Notícia

Jornal da Unesp

ECOLOGIA - O "herbicida" que vem da natureza

Publicado em 01 maio 1999

Durante um ano, o engenheiro agrônomo Robison Antônio Pitelli empreendeu incursões, num pequeno barco, pelas bacias dos rios Paraná, Aporé, na divisa do Mato Grosso com Goiás, e Paranaíba, em Minas Gerais, além de vários riachos do Pantanal, à procura de plantas das espécies Engeria densa e Engeria najas. Detalhe: Pitelli só voltava sua atenção às plantas doentes. Afinal, o engenheiro agrônomo procurava por um agente biológico que controlasse a superpopulação dessas duas plantas no reservatório da Usina Hidrelétrica Engenheiro Souza Dias, da Companhia Energética de São Paulo (CESP). Encontrou o que buscava, sob a forma de um fungo do gênero Fusarium, que poderá ser a solução para o problema. Solução que vem em boa hora. Turbinas paradas de forma imprevista, redução na geração de energia elétrica e risco de colapso no sistema de abastecimento são alguns dos problemas causados à usina - também conhecida como Reservatório Jupiá - pela superpopulação dessas duas plantas aquáticas. Para chegar ao atual estágio da investigação, Pitelli, pesquisador do Departamento de Biologia Aplicada à Agropecuária da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da UNESP, câmpus de Jaboticabal, começou com um levantamento das plantas aquáticas submersas que vivem no Reservatório Jupiá. "Ao longo do trabalho, constatamos que a hipótese iniciai, de que o problema era causado pelas espécies E. densa e E. najas, estava certa", explica. "Depois, eu e minha equipe saímos à procura de outras plantas, peixes ou fungos que fossem inimigos naturais dessas duas plantas." O resultado dessa prospecção não poderia ser melhor: os pesquisadores encontraram e isolaram cerca de 300 fungos de cerca de 60 espécies diferentes. Depois de analisá-los quanto à patogenicidade (capacidade de causar doença), reduziram a amostragem a quatro espécies. "Elegemos o gênero Fusarium como o mais apto para combater as superpopulações das plantas indesejadas", diz. IMPACTO AMBIENTAL Pitelli e equipe constataram que o Fusarium libera uma toxina que pode matar a planta em 10 dias, funcionando como uma espécie de "herbicida natural". Comprovada sua eficácia em laboratório, o próximo passo será testá-lo em pequenas lagoas e, depois, em larga escala. Para isso, eles estão aguardando apenas a liberação de um Registro Especial Temporário (RFT), pelo Ibama. "A idéia é fazer uma análise de impacto ambiental", explica Pitelli. "'Queremos verificar se esse fungo coloca em risco outras plantas e peixes e se é tóxico para seres humanos. Testes preliminares indicam que não." É uma sábia decisão. A introdução de um elemento estranho em um dado ambiente pode causar enormes estragos. A própria proliferação da E. densa e da E. najas é um exemplo disso. De acordo com Pitelli, essas plantas são nativas do Brasil, usadas inclusive em aquários, e jamais causariam danos se estivessem em equilíbrio com o ambiente. Não é o que acontece em Jupiá. A introdução, sem a devida avaliação do impacto ambiental, de peixes carnívoros, como o tucunaré e a pescada branca, no reservatório é a causa mais provável do desequilíbrio. Essas espécies reduziram a população dos peixes herbívoros, que se alimentavam das duas plantas e evitavam que se reproduzissem desordenadamente. Sem predadores, as plantas tomaram conta do reservatório.