maastricht para o ingresso dos membros da União Européia (UE) do que os próprios membros deste bloco. O estudo observa, no entanto, que a região tende ao gasto excessivo em anos eleitorais, acima dos verificados nas nações industrializadas, proporcionalmente. "O fenômeno do Sudeste Asiático não afetou a América Latina e isso mostra confiança internacional na região", disse o presidente do BID, Enrique Iglesias. Em sua avaliação, o real não corre o risco de ataques especulativos "porque o déficit em conta corrente é financiável, a composição da dívida brasileira é diferente da tailandesa e o processo de privatização proporciona uma entrada importante de recursos". O clima de otimismo deve ser mesclado com atitudes de cautela. O BID insiste na necessidade de se completar as reformas estruturais, especialmente em matéria de arrecadação de impostos, privatizações, reformas trabalhista, jurídica e normativa. Somente com essas reformas e a melhora no padrão educacional dos trabalhadores - que hoje este abaixo dos níveis mundiais - a América Latina poderá sustentar uma taxa de crescimento de 5,5% e reduzir a pobreza e o desemprego. Se nos próximos dez anos a escolaridade média da força de trabalho se elevasse de cinco a 6,8 anos, o crescimento econômico aumentaria em, pelo menos, um ponto percentual adicional e a pobreza diminuiria substancialmente, estima o relatório. "O principal obstáculo ao crescimento econômico, a médio prazo, já não são as políticas estruturais, mas a educação. O esforço educativo que a região requer não prejudicaria a estabilidade fiscal se o gasto atual fosse feito de forma mais eficiente. Os recursos públicos para a educação devem ser concedidos com base nos resultados e não nos custos, como ocorre atualmente. As escolas devem ter autonomia para empregar esses meios, e as comunidades a capacidade de controlá-los. A educação é a chave, não só para acelerar o crescimento econômico, mas também para aliviar os problemas da pobreza e da desigualdade social na América Latina, a região do mundo com a pior distribuição de renda", diz o estudo do BID. O economista-chefe da instituição, Ricardo Hausmann, observou que os latino-americanos se transformaram em muitas dimensões, entre elas a política. Hoje, 26 países são democracias, em relação a 13 em 1980. Naquele ano, somente três tinham eleições diretas para prefeito, em comparação com 17 atualmente. De 19 países estudados, 18 apresentam tarifas máximas de importação inferiores a 20%. As reformas valeram a pena? Sim, responde o relatório. As reformas aceleraram em 20% o crescimento na América Latina, reduziram a volatilidade macroeconômica e melhoraram a distribuição da renda. "O percentual de pobres deixou de aumentar na região na década de 90", notou Hausmann. O grande problema é que a educação não evoluiu adequadamente. Esse tema será o ponto focai da visita do presidente Bill Clinton ao Brasil, em meados de outubro, e está entre os principais itens da agenda da Cúpula das Américas em abril do próximo ano, em Santiago do Chile. O BID pretende apoiar com empréstimos o ensino técnico no País. A questão do desemprego continua a preocupar o banco, que estará realizando um seminário sobre este assunto na cidade colombiana de Cartagena, em fevereiro próximo. "O crescimento econômico é importante, mas é preciso também fazer reformas no mercado de trabalho", disse Iglesias. Apesar das divergências políticas, como a existente entre o Brasil e a Argentina em torno de um assento regional permanente no Conselho de Segurança da ONU, ele não acredita em retrocesso no Mercosul nem em volta ao protecionismo. "O compromisso da América Latina com o livre comércio é muito forte", comentou, referindo-se aos esforços para a construção da área hemisférica de liberalização comercial e às negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). Na opinião do presidente do BID, Clinton conseguirá a aprovação do "fast track", autorização do Congresso para os EUA assinarem acordos comerciais na OMC e com países da América Latina e da Ásia. A instituição anunciou, na sexta-feira, que concederá um perdão da dívida externa da Bolívia no valor de US$ 260 milhões em termos nominais, o equivalente a 35% do alívio oferecido por todos os credores e mais da metade do volume garantido pelas instituições multilaterais. A Bolívia se tornará o primeiro país latino-americano á receber perdão da dívida no âmbito da iniciativa "HIPC" para ajudar os países pobres mais endividados do mundo.