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Jornal da Unesp online

Editor reprova produção acadêmica dos EUA

Publicado em 01 outubro 2007

Lindsay Waters, numa palestra em comemoração pelos 20 anos da Editora UNESP, afirma que docentes são estimulados a publicar o maior número possível de trabalhos, em prejuízo da qualidade das obras


Entre as comemorações por seus 20 anos de atividade, a Editora UNESP promoveu, em São Paulo, no dia 11 de outubro, uma palestra de Lindsay Waters, editor-executivo da área de Humanidades da Harvard University Press, uma das mais conceituadas editoras universitárias norte-americanas. Waters é autor do livro Inimigos da esperança — publicado no Brasil pela Editora UNESP —, que causou polêmica ao questionar a qualidade dos títulos científicos publicados nos Estados Unidos. (Leia quadro.)

Participaram do evento o diretor científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Carlos Henrique de Brito Cruz, e o vice-reitor da UNESP, Hermann Jacobus Cornelis Voorwald, além do diretor-presidente e do diretor-executivo da Editora, respectivamente, José Castilho Marques Neto e Jézio Hernani Bomfim Gutierrez.

Na palestra, Waters destacou que o sistema universitário de seu país enfrenta uma crise provocada pela hegemonia dos critérios quantitativos na avaliação do desempenho dos docentes. "As universidades cada vez mais confiam no número de publicações e os professores só têm valor se publicarem livros ou artigos", afirmou, destacando que essa tendência leva ao enfraquecimento do debate acadêmico. (Leia entrevista abaixo.)


O debate no Brasil

Brito Cruz assinalou que o ensino superior do Brasil também discute pouco sua identidade e função social. O dirigente da Fapesp apontou, ainda, problemas resultantes da ênfase na produção quantitativa na comunidade universitária. "Hoje, os departamentos costumam ter suas próprias publicações, o que é uma maneira de inflacionar as publicações docentes", comentou.

Após parabenizar a Editora pelo evento, o professor Voorwald destacou que a avaliação é um tema muito discutido no Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão Universitária (Cepe) da UNESP. O vice-reitor afirmou que hoje a sociedade espera que o docente tenha um desempenho de padrão internacional. "Precisamos estar envolvidos em atividades de extensão e inclusão, além das tarefas de educação e pesquisa", concluiu.

Em sua intervenção, Castilho abordou o trabalho da Editora UNESP ao longo de duas décadas. Segundo ele, o catálogo da Editora já soma mais de mil títulos, de clássicos do pensamento ocidental à produção de importantes intelectuais brasileiros. "Além disso, cerca de 200 títulos que lançamos são de autoria de pesquisadores da UNESP", afirmou.

Gutierrez analisou Inimigos da esperança, argumentando que o livro mostra como a valorização quantitativa de publicações acadêmicas enfraquece as editoras, reduz a qualidade dos títulos lançados e, por fim, gera um desastre informacional, pela profusão de dados divulgados sem critérios rigorosos. "Essas conclusões justificam o interesse que a obra de Waters desperta", destacou.


Autor encontra editores na Bienal do Rio

Durante a 13a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, realizada entre 13 e 23 de setembro, a Editora UNESP promoveu um encontro de Lindsay Waters com integrantes da Abeu (Associação Brasileira de Editoras Universitárias). O encontro, que ocorreu dia 14, promoveu o livro de Waters, Inimigos da esperança, publicado pela Editora.

Também foram lançados na Bienal seis títulos da Editora: A ciência ri, de Sidney Harris; A duração da pessoa — mobilidade, parentesco e xamanismo mbya (guarani), de Elizabeth Pissolato; Contraponto — O ensino e o aprendizado no curso superior de Música, de Vera Helena Massuh Cury; Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil, de Wilson Cano; A Revolução Francesa explicada à minha neta, de Michel Vovelle; A sátira do parnaso — Estudo da poesia satírica de Olavo Bilac publicada em periódicos de 1894 a 1904, de Alvaro Santos Simões Junior.


Entrevista/Lindsay Waters

Visão crítica do ensino superior 

Lindsay Waters tem uma visão muito crítica do ensino superior e do mercado editorial dos EUA. Nesta entrevista, ele aborda a obsessão pela quantidade na produção universitária, as deficiências na avaliação docente e as dificuldades das editoras universitárias.

(André Louzas)


Jornal UNESP: O seu livro se tornou conhecido por sua reprovação da ênfase no crescimento das publicações acadêmicas, nos Estados Unidos. Como o senhor vê essa repercussão?

Lindsay Waters: Eu acho que, hoje, o problema que detectei no meu país está internacionalizado. No panorama acadêmico norte-americano, há cerca de 30 anos, não havia a obrigação de publicar para se garantir o posto de professor. Mas a partir dos anos 1970, em função da sua própria expansão, o sistema universitário começou a contratar mais docentes e houve a construção de uma "maquinaria" que automatizou a produção dos professores e levou ao lançamento de mais livros. Os dirigentes das universidades começaram a enfatizar a quantidade de publicações na avaliação docente. E muitos editores estimularam os acadêmicos a publicar trabalhos que não representam verdadeiras contribuições a suas áreas.


JU: Quais são os problemas que essa tendência causa no processo de avaliação acadêmica?

Waters: Um dos danos causados é a falta de rigor nos critérios de avaliação e ausência de debates nos departamentos. Um amigo da Universidade de Pittsburg me contou que uma vez queria levantar algumas questões sobre a qualidade dos trabalhos de um candidato a professor no seu departamento. E o chefe do departamento lhe disse, então, que não era o caso, porque o candidato havia publicado um livro pela Editora da Universidade da Califórnia e, por esse motivo, não seria preciso questionar o valor dessa obra.


Jornal UNESP: Como esse fenômeno foi sentido entre as editoras universitárias?

Waters: Muitas editoras incentivam essa expansão de publicações para aumentar seus lucros. Várias editoras universitárias, que antes publicavam 500 títulos por ano, atualmente lançam 5 mil obras anualmente. Mas, em função dessa expansão de títulos, estão caindo as vendas dos livros. E isso leva as editoras a publicar mais títulos para manter o nível de seus lucros.


Jornal UNESP: Como está o contexto editorial nos Estados Unidos?

Waters: A venda de livros caiu muito depois dos atentados de 11 de setembro. Grandes redes de lojas fecharam suas portas e os jornais dão cada vez menos espaço para a crítica literária. Diante dessa situação, estamos dando mais ênfase à publicidade de nossos produtos e valorizamos eventos como festivais literários. Buscamos, ainda, divulgar nossas obras nas TVs a cabo e em blogs, e ficamos atentos às sugestões da área comercial da editora. Além disso, um livro pode estar disponível na Internet e também ser vendido na versão de papel.