Notícia

Jornal da USP

É hora de brincar. E fazer arte

Publicado em 01 setembro 1997

Por LEILA KIYOMURA MORENO
São esculturas e brinquedos que convidam ao mundo feliz da imaginação. Um pedaço de madeira, um tronco de árvore caído e esquecido, pneus ou sucatas de postes de iluminação ganham vida nova na prancheta da arquiteta e designer Elvira de Almeida. Transformam-se em pássaros cruzando os céus, cavalinhos de cowboy, tótens-teleféricos, mirantes-escorregadores, animais que também servem de balanço, gira-gira... Enfim, das coisas que a cidade abandona, ela vem espalhando playgrounds em áreas de lazer repletas de crianças, como os parques do Ibirapuera. Raul Seixas, Chico Mendes, o parquinho do Butantã e a praça da Criança. Esse jeito tão singular de construir faz os paulistanos se depararem com espaços lúdicos onde a lei é sonhar e sorrir. "O homem liberado, criança, movimenta-se, dança, vivência sensações e mitos", observa Elvira. "Brinca, convive e contracena com seus companheiros na praça que é parque e teatro. Conversa com figuras fantásticas, mastros-tótens que emergem da memória. Falta hoje, nos espaços públicos, o sentido do espetáculo, da poesia. Esta é a razão do meu interesse pelas praças." O trabalho poético de Elvira pode ser apreciado também em livro. A Editora da USP (Edusp) e a FAPESP estão lançando Arte Lúdica, que registra através de fotos, ilustrações e textos da própria artista os seus projetos mais significativos. VOLTA À INFÂNCIA Como não se amarrar nas cordas e se pendurar nos tubos coloridos que alegram o parque do Ibirapuera? Ou sentir o mundo girar naquele carrossel todo diferente? Até os adultos ficam com uma vontade irresistível de experimentar tal sensação. E acabam arriscando um passeio pela imaginação andando pelo eucalipto em forma de pássaro que também é uma gangorra. "O projeto do Ibirapuera foi o primeiro a reutilizar as sucatas ambientais", lembra Elvira. "Dei um passeio pelo parque num domingo e presenciei uma grande explosão de energia nos rostos dos visitantes." Elvira parou e ficou só sonhando. "Imaginei que aquele trenzinho que já estava lá poderia levar alegres passageiros. Pensei num carrossel girando no ritmo da algazarra e um barco à vela navegando no gramado." Pouco tempo depois, o sonho virou realidade. "Após a visita ao depósito de sucatas da Prefeitura, vendo pedaços de máquinas e outros materiais inusitados, comecei a imaginar brinquedos- personagens completamente inéditos e fui esboçando alguns croquis", conta. "O ambiente desejado para essa área tinha que ser propício à liberdade de expressão, um cenário de brincar onde, de uma forma bastante natural e dinâmica, as crianças passassem de um brinquedo a outro conforme o enredo da história que inventassem." Na verdade, os brinquedos esculturas dessa artista foram feitos também para despertar a criança que existe nos adultos mais sisudos. "A minha meta foi integrar usuários de diferentes faixas de idade. Para tanto, projetei brinquedos robustos", observa. "O primeiro brinquedo que colocamos no parque era todo feito de toras de eucalipto tratado. Ou seja, uma árvore pássaro com uma gangorra gigante e desengonçada." CENÁRIOS LÚDICOS Elvira desenha os espaços públicos como se estivesse escrevendo um poema. "Com um olhar avesso aos estereótipos, vou compondo meu próprio repertório, enriquecido pelos diferentes traços culturais presentes na cidade", diz. "Aproprio-me de imagens, materiais e processos construtivos. Projeto os espaços de brincar nos parques para que sejam cenários lúdicos. São lugares de expansão da fantasia, onde o usuário é autor e ator ao mesmo tempo das diferentes peças encenadas, conforme a exploração que faz de seu imaginário." As esculturas que a artista espalha conversam com o usuário. "Esse apelo à brincadeira, estimulando a expressão física e a imaginação criadora, induz à representação estética e não simplesmente ao movimento corporal repetitivo das experiências ligadas aos automatismos dos parques de diversões que se conhece." No projeto de Elvira, cada escultura é um espaço em si, articulando-se com o espaço geral. "Todos os componentes dessa paisagem, desde sua morfologia até árvores, vegetação, são estruturados integradamente formando um único espaço." É, como a própria artista admite, uma forma de projetar diferente daquela que sugerem espaços estanques que delimitam as áreas das crianças, dos adultos, dos idosos. "Quando imagino um parque vejo esse lugar como num sonho, no espaço tridimensional e com cenas em movimento, sem noção de dimensões." CRIAR COM SUCATAS O reaproveitamento de materiais que a cidade desperdiça enriquece ainda mais o trabalho de Elvira. "Enquanto a natureza recicla seus recursos, eternamente, o homem consome esses recursos que não são infinitos, ao mesmo tempo que degrada o ambiente de sua própria vida", reflete. "Minha busca constante de criar a partir de materiais abandonados vem dessa percepção do desperdício que nos rodeia cotidianamente e de querer dar um novo sentido a esses refugos." Elvira passou a pesquisar depósitos de refugos da Secretaria de Obras e encontrou uma grande variedade de materiais que enriqueceram o seu repertório visual. "Essas sucatas começaram a ser recicladas para se tornarem esculturas lúdicas, deixando assim de ser um problema para a cidade", conta. "Foram devolvidas ao meio ambiente recuperadas, do ponto de vista de uma linguagem poética, passando a fazer parte de um novo marco na cultura visual de nossos parques. Otimizei os recursos disponíveis, enquanto criava uma arte coletiva que interagia com seu público."' Os retalhos de madeira que os marceneiros jogam fora também resultam em esculturas sensíveis. "São bricolages que construo, desenhando com os materiais que tenho à mão", afirma. "Esse procedimento se dá através da junção de pedaços de madeira, ferramentas e objetos, que, ao serem reunidos, geram formas e figuras. De pedaços de outras vidas, outros usos, recrio novas realidades." Nessas obras. Elvira destaca a mão do marceneiro que, muitas vezes, é a extensão da sua percepção e ferramenta de sua expressão. "Até os produtos de erros meus ou dele são incorporados às obras ou reciclados, gerando novas esculturas. No meio do caminho, improvisam-se ferramentas, fundem-se tecnologias. Esse modo de proceder estimula a interação entre artista e artesão, num processo de constante aprendizagem." VIVER COMO NUM SONHO Elvira de Almeida mora em seus sonhos. O colorido que espalha nos parques e praças da cidade também está presente no seu dia-a-dia, no seu jeito sensível de ser, viver, pensar e projetar. O sítio em Embu-Guaçu, onde reside, é a maquete do mundo da imaginação que construiu no Ibirapuera, na praça da Criança, entre outros espaços. A porteira vermelha abre-se para um bosque repleto de eucaliptos. Descendo a estradinha íngreme entrecortada pelas raízes das árvores, há uma casa antiga com cercas de toras finas desenhadas com temas indígenas, africanos. Imagens primitivas destacadas pelo vermelho vivo, branco e azul. Os portões e portas também são coloridas de vermelho. O ambiente que a artista montou devagarzinho junto com seu marido, o artista Samuel Moreira, ao longo de cinco anos foi se integrando na natureza. O verde da mata, o azul do céu, as sombras que dançam na lagoa, o canto dos pássaros, o passeio feliz das galinhas e patos se harmonizam com a sua arte. Há diversas esculturas fundindo-se na paisagem. No sítio de Elvira e Samuel, há cavalinhos de pau e dois cavalos brancos de verdade. Tem bancos coloridos. Enfim, um recanto onde o casal exercita a criatividade. "Quando eu era pequena, meu pai tinha um sítio", conta a artista. "Adorava subir em árvores, brincar, imaginar. Fico pensando como deve ser triste não conviver com tudo isto. Daí, a razão de tentar despertar esse mundo para a garotada através dos parques e praças que existem na cidade." INTUIÇÃO MÁGICA Elvira gosta de acompanhar o movimento das pessoas nos brinquedos que cria. "Fico feliz porque eles foram feitos pensando na integração com a natureza e também com as pessoas", observa. "É incrível ver os pais divertindo-se com os filhos. O lúdico é um processo de transformação, mexe com o sonho, com o físico e a energia." "Como artista-designer busco a linguagem poética e a intuição mágica", justifica em um poema que escreveu. "Pensar e sentir com as mãos. Desfazer o nó. Intuindo, partir do empírico, chegar a um conceito..." Elvira formou-se pela Fundação Armando Álvares Penteado em 1978. É professora-doutora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. O livro Arte Lúdica, que está lançando pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) em parceria com a Fapesp, foi elaborado a partir de sua tese de doutorado ."Ele revela momentos significativos da minha trajetória na criação de uma arte lúdica que interage com trabalhadores e usuários, tanto no seu processo de criação como de produção e uso." A artista iniciou sua carreira como desenhista de mobiliário. Após algumas experiências individualizadas, em 1970, passou a realizar o projeto de um sistema de móveis populares cujo design permitia ao usuário construir sua própria mobília. "Naquela época, apresentei esse projeto ao Inocoop e ele foi implantado em forma de mutirão junto com os moradores de conjuntos habitacionais." Desde aquela época, Elvira já exercitava um jeito de projetar muito diferente, onde o reciclar era a meta. Passou, então, a criar nos espaços públicos com arte e muita poesia. Arte lúdica, lançamento da editora da universidade de São Paulo (Edusp) e Fapesp, 178 páginas ilustradas por fotos e desenhos. Preço: R$ 52,00.