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Monitor Mercantil

E necessário impedir retrocesso no sistema universitário fluminense

Publicado em 09 novembro 2021

Por Wanderley de Souza

A experiência mundial deixa claro que para haver desenvolvimento econômico e social sustentável é fundamental a existência de um amplo e sólido processo de formação de recursos humanos especializados, aliando ensino técnico de nível médio, tecnológico e acadêmico de nível superior, incluindo programas de pós-graduação e estágio pós-doutoral. Em todos esses estágios de formação é fundamental contar com professores/ pesquisadores de alto nível e com infraestrutura física e laboratorial adequadas.

Esses são elementos fundamentais para que haja desenvolvimento científico e tecnológico, bases indispensáveis para a atração de empresas de base tecnológica e o surgimento da inovação tecnológica, gerando trabalho e riqueza. No Brasil, a sociedade paulista tomou consciência da necessidade deste arranjo e assim criou a nossa maior universidade, a USP, ainda em 1934.

Tal fato teve consequências positivas para São Paulo, deslocando o eixo principal de Ciência e Tecnologia, antes localizado no Rio de Janeiro, apesar da significativa infraestrutura acadêmica localizada na então capital do país. A criação da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), em 1960, organizou uma política de apoio ao componente científico e tecnológico da USP e de outras instituições de São Paulo. Logo em seguida surge, em 1966, a Unicamp e a estruturação da Unesp, em 1976, criando assim uma rede universitária que permeia todo o Estado de São Paulo. Essa sólida rede é a base para a crescente atração de indústrias de base tecnológica em quase todas as áreas do conhecimento. Outros estados têm sabiamente seguido essa política e vêm ampliando o componente acadêmico e científico mantido com recursos do próprio estado.

Destaco aqui os estados do Paraná e da Bahia, que vêm expandindo seu sistema de ensino superior baseado na criação de várias universidades ao invés de cegamente apostar na política de centralização. O Paraná conta hoje com sete universidades, todas criadas a partir de 1969. Já a Bahia conta com quatro universidades. Ao longo dos anos 1980, parte da comunidade científica do Rio de Janeiro sentiu a necessidade de expandir a participação do estado no ensino técnico, tecnológico e superior e na pesquisa científica. À época, a regional da SBPC se preocupou com o tema. Houve mobilização nesse sentido, que contou com o apoio de José Pelúcio Ferreira, excelente gestor que teve participação fundamental na criação da Finep e que assumiu a Secretaria de Ciência e Tecnologia do estado, sendo governador Moreira Franco. Surge assim o fortalecimento da incipiente Faperj e, em 1989, a iniciativa de se criar o Instituto Politécnico de Nova Friburgo, que poderia ser a base de uma nova universidade tecnológica na região serrana do estado.

No entanto, essa iniciativa foi abortada, contra a posição do setor acadêmico fluminense, pelo governador Leonel Brizola, que optou por incorporá-lo à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Apesar da boa qualidade, o instituto não recebeu a prioridade necessária para o seu crescimento. Em 1991, surge a iniciativa de criação de uma nova universidade estadual, a ser localizada em Campos dos Goytacazes. Houve forte movimentação no sentido de que fosse mais um campus da Uerj. Darcy Ribeiro se posicionou veementemente contra e organizou uma equipe liderada por ele e por Gilka Weinstein, no sentido de atrair um grupo de líderes científicos para trabalhar na proposta de uma nova universidade. Graças à posição-chave de Darcy como chanceler da Uerj e à compreensão do seu excelente reitor, Hézio Cordeiro, a Uerj não só apoiou a iniciativa como integrou a comissão acadêmica de implantação da nova universidade.

A Uenf, hoje conhecida como Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, iniciou suas atividades em agosto de 1993. Logo em seguida, Marcelo Alencar assumiu o governo do estado e novamente surgiram movimentos no sentido de incorporar a Uenf à Uerj. Felizmente, graças à reação da comunidade uenfiana, com o apoio de setores importantes das comunidades científica e política, a Uenf seguiu o seu caminho e hoje conta com milhares de alunos nos seus 18 cursos de graduação e 13 programas de pós-graduação, ocupando posição de destaque no sistema universitário brasileiro. Em 2002, o Governo do Estado do Rio de Janeiro sentiu a necessidade de ampliar o número de universidades do estado seguindo os exemplos já mencionados acima. Surge assim, em 2005, o Centro Universitário Tecnológico da Zona Oeste – Uezo, com uma proposta inovadora de se concentrar em cursos tecnológicos.

O entusiasmo da comunidade da região da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro foi muito grande. Investiu-se na instalação de laboratórios com o apoio da Faperj. Inexplicavelmente, a partir de um determinado momento, a Uezo passou a não ser priorizada. Gradualmente foram modificando a estrutura de ensino, direcionando-a para uma formação convencional, não se estabeleceu o necessário plano de cargos e salários para docentes e técnico-administrativos, não se implantou o regime de dedicação exclusiva, com remuneração equivalente à das outras duas universidade estaduais e não se providenciou a necessária expansão física. Com salários defasados, ausência de concursos públicos e perda crescente de professores, houve um desânimo geral que chegou ao ponto de a própria Uezo propor sua extinção, caso único de suicídio no sistema universitário brasileiro. O custo para resolver todos os problemas é relativamente pequeno, certamente menor do que vai ocorrer com sua incorporação à Uerj.

Surpreendentemente, as autoridades da Uerj, em vez de se aliarem à defesa da Uezo, como fizeram em momentos de crise da Uenf, avidamente incentivaram o processo de incorporação, em um movimento onde nitidamente prevalecem interesses políticos. Dessa forma, o Rio de Janeiro, que deveria ampliar o número de universidades, opta por reduzir de três para duas. Esse processo é um grande retrocesso, pois deixa de existir no estado o embrião do que poderia vir a ser uma pujante estrutura de formação de tecnólogos direcionados para o desenvolvimento do setor produtivo. Dessa forma, o Rio de Janeiro dá um significativo passo para trás comprometendo o seu futuro. Que a Assembleia Legislativa se posicione contra esta agressão ao sistema universitário estadual não se associando ao processo de extermínio de uma instituição universitária.

Wanderley de Souza é professor titular da UFRJ, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina, ex-reitor da Uenf e da Uezo.

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