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Gazeta Mercantil

Economia paulista pode alavancar internacionalização

Publicado em 05 junho 2008

Por Jaime Soares de Assis

A alta concentração de atividades sofisticadas nas áreas de tecnologia da informação (TI), serviços financeiros e outsourcing confere ao estado de São Paulo potencial para internacionalização. O Produto Interno Bruto (PIB) paulista é maior que o de muitos países latino-americanos, superado apenas por Brasil e México e, com a adoção de um planejamento de longo prazo, o estado pode se transformar na plataforma de inserção do País nos setores mais dinâmicos da economia mundial.

Os números do estudo "Vocação Internacional do Estado de São Paulo", elaborado pela Prospectiva - Consultoria Brasileira de Assuntos Internacionais, revelam que no quadrilátero formado pela região metropolitana de São Paulo e as cidades de Sorocaba, Ribeirão Preto e São José dos Campos existem atividades produtivas na área industrial, de serviços e pesquisa de alto valor agregado capazes de impulsionar a internacionalização estadual. A inserção global brasileira é muito forte em segmentos intensivos em recursos naturais, que são os menos dinâmicos da economia, informa Ricardo Ubiraci Sennes, sócio-diretor da Prospectiva. Este perfil pode mudar se houver uma política direcionada para segmentos com elevado grau de inovação.

Para Sennes, o estado de São Paulo tem condições para se tornar um pólo como a indiana Bangalore, conhecida mundialmente pela concentração de subsidiárias de tecnologia da informação e mão-de-obra qualificada, e Londres, que é a capital financeira da Europa. As políticas adotadas pela Irlanda, que decidiu construir uma economia moderna com investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), foram responsáveis pelo renascimento da indústria de biotecnologia do país.

O mapeamento realizado pela Prospectiva mostrou que o quadrilátero de alta tecnologia de São Paulo congrega um pouco de cada um destes pólos internacionais. A região compreende o maior centro financeiro da América Latina, concentra 75% das exportações de alto valor agregado do Brasil, produz mais doutores e artigos acadêmicos que as cinco principais universidades norte-americanas somadas e mais de 50% das exportações de serviços do País.

O PIB estadual somou US$ 298,8 bilhões em 2005 (último dado disponível), acima da Argentina (US$ 183,2 bilhões), Venezuela (US$ 144,8 bilhões) Colômbia (US$ 122,9 bilhões), Chile (US$118,9 bilhões) e Peru (US$ 79,4 bilhões). Segundo Sennes, estes números mostram a potência regional da economia paulista. O setor de serviços impulsiona a economia paulista e se encontra em expansão. De acordo com os levantamentos da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) a região metropolitana de São Paulo, absorve os maiores percentuais de profissionais com ensino superior completo.O conteúdo tecnológico da produção de automóveis, aviões, refino de petróleo, material eletrônico e de comunicações se alia à manutenção de centros de pesquisa, sistemas de intermediação financeira sofisticados, serviços médicos de alto nível e infra-estrutura rodoviária e portuária. Institutos de ensino superior como a Universidade de Campinas (Unicamp), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a capacidade de produção de pesquisas e de formação acadêmica de alto nível reforçam a estrutura necessária para que o estado possa se projetar internacionalmente. Três pilares – financeiro, serviços (outsourcing) e inovação – devem sustentar este esforço. "Estes são os três eixos dinâmicos da economia mundial", afirma Sennes. O Brasil não está percebendo esta mudança, na avalia Sennes.

O Brasil não negocia regionalmente nem no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) a liberação do setor de serviços. Existem recursos disponíveis para inovação nas linhas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e na Fapesp. No entanto, esses recursos não são incorporados como motores na política econômica.

Na avaliação de Sennes, o País do etanol e que se posiciona no plano mundial contra as patentes é diferente do que produz ciência e pesquisa. "As patentes foram transformadas em bandeira como se o Brasil se posicionasse como perdedor", comenta Sennes. Esta postura teria de ser analisada porque afeta a imagem externa e difere do que ocorre com empresas como a Petrobras e a Embraer e em segmentos como o da medicina e de cosméticos, entre outros.

Os indianos terceirizaram os processos de avaliação de empresas (due diligence) por um terço do custo. O Brasil detém competência na área de recursos humanos, suporte (back office) financeiro, home banking e bolsas de valores eletrônicas. "Isso tudo é matéria de exportação de serviços", declara.

A região do ABC Paulista tem uma população com nível educacional alto e passa por um dilema pós-industrial poderia aproveitar este momento para uma mudança rápida baseada no reforço da área de serviços que assegura empregos, não pressiona o meio ambiente nem a infra-estrutura.

A engenharia brasileira também pode abrir nichos de mercado interessantes, na avaliação do diretor da Prospectiva. Para ele, existe campo para terceirização de serviços de engenharia, além de exportar carros fabricados no Brasil. "Esse diferencial precisa ser explorado". São Paulo abriga sedes de bancos regionais e operações financeiras e poderia seguir os passos da capital espanhola, Madrid, que se transformou em um hub financeiro e desbancou Miami (EUA).

"Se tiver uma boa estratégia de longo prazo há chance de transformar esses setores em vetores de desenvolvimento, emprego e inserção internacional qualificada do Brasil", assinala Sennes.