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Protec - Pró-Inovação Tecnológica

É preciso haver demanda do mercado para a empresa inovar

Publicado em 15 abril 2010

A Conferência Paulista de Ciência, Tecnologia e Inovação, que reuniu 400 pesquisadores no auditório da Fapesp, em São Paulo, entre os dias 12 e 13 de abril, alinhavou um elenco de metas e propostas com potencial para aprimorar os sistemas científicos e tecnológicos do estado e do Brasil num horizonte de 15 a 20 anos. O evento foi uma reunião preparatória para a 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, que será realizada em Brasília entre 26 e 28 de maio. Veja, abaixo, os trechos da reportagem da Revista Fapesp Online que dizem respeito à inovação no setor produtivo.

Demanda do mercado

O debate sobre as razões que levam as empresas a inovar foi um dos destaques da mesa redonda Pesquisa e Desenvolvimento no Setor Privado. Pedro Wongtschowski, diretor-presidente do Grupo Ultra, contestou a ideia, corrente no mundo acadêmico, de que as empresas brasileiras são acomodadas e resistem a utilizar o conhecimento gerado pelos pesquisadores. Segundo Wongtschowski, a equação é outra. Uma empresa inova não porque deseja, mas quando o aprimoramento de seus produtos ou serviços é exigido para manter-se competitiva no mercado. Wongtschowski também criticou a voracidade das universidades na hora de negociar contratos de propriedade intelectual. Disse que os pesquisadores, com frequência, sobrevalorizam a contribuição que estão dando ao produto ou processo desenvolvidos - em geral apenas num elo de uma extensa cadeia de inovações desenvolvidas pela empresa - e exigem royalties exagerados. Sugeriu que a definição da remuneração seja feita após o produto chegar ao mercado, a fim de alcançar um valor atrelado ao ganho gerado.

A estrutura dos sistemas de incentivo também foi alvo de crítica de Wongtschowski. A Lei do Bem, por exemplo, atraiu cerca 300 empresas em 2007 e 450 em 2008. Isso é muito pouco, disse, referindo-se à Lei no 11.196 de 2005, que estabelece incentivos à inovação tecnológica. Segundo o coordenador da mesa, Sérgio Robles Reis de Queiroz, professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (IG-Unicamp), o debate mostrou que há limites para as ações indutoras de inovação. Não é a oferta dessas ações que vai mobilizar as empresas. É preciso haver demanda, disse, lembrando que o ambiente econômico brasileiro, com taxas de juros elevadas e câmbio sobrevalorizado, atrapalha a competitividade das empresas e sua disposição para inovar.

Papéis diferenciados da universidade e da empresa

O economista João Furtado, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador de inovação tecnológica da Fapesp, chamou atenção para o fato de que os atores envolvidos no processo de desenvolvimento tecnológico e de inovação confundem frequentemente seus papéis no Brasil. Segundo ele, a universidade ora cumpre papel que pertence não a ela, mas às empresas, ora se exime de fazer o que se espera dela. Para estabelecer um desenho preciso, é fundamental que cada ator compreenda seu papel e que, eventualmente, se estabeleçam regras para que os envolvidos saibam o que devem e o que não devem fazer.

Limitações macroeconômicas à inovação

Carlos Américo Pacheco, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), retomou um tema tratado pela mesa sobre Pesquisa e Desenvolvimento no Setor Privado e abordou as limitações que as políticas públicas enfrentam para estimular a inovação, em meio a um ambiente desfavorável, com carga tributária elevada e juro real muito alto. Temos uma política agrícola exitosa porque ela estabelece compensações. O juro é tabelado. Ninguém paga a taxa Selic, afirmou. Segundo ele, os instrumentos de agências de fomento para estimular a inovação são fracos para se contrapor à influência do ambiente macroeconômico na vida das empresas. Citou, por exemplo, o fato de apenas 1.500 empresas terem sido apoiadas com recursos dos fundos setoriais nos últimos dez anos. É muito pouco. Mas sou otimista em relação ao futuro. O Brasil, com o tamanho de sua população e a riqueza de seus recursos naturais, não há como não ser relevante no futuro, afirmou Pacheco.

(Revista Pesquisa Fapesp Online - 15/04/2010)