Notícia

Jornal da Tarde

E mais 10 peixes em São Paulo

Publicado em 28 janeiro 2001

Não é só no Pantanal Matogrossense que os pequenos peixes de cabeceiras são desconhecidos. Também no Estado mais ocupado e desenvolvido da Federação algumas espécies novas se escondem da Ciência. Foi o que descobriram os pesquisadores do Laboratório de Ictiologia, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, que encontraram e descreveram 10 espécies novas de peixes em menos de dois anos de coleta, em 30 trechos de riachos com cerca de um metro de profundidade, nas nascentes de afluentes do alto rio Paraná, no interior de São Paulo. A coleta é parte do projeto Biota, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e ainda prosseguirá em outros 36 riachos e nascentes até o final do ano 2001. A expectativa é de que surjam mais espécies novas, material para muitos anos de estudos sobre cada um desses peixes, sua alimentação, ambiente e comportamento. RIQUEZA DESCONHECIDA Segundo o coordenador da pesquisa, Ricardo Macedo Corrêa e Castro, os riachos e nascentes abrigam a maior biodiversidade em espécies de peixes da América do Sul, mas esta riqueza é quase desconhecida do grande público. Mesmo os pescadores, que conseguem distinguir algumas espécies, não têm nomes comuns para todos, sobretudo porque se tratam de peixinhos menores do que 15 centímetros, de pouco interesse culinário ou ornamental. O desconhecimento dos homens não é indiferente para a sobrevivência destas espécies. Ao contrário dos peixes grandes, que vivem nos rios maiores, estes peixinhos são extremamente vulneráveis às alterações ambientais decorrentes de atividades humanas, que muitas vezes determinam sua extinção local. Um curimbatá, por exemplo, é um peixe migrador. Nada quilômetros no corpo principal de grandes rios, sem grandes exigências. É uma espécie que evoluiu enfrentando diversos tipos de água, com temperatura, turbidez, luminosidade e tipos de fundo variáveis. Ainda não alcançou um estágio evolutivo que lhe permita - escapar à sobrepesca, mas resiste razoavelmente bem aos impactos indiretos do homem sobre seu ambiente. PEIXINHOS FRÁGEIS Já os peixinhos de riacho das muitas espécies chamadas de lambari ou daqueles apelidados de limpa-fundo e cascudinhos-não circulam muito, estão adaptados à vida em águas cristalinas, com fundos de pedra, a determinados níveis de nutrientes dissolvidos na , água. São muito mais frágeis e sensíveis às mudanças provocadas pelo desmatamento nas margens dos riachos. A retirada da vegetação, de imediato, altera a luminosidade, provoca variações mais bruscas da temperatura da água (quente de dia, fria de noite) e flutuações mais amplas do nível da água (vazantes e enchentes). Como conseqüência dos desmatamentos, também surgem os processos erosivos, trazendo sedimentos, aumentando a turbidez da água, soterrando os fundos de pedra, modificando drasticamente o ambiente original dos peixinhos. POLUENTES Isso, sem contar a adição de poluentes orgânicos, poluentes químicos, interrupção do fluxo das águas pela passagem de estradas, construção de açudes e outras intervenções maiores. "Estas espécies passaram por uma evolução tão ou mais antiga, tão ou mais única, do que a dos micos leões dourados e outros mamíferos e estão entre as mais ameaçadas de extinção, mas não contam com a mesma simpatia do público porque são peixes, são pequenos, são menos vistosos", lamenta Corrêa e Castro. Também são menos úteis, poder-se-ia acrescentar. E a falta de utilidade costuma ser fatal para qualquer espécie na rota de passagem do homem. O relatório completo do primeiro AquaRAP está disponível no site daCI (http://www.conservation.org.br) para consulta ou download e pode ser solicitado na forma de CD-ROM ou publicação impressa para envio por correio.