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Jornal do Brás online

É preciso falar das perdas e do luto?

Publicado em 10 novembro 2015

Por Marisa Moura Verdade

Um fenômeno psicossocial denominado negação coletiva da morte permeia a mentalidade contemporânea, silenciando pessoas que enfrentam a própria finitude ou o falecimento de entes queridos. Na nossa sociedade moderna, modos dominantes de pensar vida e morte são sustentados por referenciais da Medicina e paradigmas biológicos, ambos focados na materialidade da vida e no seu funcionamento orgânico. Tais modelos de pensamento não dão conta da amplitude e da profundidade das degradações mentais implicadas no simbólico da morte, das perdas e do luto. No campo da Psicologia avaliamos prováveis desdobramentos dessa imaginação organicista, considerando entre os mais relevantes o silêncio e a solidão de seres humanos que enfrentam mortes e perdas destituídas de sentido.

Muita gente acha difícil falar da angústia e do desespero diante das perdas mais expressivas, como a partida de um ente querido. O luto é a nossa resposta psicológica às perdas importantes. Corresponde ao sofrimento emocional que ocorre quando algo ou alguém que amamos nos é tirado. Quanto mais significativa essa perda, mais intensa é a dor. Divórcio, separação amorosa, aborto, morte de um animal de estimação, declínio da saúde, desemprego, prejuízos financeiros, ruptura de uma amizade, afinal toda perda pode evocar o simbólico da morte, agenciando pesar, tristeza, saudades. Cada experiência de luto é individual e única. A intensidade da dor depende da experiência de vida, das características da personalidade, do estilo de enfrentamento, das crenças e da fé religiosa, bem como da natureza da perda. Não há um tempo determinado para o luto. Alguns se recuperam rapidamente, outros levam anos lamentando a ausência e a falta.  O processo tende a ser cíclico. A negação inicial: – “Isso não pode estar acontecendo”, usualmente é seguida de raiva, culpa e depressão. O trajeto passa por altos e baixos, tempos de consolação e de revolta. Frequentemente, o restabelecimento da vida afetiva é descrito como aceitação definitiva da perda e conforto espiritual de uma afeição capaz de superar a ausência física.

Suportar o luto é complicado. As principais orientações referem ao apoio de outras pessoas, o que implica falar dos sentimentos nos encontros habituais, expressar ideias, fantasias e estados emocionais. Geralmente, conversar sobre problemas subjetivos ajuda a criar novas perspectivas. Pessoas mais fechadas, que evitam expor sua intimidade, precisam conhecer os benefícios da solidariedade e das trocas emocionais. Cuidar da psique mortificada exige paciência e abandono da couraça de forte e autossuficiente. Compartilhar a perda e o luto, no mínimo, libera tensões reprimidas e torna mais leve a carga dos afetos. A conexão com os outros ajuda na recuperação psicológica, por isso a participação em grupos de apoio a enlutados é um recurso valioso. Na nossa cultura, influenciada pela negação coletiva da morte, situações de luto geram certo constrangimento. Os clichês repetidos nos funerais parecem vazios, não sabemos se uma visita ao enlutado é desejada, a linguagem da consolação e do acolhimento às vezes soa restrita ou inadequada.  Nesse contexto de constrangimentos, melhor praticar uma escuta receptiva para a fala da morte, da desesperança e do luto. E materializar a solidariedade no olhar comovido e no abraço acolhedor – sem palavras, se elas faltarem.

*Marisa Moura Verdade é Mestra em Educação Ambiental, Doutora em Psicologia, especializada em Psico-Oncologia. Autora do livro Ecologia Mental da Morte. A troca simbólica da alma com a morte. (Editora Casa do Psicólogo & FAPESP).

E-mail: mmverdade@gmail.com