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TV TEM (São José do Rio Preto, SP)

É possível evitar ter filhos com síndrome de Down

Publicado em 24 março 2007

Por José Carlos Moreira/Agência BOM DIA

Pesquisa da Famerp descobre gene modificado causador da anomalia e mostra que há como detectar os riscos e prevenir

Mais de 140 anos depois que o mundo descobriu a síndrome de Down, cientistas de Rio Preto estão próximas de encontrar um meio para evitar que crianças nasçam com a doença. Três médicas da Famerp (Faculdade de Medicina de Rio Preto), em pesquisa inédita no país, identificaram o fator que provoca a falha genética do feto na gestação.
É um gene modificado, chamado tecnicamente de "polimórfico", presente em homens e mulheres. A descoberta explica finalmente porque mulheres jovens podem ter filhos Down. Antes, a única explicação para a falha genética era a idade avançada da gestante.
Se os resultados da pesquisa de Eny Maria Goloni Bertollo, Erika Pavarino Bertelli e Joice Biselli forem comprovados, pessoas com predisposição genética a ter filhos com a síndrome de Down poderão fazer um tratamento e prevenir-se da possibilidade.
"Nosso objetivo é mostrar que a idade materna não é a única causadora da síndrome e assim chegar à prevenção da gravidez de um bebê Down", explica Eny, diretora-adjunta de pesquisa da faculdade de medicina.
Segundo ela, estudos mostram que todas as pessoas têm genes envolvidos na metabolização de vitamina. "Se estes genes forem modificados, haverá uma alteração no aproveitamento do ácido fólico. A deficiência que pode causar ou não a não separação do cromossomo 21", afirma.
Evitar ter filhos com síndrome de Down, segundo a tese da pesquisadora, seria simples. Seria necessário apenas complementar a alimentação diária com ácido fólico antes da gestação. Alimentos como verduras verdes, carne e feijão são ricos em vitamina.
A previsão de conclusão da pesquisa, financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), é para 2008. "A amostragem preliminar de mães aponta uma predisposição genética para a não-separação dos cromossomos", explica Eny. Tudo indica que, em breve, mudar a alimentação será o segredo para não ter filhos Down.

'Nós somos inseparáveis'
Cecília abraça a Down Camila em sua casa: ela fez pedagogia para lidar melhor com a deficiência de sua filha
Duas filhas, 29 anos e uma surpresa. Bom, no início mais um susto do que uma surpresa. A pedagoga Cecília Tebar, 55 anos, sentiu o clima pesado ainda no hospital, antes mesmo de ver o rostinho com traços Down da filha Camila Lóis, hoje com 24 anos.
"Quando a vi pela primeira vez sabia que a fisionomia dela me lembrava alguém, mas só depois fui lembrar que era a de uma pessoa excepcional que eu havia conhecido", lembra Cecília. Ela diz ter ficado muito abalada quando soube que a filha tinha a síndrome.
"Vi que tudo dependia de mim. Fui da morte de um filho perfeito à luta pelo filho que estava em minhas mãos. Quanto mais rápido você sair do luto para a luta, mais rápido é o progresso", diz.
Foi com a vinda da filha Camila que Cecília decidiu fazer faculdade de pedagogia e se capacitar para lidar com o novo membro da família. "Descobri que as pessoas têm muito medo de lidar com a diferença, mas também aprendi a lição de que enfrentar a diferença é uma qualidade. O caminho é o mesmo, só muda a maneira de caminhar."
Sem explicação conhecida para a síndrome de Down de Camila na época do nascimento, já que não teve uma gravidez com idade avançada, Cecília diz até esquecer que tem uma filha com a anomalia. É provável que Cecília ou o marido tenham um gene polimórfico com deficiência de vitaminas, a recente descoberta das médicas da Famerp.
Se as pesquisas se mostrarem corretas na teoria, pessoas como Cecilia poderiam ser examinadas em consultório e, se for o caso, adotar nova dieta para prevenir a anomalia. Talvez hoje não fosse a escolha da família.
"A trissomia do cromossomo 21 jamais indicou que a pessoa síndrome de Down não poderia chegar dentro da normalidade. E a Camila é completamente independente e capaz", afirma. "Além disso, há um amor incondicional entre nós duas. Somos uma pessoa só. Inseparáveis", disse.