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Carta na Escola online

É tudo mentira

Publicado em 06 março 2014

Por Thais Paiva

Para a crítica, Abdul-Rafi Fayad é um dos artistas mais contestadores de seu tempo. A obra do iraquiano, que durante a Guerra do Golfo viu morrer em seus braços dois de seus irmãos, é marcada pela polêmica e pelo choque. Em performance na Bienal de Veneza, Fayad, amarrado pelos punhos e rosnando feito um animal feroz, tentava morder quem se aproximava. Relatos de visitantes feridos na exibição viraram rotina.

Sua irreverência e produção artística garantiram-lhe um lugar na enciclopédia Art Book – 50 Contemporary Artists, ao lado de nomes como o austríaco Arthur Orthof, a canadense Elizabeth Depner e o brasileiro José dos Reis. Só que Fayad e os demais dessa fina nata nunca existiram.

O Art Book é uma obra ficcional desenvolvida pelo artista Bruno Moreschi como dissertação de mestrado em Artes Visuais, na Unicamp. “A partir de livros especializados, identifiquei alguns padrões, como o artista latino-americano que pinta quadros coloridos, e tentei reproduzi-los”, diz.

Baseado em “clichês” como os do brasileiro pobre ou do deficiente que supera suas dificuldades com a arte, Moreschi traçou 50 perfis artísticos diferentes e, durante 11 meses, realizou as 311 obras apresentadas na enciclopédia, entre fotografias, pinturas, esculturas, instalações, desenhos e performances com atores que dirigiu. O projeto, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) e pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), traz também biografias e declarações dos artistas catalogados.

Segundo Moreschi, a proposta é questionar e investigar o processo de legitimação da arte. “O livro é uma experiência artística e teórica que convida o leitor a refletir sobre o que é esse sistema de arte, de autoria. Por que, em uma exposição, dependendo do nome do autor escrito na etiqueta, olhamos a obra de determinada maneira? Por que há trabalhos que valem 100 milhões de dólares e outros que são vendidos na Avenida Paulista? O que faz um artista integrar ou não uma enciclopédia de arte?”, indaga.

Para ele, muitas pessoas utilizarão seu trabalho como justificativa para desmerecer a arte contemporânea e conceitual, mas esse não é o seu objetivo. “Alguns dirão que, se uma pessoa só conseguiu fazer tudo aquilo em um ano, então arte contemporânea é mesmo uma porcaria que qualquer um pode fazer. É normal, a interpretação do trabalho também varia de acordo com as intenções e valores”, diz. O artista também destaca sua própria contradição no estudo: “Ao mesmo tempo que pode ser interpretado como uma crítica ao sistema de arte, o projeto não deixa de ser um produto de arte contemporânea”.

Outro objetivo de Moreschi é debater a literatura especializada na área. Para isso, cerca de 30 exemplares serão doados para museus e bibliotecas especializadas do Brasil e do mundo. “Essa obra almeja profanar esses locais, que têm uma espécie de áurea, e fazer as pessoas refletirem sobre o valor dos objetos que fazem parte dele”, explica o artista e pesquisador.