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E as inovações tecnológicas no setor sucroenergético?

Publicado em 05 abril 2017

Como inovar com baixa educação, baixo investimento em pesquisa e profissionais, baixa produtividade, sem novas metodologias e sem lucros?

Cada vez mais, a relação entre conhecimento científico e capacidade de inovação tecnológica se estreita, colocando as nações que mais investem em pesquisa como líderes mundiais. E o Brasil não vem se apresentando como um deles. Somos superados não apenas pelos tradicionais países desenvolvidos, mas também, a partir da década de 1990, por emergentes, em especial China e Coreia do Sul, que perceberam mais cedo a necessidade de investimento pesado em educação e de montar um sistema de inovação dinâmico e eficiente, capaz de concorrer, inclusive, com as grandes potências.

Para se colocar entre os líderes mundiais em inovação tecnológica, o Brasil tem de agregar valor à produção por meio de uma política que leve a indústria nacional a oferecer produtos com competitividade internacional e, para isso, precisa urgentemente rever suas ferramentas para que sinalizem boa produtividade com lucratividade. Caso contrário, continuará a ser fornecedor de matérias-primas (as chamadas commodities, ou seja, alimentos, minérios e petróleo bruto) para os países mais ricos.

Destacamos, no nosso caso, o etanol, que precisa de inovações em metodologias e tecnologias de processo de controle microbiológico que traduzam em planta o que nossos valorosos cientistas concluíram ainda nas décadas de 70-80.

Em comparação com o etanol de milho, estamos perdendo de 7 x 1, pois, nos EUA, os profissionais estão atentos às inovações tecnológicas e de controle microbiológico e são cobrados em suas produtividades.

A fermentação é uma ciência muito antiga e, desde seus primórdios, nos ensinou os caminhos do controle microbiológico efetivo. A saída para o futuro não está, então, apenas na inovação do combustível, mas na inovação do propósito do uso das inovações.

Apesar de ter um sistema de educação deixando a desejar, o Brasil dispõe de alguns requisitos para que o processo de inovação tecnológica aconteça. O país possui grande estrutura de pesquisa e forma milhares de pesquisadores, que produzem e publicam os resultados das descobertas em revistas científicas.

A certeza que temos é de que setores industriais que investem em educação e tecnologias cientificamente comprovadas conseguem superar crises econômicas sem se deparar com recuperações judiciais. Estas indústrias contratam profissionais especializados e buscam, de forma incansável, uma educação continuada. Com isso, seus resultados são expressivos. Novamente, o setor sucroenergético deveria se espelhar em outros segmentos industriais e voltar a respirar de forma inovadora ainda neste presente, não dando chances de sucumbir no futuro. E como seria bom se começasse agora nesta safra 2017/2018, não é mesmo?

No entanto, apesar de termos indústrias saudáveis, dados também demonstram que elas têm pouca participação no esforço do Brasil para inovar. É muito abaixo do que se pratica nos países líderes dos rankings mundiais de educação, pesquisa e inovação tecnológica.

A nossa indústria ainda não abriu estas portas, preferindo sempre adquirir um produto acabado. As inovações metodológicas e tecnológicas em parceria com as indústrias alavancaria uma pesquisa mais aplicada em soluções e que encontraria total apoio financeiro em um programa bem alicerçado do governo, denominado de PIPE-FAPESP, que tem esta filosofia para todas as empresas e não necessariamente as startups. O programa investe em bons projetos para procurar, de forma bem objetiva, soluções para nossos processos industriais. E a bola da vez é, sem dúvida, o CONTROLE MICROBIOLÓGICO, que atende aos apelos da Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto o uso de produtos para tal finalidade.

Sonho com essas publicações cientificas e inovações chegando até nosso setor, sendo lidas por nossos colaboradores e com as descobertas incorporadas em nossas rotinas. Espero que não seja um sonho em vão, mas que se torne realidade.

Sempre comento a respeito de Controle Microbiológico da Fermentação, campo vasto para pesquisas e inovações tecnológicas. Mas, infelizmente, ainda vemos unidades industriais tentando quantificar as bactérias por metodologia de contagem somente de bastonetes, o que não confere com os plaqueamentos, que realmente são quantificadores de um microbiota contaminante. Vejam bem, a quantificação precisa está intimamente ligada à dosagem de produtos, de forma a não cometermos abusos contra a natureza e a saúde pública.

Desde agosto do ano passado, uma nova norma de validação de métodos microbiológicos está em vigor.

Trata-se da RDC nº 59, de 2016. Pasmem! As microscopias por bastonetes e lactímetros, tão utilizadas em nosso setor, não são conhecidas dos órgãos fiscalizadores e reguladores. E nossos pesquisadores já alertaram, através de inúmeros trabalhos científicos publicados, que ambas, comparadas com os plaqueamentos, têm resultados diferentes. Desta forma, não podemos validar estas metodologias.

A metodologia do KIT MC DIAGNÓSTICO RÁPIDO DA CONTAMINAÇÃO BACTERIANA DA FERMENTAÇÃO tem credibilidade, por ter sido VALIDADA por plaqueamentos.

Levar em conta apenas as bactérias GRAM POSITIVAS nos induz a dosar antibióticos apenas para as mesmas, deixando escapar as GRAM NEGATIVAS, em que o principal gênero é a ACETOBACTER, que usa nosso etanol para transformá-lo em ácido acético.

Já estamos sentindo, no setor, o aumento de acidez acética nos tanques. E acreditem: não existe outra via para transformarmos álcool em vinagre. Este fato demonstra e prova que precisamos aprender muito mais sobre CONTROLE MICROBIOLÓGICO e que existem profissionais capacitados, que tenham tido, em suas grades curriculares, no mínimo um ano de microbiologia básica e aplicada para que possam interpretar os números gerados e não apenas inseri-los nos boletins diários.

Muito se gastou em dinheiro com antibióticos que não deram conta do microbiota contaminante total e deixam as bactérias ACETOBACTER. Este equívoco nos traz preocupações com um provável prejuízo no final de nossa cadeia, ou seja, na deterioração de nosso produto final, o ETANOL.

O setor ainda não conhece produtos à base de RADICAIS LIVRES (biocidas que exterminam os microbiotas contaminantes e as superbactérias). Novamente, estamos alguns anos atrás dos países mais desenvolvidos, que ainda acreditam que um bom rendimento fermentativo está em manter nas dornas um nível de contaminação na casa de 106 UFC/ml. Outras indústrias de processos fermentativos já provaram que, para este nível, têm um fator de perda calculado. Do contrário, estamos deixando de produzir mais com a mesma matéria-prima. Dentro do nosso escopo, precisamos incorporar a expressão DESINFECÇÃO INDUSTRIAL e seguir seus conceitos norteadores. Com certeza, nossa produtividade vai melhorar um pouco mais.

Novamente, lembro aos colegas do setor que provar eficiência é obrigação junto à ANVISA/MAPA, que, para ceder registros de produtos biocidas, realizam, em seus laboratórios especializados REBLAS/ANVISA, estes testes. Desta forma, deixam as indústrias que necessitam de tais produtos dentro de um PROGRAMA DE SEGURANÇA, com estes produtos comprovados.

Nosso setor não possui, em todas as suas unidades fabris, laboratórios de microbiologia bem equipados para realizar tais testes, como antibiograma ou EFICÁCIA de SANITIZANTES pelo Método dos Cilindros (INCQS), e tampouco utilizam dos protocolos oficiais. É por isso que eles acabam sendo realizados pelos laboratórios credenciados pelo governo.

Boas inovações é o que desejo ao nosso setor sofrido, carente, mas que precisa abrir os olhos.

 

*Mário César Souza e Silva é Professor, Biomédico e Microbiologista Especializado em Controle Microbiológico e Desinfecção Industrial.