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Revista Valor Especial

Economia e pesquisa devem ser integradas

Publicado em 31 outubro 2018

Por Ediane Tiago

A economia brasileira vai lidar nos próximos anos com duas forças convergentes: o avanço da digitalização e a evolução da ciência. A ciência depende do avanço da digitalização, assim como a digitalização depende da ciência para ampliar a produtividade, a capacidade de inovação e a geração de valor nas cadeias produtivas. Elementos essenciais para o desenvolvimento econômico sustentável.

O salto para a economia digital exigirá coordenação da Casa Civil, engajamento público e privado, além de estabilidade nos orçamentos que irrigam o sistema de ciência, tecnologia e inovação (C,T&I). Não é à toa que o físico Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), tem visitado Brasília com mais frequência.

Nos corredores da Câmara dos Deputados, ele faz campanha para ressaltar a importância estratégica do tema e tenta amealhar aliados, sensibilizando políticos sobre os riscos da drenagem de recursos para pesquisa e desenvolvimento (PD). "É preciso explicar que as respostas para problemas em áreas como educação, saúde, meio ambiente e crescimento econômico passam pelo sistema de inovação", comenta.

Segundo Moreira, há gestores públicos sensíveis ao tema: "É difícil quebrar a lógica política e colocar o conhecimento à frente de temas mais populares".

Fabio Rua, diretor de relações governamentais da IBM para a América Latina, é da mesma opinião. "A transformação digital é tão estratégica para a economia que os países desenvolvidos tratam o assunto diretamente com o presidente. Não é tema para ficar segregado a um ministério." Como exemplo, ele cita os Estados Unidos, que mantêm especialista na Casa Branca com conexão direta com Donald Trump.

"Digitalizar não é só utilizar redes sociais. É reinventar o governo, a indústria e os serviços, em benefício do cidadão", reforça. O setor de tecnologia da informação e comunicação (TIC) também anda empenhado na conscientização dos políticos e tem ajudado o governo federal a estabelecer estratégias para a economia digital. "Todos sabem o que precisa ser feito. É hora de agir", alerta Rua.

Pela via da digitalização, pesquisadores intensificam a transferência do conhecimento para o mercado e criam novos negócios. A facilidade para desenvolver aplicativos também entra na equação- permitindo escala das soluções e alta produtividade.

Na nuvem, estreiam os projetos de fronteira que farão uso de internet das coisas (IoT, na sigla em inglês), inteligência artificial, big data e registro distribuído (blockchain). Todos têm em comum a estratégia de sugar conhecimentos consolidados nas mais diversas áreas, do agronegócio ao setor financeiro.

Como retorno aos laboratórios científicos, as startups geram um gigantesco banco de dados que vai inspirar pesquisadores a testar hipóteses e favorecer descobertas. "A inteligência artificial está se tornando cada vez mais popular e promete transformar o atendimento médico", exemplifica Paul Shawah, executivo da Veeva, especializada na oferta de sistemas de computação em nuvem para a área da saúde.

Segundo o executivo, os investimentos globais em inteligência artificial crescerão dez vezes nos próximos anos, atingindo a marca de US$ 52 bilhões em 2021. "As análises realizadas pelos sistemas apoiam a tomada de decisão do médico", afirma.

Em 1962, os cientistas Francis Crick,James Watson e Maurice Wilkins receberam o Prêmio Nobel de Medicina pela descoberta da estrutura tridimensional da molécula de DNA. A pesquisa, publicada pela revista "Nature" em 1953, deflagrou nova era para as ciências da vida. Abastecida por US$ 3 bilhões em investimentos, a genômica invadiu os laboratórios das universidades no início deste século, multiplicando os estudos em áreas como identificação e cura de doenças, tratamento de síndromes, novos medicamentos e investigações forenses.

Na última década, as técnicas da genética convergiram com o avanço das ciências da computação, derrubando os custos e o tempo do sequenciamento. Hoje, é possível contratar análises por menos de US$ 100-caso dos testes de sexagem fetal. "Na oitava semana de gestação, já é possível identificar o sexo com amostra do sangue materno", explica Daniel Dentillo, doutor em genética e sócio da startup DGLab, incubada no Supera Parque Tecnológico de Ribeirão Preto.

Ampliar o acesso às informações genéticas foi o que motivou Dentillo e seu amigo, também geneticista, Dante Gávio a ingressarem no empreendedorismo. Com fomento público da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), eles estudam formas de identificar e quantificar o vírus das hepatites B e C em portadores das doenças.

"A partir da análise do DNA, os médicos podem definir o melhor tratamento para o paciente", diz. A linha de trabalho conquistou parceiros importantes para a empresa, como o Instituto Adolfo Lutz, a Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, a Universidade de São Paulo e a empresa canadense Custom Biologics. A DGLab se aproveita do que os especialistas chamam de ecossistema de inovação-que engloba desde a academia até os fundos de capital de risco.

Como não dá para viver apenas de verba pública, Dentillo e Gávio ingressaram no segmento de análises. Começaram a gerar receitas com sexagem fetal e a aplicar, no Brasil, uma técnica inglesa que investiga o DNA para colher informações e marcadores que indicam dados como tolerância à lactose, resistência física, exercícios e dieta mais adequados.

"O teste ajuda a definir um plano de bem-estar mais efetivo", explica Dentillo. O relatório personalizado virou febre entre atletas (amadores e profissionais) e custa perto de US$ 500. "Ainda é caro, mas trabalhamos em técnicas nacionais para reduzir o valor."

Por trás das informações reveladas pelo DNA, está o poder computacional. As máquinas laboratoriais que automatizaram o sequenciamento abastecem bancos de dados genéticos. As informações são processadas por algoritmos e sistemas complexos de análises. "Está tudo na nuvem", simplifica Dentillo.

A computação em nuvem é o modelo de contratação de recursos computacionais sob demanda. Permite o uso compartilhado de processadores de alto desempenho, discos de armazenamento, sistemas, entre outras engenhocas. Quebrou uma importante barreira de entrada no mercado (o investimento em infraestrutura tecnológica) e fez pipocar startups em todo o mundo. Só no Brasil, estima a Associação Brasileira de Startups, há entre 10 mil e 15 mil empresas com esse perfil.

O desafio brasileiro, no entanto, é de outra ordem. De acordo com a emenda constitucional85, o Estado deve promover e incentivar o desenvolvimento científico, a pesquisa e a inovação. Mas, na prática, os ajustes fiscais sequestram os fundos setoriais de PD para engrossar o superávit primário.

A pasta da Ciência e Tecnologia tem amargado reduções constantes no orçamento. O preço do sacrifício está em limitar a inovação como estratégia anticíclica. "O que mais me angustia é que temos capacidade para ir além", desabafa Moreira, da SBPC.

Reservar dinheiro público para ciência não é nenhum absurdo, completa Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do conselho técnico-administrativo da Fapesp. "Em tempos de crise, a pesquisa básica é a mais prejudicada, e os governos ampliam o suporte financeiro às instituições. Por aqui nós cortamos", lembra.

Colocar o Brasil nos trilhos e surfar a onda da inovação não é uma estratégia trivial. Moreira, da SBPC, explica que o Brasil tem, há algum tempo, a meta de aplicar recursos equivalentes a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em PD. Este é o percentual mínimo em países que competem no comércio internacional e na produção de tecnologia.

Combinando recursos públicos e privados, a Alemanha a porta 2,94% do PIB, os Estados Unidos 2, 74% e a Coreia do Sul4,24%, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). "O Brasil patina no patamar de 1,2%, enquanto assiste ao avanço da China", afirma Moreira. Os chineses, mostra a OCDE, mudaram a rota econômica, trabalhando exatamente nos aportes em PD. Saltaram de uma fatia de 0,89% (2000) para 2,12% do PIB (2016).

O papel passivo de um país com potencial, mas sem força para avançar na economia moderna, é ocupado pelo Brasil há tempos. Guilherme Marco de Lima, fundador do Amoveri Group, se diz cansado de bater na mesma tecla. "Se a pauta não estiver integrada à agenda econômica, não dá nem para começar a discussão", diz.

Segundo ele, o assunto é batido, mas não entra na cabeça dos governantes e de boa parte do empresariado. Entre os problemas está o fato de que, em muitos setores, as empresas brasileiras já nascem com tecnologia obsoleta. A estratégia de comprar "maquinário velho, mas melhor que o atual", até incrementa a produtividade, mas não amplia a competitividade internacional do país. É como enxugar gelo.

"Inovação exige disciplina. Temos de apostar em nossas vocações e ocupar papel de protagonista em algumas áreas", afirma, citando cadeias produtivas como agronegócio, energia renovável e saúde. De volta de uma imersão a Israel- posicionado em 11° lugar no ranking índice global de inovação (IGI) -,o executivo lamenta as travas para o avanço brasileiro. Observou o "milagre" do empreendedorismo israelense, economia listada como a 55ª do mundo, mas que a porta 4,25% de seu PIB em PD. "É um território pequeno e se transformou em um dos principais polos globais de inovação, atraindo investimentos e negócios."

Gianna Sagazio, diretora de inovação da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), considera que a posição ocupada pelo Brasil no IGI (64ª) simplesmente não é compatível com o tamanho da economia, a nona global. Neste ano, ganhamos cinco posições, deixando 69a, registrada em 2016 e 2017.

Entre as áreas em que o país se destacou estão gastos com PD, importações e exportações líquidas de alta tecnologia, qualidade das publicações científicas e das universidades, especialmente a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A lista é elaborada anualmente pela Universidade de Cornell, pelo lnsead e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi). O estudo compara 126 países. Entre as melhores marcas do Brasil está o 47° lugar conquistado em 2013. Neste ano, a China avançou para o grupo das 20 nações mais inovadoras, conquistando o 17° lugar no ranking, liderado pela Suíça. "É o único país de renda média nesse conjunto", analisa Gianna.

Para entender a surra que o Brasil anda levando, a CNI encorpou a lista de parceiros e patrocinadores do IGI. Avançar na inovação, diz a especialista, é crucial para manter viva a indústria de transformação brasileira, que respondeu por tímidos 12% do PIB em 2017, percentual equivalente ao da década de 1950. "Estamos retrocedendo, e a indústria 4.0 é a nossa chance de reação", alerta Gianna.

Eduardo Plastino, gerente de pesquisa na Accenture, acredita que a necessidade de digitalizar e inovar vai fazer as empresas segurarem, ao máximo, os investimentos em (P&D). "Não dá para perder de vista as oportunidades de negócios criadas por novos produtos e serviços", afirma, lembrando que, historicamente, companhias mais criativas saem na frente em períodos de recuperação econômica. "As demandas sociais não param."

Para Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, a inovação é um caminho sem volta. A empresa iniciou sua jornada na transformação digital e aplica recursos em soluções capazes de ampliar a eficiência e reduzir custos. "Buscamos melhor rentabilidade", diz.

Entre os projetos, Werneck cita a instalação de 40 mil sensores nas máquinas das unidades da empresa. A solução monitora os equipamentos- com base em algoritmos e inteligência artificial- para prever e antecipar possíveis falhas. "A estimativa é de que a nova tecnologia possa aumentar em até 20% o ciclo de vida útil dos equipamentos. O projeto será estendido às unidades da Gerdau na Argentina e na América do Norte", afirma o CEO da Gerdau.