Notícia

Jornal da Unesp

Educação aproxima Brasil e França

Publicado em 01 maio 2015

Por Oscar D’Ambrosio

A Unesp recebeu, entre os dias 1º de março e 3 de abril, o professor Max Butlen, da Universidade de Cergy-Pontoise, da França. Butlen veio como professor-visitante, em um projeto elaborado pelo professor Alonso Bezerra de Carvalho, docente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unesp de Marília e do Departamento de Educação da Unesp de Assis. A iniciativa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Mestre em Literatura e Didática Moderna pela Universidade Paris 7 e doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Sorbonne, o professor Butlen foi encarregado de projetos na área de formação de professores e de leitores junto ao Ministério da Educação francês e na de cooperação junto ao Ministério da Educação brasileiro.

Durante a visita, Butlen promoveu várias atividades, como o oferecimento de uma disciplina na Pós-Graduação em Marília, reuniões com pesquisadores, palestra para alunos e professores da graduação e demais interessados, além de encontro com docentes que desenvolvem projetos na área de formação de professores, como o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid).

Para um melhor contato com a realidade educacional brasileira, ele participou ainda de visitas a escolas públicas. O objetivo foi favorecer o conhecimento, a troca de ideias e as observações das peculiaridades e diferenças entre Brasil e França.

“Essa atividade tem também o objetivo de contribuir na elaboração de projetos futuros, de maneira que possamos ampliar as opções no campo das pesquisas e da prática pedagógica”, destaca Alonso. Ele lembra ainda que, em breve, professores das unidades de Marília e de Assis da Unesp vão à Universidade de Cergy-Pontoise, dentro do Programa de Graduação Inovadora, da Pró-reitoria de Graduação.

A seguir, a entrevista concedida pelo especialista francês ao Jornal Unesp:

Jornal Unesp: Qual é o maior desafio hoje na formação de leitores?

Max Butlen: Formar um leitor polivalente, capaz de ler todos os tipos de textos em todos os suportes existentes, é um desafio grande. Isso significa a presença da leitura nos mais variados espaços, como a casa, a sala de aula, a biblioteca da escola e a do município. O sujeito leitor deve ser estimulado a ter uma leitura crítica, alargando as suas competências e participando plenamente da cultura escrita.

JU: Como essa prática da leitura se dá numa sociedade cada vez mais informatizada?

Butlen: O acesso a uma sociedade cada vez mais informatizada supõe que todos os alunos estejam lendo em diversos suportes. Isso, porém, não é totalmente verdade. A prática da leitura não é automática. Precisa ser aprendida em casa e na escola. O esforço dos educadores é rumo a uma sociedade em que todas as crianças possam ter acesso à cultura digital. Muitas vezes o uso da informática ou do celular é coibido em sala de aula, embora esteja presente nas famílias e na sociedade. O fato é que a escola precisa estar mais integrada em suas abordagens pedagógica e didática com a cultura digital.

JU: Como o professor formado no século XX convive com o aluno do século XXI?

Butlen: O aluno nascido no século XXI precisa ser formado pela escola. O papel dos pais e da sociedade é formar esses jovens. Isso não ocorre de imediato. Existe hoje uma massificação do sistema educativo, pois mais alunos vão para a escola, chegam ao ensino médio e à universidade. O desafio é transformar essa massificação da população escolar em democratização. A massificação existe; a democratização é uma luta para que todos os alunos possam ter melhores possibilidades e maiores oportunidades.

JU: Quais as semelhanças e diferenças entre a educação na França e no Brasil?

Butlen: A maior semelhança é o esforço para construir uma escola que democratize as possibilidades das vidas futuras, oferecendo caminhos para que cada indivíduo se integre na sociedade do século XXI. As diferenças são muitas em termos de história e de cultura. Mesmo assim, sempre houve grande intercâmbio entre Brasil e França, com grande circulação do saber. Há uma tradição muito forte de enriquecimento mútuo. Meu diálogo com o professor Alonso da Unesp, assim como com a professora Renata Junqueira, da Unesp de Presidente Prudente, pode ser incluído nessa perspectiva.

JU: Qual é a sua visão do educador brasileiro?

Butlen: Tenho encontrado professores muito motivados, que desejam fazer um bom trabalho docente para melhorar o próprio ensino e ter bons resultados com seus alunos. Trata-se de uma ação muito complexa, pois o mundo mudou, assim como os alunos. Para lidar com essa nova realidade, é necessária uma formação mais ampla. Os professores merecem, nesse contexto, por parte do governo, em todas as esferas, uma valorização e revalorização moral e salarial. Eles têm um papel essencial, já que nada é mais importante que a educação das crianças.