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Economia paulista é impactada pela Covid-19, não pela quarentena, diz Patricia Ellen

Publicado em 25 abril 2020

Por Eliane Trindade | Folha de S.Paulo

A secretária Patrícia Ellen começou a entrevista na quinta-feira (23), o Dia do Livro, recordando que ano passado lançou “A Revolução Digital na Saúde: Como a inteligência artificial e a internet das coisas tornam o cuidado mais humano, eficiente e sustentável”.

A titular da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo diz que a obra, em coautoria com os médicos Claudio Lottenberg e Sidney Klajner, virou bússola para o seu trabalho na pandemia do novo coronavírus. “Jamais poderia imaginar estar hoje aplicando na prática e de forma tão emergencial tudo que escrevemos.”

Durante 55 minutos, ela conversou por teleconferência, diretamente do Palácio dos Bandeirantes, com a Folha. A 2 km da casa da mãe da secretária, em uma das zonas periféricas mais vulneráveis ao coronavírus. “Ela é do grupo de risco, empreendedora e está com dificuldades financeiras. Faz 45 dias que não a vejo. Isso humaniza nosso trabalho de gestão pública.”

Como fazer a ciência dialogar com setores econômicos que pressionam pelo fim do isolamento social?Colocando dados e evidências na mesa para a discussão ficar produtiva. Nosso modelo não é de confinamento total, o “lockdown”, no qual a maior parte do mundo se encontra. Mais de 70% da atividade econômica permaneceu aberta.

A economia paulista foi impactada em decorrência da doença, como ocorre no mundo inteiro, independentemente da quarentena. Recebemos uma primeira análise de setores de altíssima vulnerabilidade que estão em quarentena, como comércio e varejo, e outros que não foram impactados pela quarentena, como a construção civil, mas pela recessão global.

A Secretária Estadual de Desenvolvimento Econômico de SP, Patricia Ellen, participa de entrevista coletiva sobre o combate ao Coronavírus - Sergio Andrade-23.abr.20 / Governo do Estado de São Paulo

Não há risco de a situação das pequenas cidades se agravar com a reabertura? No anúncio do Plano São Paulo destacamos que a prioridade é preservação de vidas. A retomada tem que ser gradual e responsável. Regionalizada e setorial. A forma de fazer é colaborativa, com alinhamento da saúde, da economia e do social. Já começaram as reuniões setoriais para pactuação de protocolos com representantes de associações de classe e setores econômicos.

A pactuação é feita em cima de quais pontos? Não vamos ter uma flexibilização aleatória. Estamos levando em consideração, de um lado, toda a preparação do sistema de saúde, e do outro, o ambiente econômico e social.

Na parte de saúde, estamos atuando com três critérios: entender o momento de disseminação da doença e a capacidade do sistema de saúde, leitos de enfermaria, UTI, insumos de proteção aos profissionais e recursos humanos, e um terceiro de monitoramento do vírus, capacidade de testagem e rastreamento do vírus e dos contatos.

No econômico, estamos dimensionando a vulnerabilidade dos setores e criando protocolos setoriais de saúde e higiene no ambiente de trabalho.

Vai se levar em conta a disseminação do vírus pelo estado? Sim. Os municípios vão ser classificados em níveis de risco: zona vermelha, amarela e verde. Só a saúde pode determinar as metas e os critérios. Qual é a ocupação média de leitos de UTI de uma região verde? Qual é a velocidade de disseminação do vírus por zona? A testagem tem que ter qual cobertura? Trabalhamos em paralelo e temos os próximos dez dias para juntar as informações nessas diversas frentes para ter um plano convergente.

Quais são as zonas de perigo e qual é o protocolo? Hoje todas as zonas são consideradas de perigo. Não tem nenhuma zona verde. A pandemia, graças ao isolamento social, está crescendo em velocidade adequada, que permite o atendimento pelo sistema de saúde. Mas ela continua crescendo, então precisamos acompanhar mais alguns dias para saber em qual momento da curva estamos, se o achatamento está estável.

A boa notícia é que nessas análises de cenários estamos dentro dos mais otimistas. O cenário de óbitos poderia estar muito pior se a gente não tivesse tido um alcance de isolamento entre 50 e 60%. Não vejo um caminho de saída dessa pandemia que não seja coletivo e solidário.

Qual é o balanço do Grupo Solidário SP? Nós chegamos a meio bilhão de reais em doações. Temos 362 integrantes do grupo empresarial, destes 118 doadores, alguns desses fizeram duas ou mais doações em dinheiro, insumos e serviços. A pandemia trouxe um olhar muito humano que nos fez chegar nesse patamar histórico de solidariedade, sem precedentes.

Para onde estão sendo carreados estes recursos? Deles, 66% foram para a saúde e itens de segurança e 34% proteção social, essa parte de cestas básicas. Estamos agora fazendo um intensivão para pedir mais apoio para a parte social. A ajuda tem que chegar para quem mais precisa agora. Não dá para esperar mais duas, três, quatro semanas. O empreendedor não se sustenta mais sem a ajuda emergencial. Aí mandar gente embora, falta comida em casa. Quando isso começa a acontecer, é um estado de convulsão social muito arriscado.

Com tem sido o contato com o Governo Federal e ministérios? Sempre busco fazer articulação técnica, baseada na nossa gestão em dados e evidências. Tenho esperança que as medidas do Governo Federal sejam implementadas com celeridade, priorizando os estados mais afetados. Para que não seja tarde demais.

Qual tem sido a prioridade na sua pasta nesta crise? O ecossistema de tecnologia paulista é um dos mais avançados do mundo. Temos aqui USP, Unesp e Unicamp fazendo diversos projetos fundamentais para o enfrentamento da crise. Na USP, temos a produção de respiradores e um trabalho de soroterapia para controle da infecção de pacientes em estado grave. Na Unesp está sendo implementado um painel de marcadores identificados, genéticos e imunológicos, que permitirá o desenvolvimento de diagnósticos específicos para COVID-19. A Unicamp está desenvolvendo projetos competitivos de pesquisa em COVID-19, coordenando ensaios clínicos, além de mapear peças e insumos necessários para a manutenção de respiradores.

De quanto foi o crescimento de recursos para pesquisa? Logo no início da crise, anunciamos através da Fapesp um fundo de R$ 20 milhões voltado a projetos para escalar produtos e serviços de startups e empresas de até 250 funcionários. Os resultados do Pipe Fase 3 serão divulgados em 8 de maio: 61 empresas submeteram projetos.

Criou-se também outra linha de R$ 10 milhões para que qualquer pesquisador/a com projeto rodando possa pedir recurso extra para estudo voltado ao coronavírus, até o teto de R$ 200 mil cada um. Além disso, viabilizamos o maior aporte feito ao Banco do Povo na história. Colocamos mais de R$100 milhões em microcrédito.

Hoje temos quatro consórcios certificados para a produção de respiradores. Três deles no estado de São Paulo e um em Santa Catarina, com associação de grandes empresas para multiplicar a capacidade produtiva e suprir a demanda local. É um modelo que vai ficar.

Que outras lições e legados ficam dessa pandemia? O coronavírus escancarou a desigualdade que se vive no Brasil e no mundo. Talvez um legado é que se passe a combate-la diariamente e também na pós-pandemia.

Tem ainda o papel do feminino na liderança e na gestão nesse momento crítico. E ressalto a importância de ter o governador [João Doria, PSDB] e o vice-governador [Rodrigo Garcia, DEM] criando esses espaços. Temos um secretariado com quatro mulheres. Precisamos de mais liderança feminina e mais humanidade no poder.?