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Economia cafeeira formou setor elétrico paulista, aponta estudo

Publicado em 08 março 2017

Controlado atualmente por grandes empresas, o setor elétrico de São Paulo surgiu no século XIX graças a dezenas de pequenas companhias fundadas, em boa parte das vezes, por empresários ligados ao cultivo do café, é o que aponta o estudo Eletromemória II, publicado em fevereiro pela Revista Pesquisa Fapesp, e realizado por um grupo de pesquisadores, coordenados por Gildo Magalhães dos Santos Filho, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

Desde 2007 o grupo de Magalhães mapeia os acervos de documentos sobre a história da energia elétrica no Estado. O projeto temático terá, ainda, um banco de dados sobre o tema, que ficará disponível para consulta pública.

A arquiteta Débora de Almeida Nogueira, pesquisadora-colaboradora do Laboratório de Empreendimentos da Universidade Estadual de Campinas (LaborE-Unicamp) e do Eletromemória II, conta que a primeira cidade a inaugurar um sistema de iluminação pública alimentado por uma termelétrica foi Rio Claro, em 1885. Três anos depois, no dia 5 de dezembro de 1888, os paulistanos acompanharam o acendimento das lâmpadas na rua Boa Vista, no centro da capital, graças a uma termelétrica a carvão instalada na rua Araújo pela empresa concessionária Água e Luz, que cobria o triângulo formado pelas ruas São Bento, Direita e Quinze de Novembro, a principal região comercial da cidade.

Hidrelétricas

Como explica a arquiteta, as usinas térmicas tinham um custo inicial inferior ao das hidrelétricas, pois demandavam a construção de barragens. Mas, em longo prazo, sua operação se tornava menos vantajosa devido ao preço do carvão importado.

A primeira hidrelétrica a entrar em operação no Estado foi a usina de Monjolinho, em São Carlos, em 1893, seguida nesse mesmo ano pela Luiz de Queiroz, em Piracicaba. Até 1900, mais nove hidrelétricas foram construídas – todas na região entre Piracicaba e Ribeirão Preto. Para a pesquisadora, essa concentração indica que os lucros do café financiaram os investimentos em energia. “Das famílias dos cafeicultores provinham os empresários das novas indústrias, os acionistas das ferrovias e os concessionários na exploração dos serviços públicos”, diz.

Gildo Magalhães dos Santos Filho explica ainda que o mesmo processo ocorreu nos Estados Unidos. “Lá existiam centenas de pequenas companhias locais, que depois se uniam em grupos que atendiam mais cidades. As pequenas empresas otimizavam a geração para mais clientes e as duas, três cidades viravam cinco, depois 10, e as associações se transformavam em companhias regionais. Foi exatamente o que aconteceu aqui”, diz o coordenador do Eletromemória II.

Isso explicaria, conforme aponta o estudo, o motivo de a luz elétrica aparecer inicialmente nas cidades do Oeste Paulista, onde estavam as fazendas de café mais rentáveis. Foi só a partir de 1900 que a eletricidade começou a chegar às zonas cafeeiras mais antigas, no Vale do Paraíba, disseminando-se pelas demais regiões do Estado após 1910 (168 dos 204 municípios paulistas contavam com o serviço em 1920). A primeira hidrelétrica para atender a capital paulista surgiu em 1903, em Santana do Paranaíba, e era de grande porte, comparada com as centrais do interior do estado.

“Verificamos também que, para além do conhecido uso da eletricidade para iluminação e tração elétrica (bondes e trens), houve desde o início da eletrificação uma associação direta com a industrialização no interior do estado de São Paulo, notadamente nos setores de tecidos, papel e alimentos”, completa Magalhães.

*Com informações da Revista Pesquisa Fapesp