Notícia

Boletim Behaviorista

É apenas uma piada?

Publicado em 28 setembro 2018

Por Julio Camargo

No dia 30 de junho, durante o jogo de quartas de final da Copa do Mundo entre França e Argentina, o youtuber e influenciador digital Júlio Cocielo se tornou alvo de críticas ao postar um comentário considerado racista no Twitter: “Mbappé conseguiria fazer uns arrastão top na praia hein”, comentou Cocielo após um dos gols do jovem atacante francês, que é negro. Não tardou para que o comentário se tornasse uma polêmica de grande proporção, alavancada por inúmeras pessoas que se sentiram ofendidas pelo youtuber. Cocielo tentou se defender dizendo que se referiu somente à velocidade do jogador, mas a desculpa não colou diante da divulgação de diversos outros comentários e piadas racistas postadas por ele ao longo dos últimos 8 anos. Além da retaliação pública, o comentário pôs em xeque as parcerias comerciais do youtuber, tornando incerto o futuro de sua carreira. O assunto dividiu opiniões, com diversas pessoas apontando que os comentários de Cocielo ajudavam a propagar o preconceito contra pessoas negras e, outras tantas, ponderando a situação com o argumento de que as críticas se tratavam de uma vigilância extrema sobre o “politicamente correto”.

De que forma piadas racistas, como as postadas por Cocielo, podem afetar seu público e ajudar a disseminar expressões subsequentes de preconceito racial? Tal questão é de extrema relevância, principalmente se considerarmos que a maior parte da audiência do youtuber (que possui mais de 16 milhões de inscritos em seu canal, o CanalCanalha) é formada por crianças e adolescentes. Em um artigo publicado no início de 2018 no periódico científico Humor (International Journal of Humor Research), o grupo de pesquisa liderado pelo professor Donald Saucier, da Kansas State University, traz resultados bastante interessantes para pensarmos sobre essa questão.

Em uma série de três estudos realizados tanto presencialmente (n = 273), quanto via formulários online (n = 158), os pesquisadores observaram que, após ouvirem ou lerem piadas consideradas de humor racial, os participantes tenderam a avaliar pessoas negras de forma predominantemente negativa, viés que não foi observado quando os participantes ouviam ou liam piadas consideradas neutras em termos raciais. Tal avaliação era feita por meio de escalas de 1 (“discordo totalmente”) a 7 (“concordo totalmente”) nas quais os participantes deviam selecionar quão acuradamente certos estereótipos descreviam pessoas negras. Ao todo, o instrumento continha dez estereótipos, sendo parte hostis/negativos (e.g., preguiçosas, agressivas) e parte benevolentes/positivos (e.g., atléticas, divertidas).

Para surpresa dos pesquisadores, os resultados foram semelhantes tanto quando a piada era claramente depreciativa (“Qual é o melhor lugar para se proteger o dinheiro de um assaltante negro? Dentro dos livros!”), quanto nas situações em que o intuito inicial da piada era confrontar o pensamento preconceituoso (“Do que é chamado o cara negro que leva um avião de um aeroporto? De piloto, seu racista desgraçado!”). A hipótese inicial era de que o humor racial confrontativo pudesse reduzir a expressão do preconceito contra negros, ao deixar claro a inadequação social de tais atitudes. Segundo os autores, o resultado inesperado se deveu ao fato de que mais do que a metade de todos os participantes que ouviram ou leram a piada confrontativa a avaliaram, ao final do estudo, como dirigida, de forma depreciativa, aos negros e não ao interlocutor/pensamento racista como era previsto inicialmente. Interpretada de tal forma, a piada confrontativa teve o mesmo efeito que a piada depreciativa, enviesando negativamente a avaliação feita pelos participantes. A conclusão foi corroborada pela redução do viés racial negativo observada na (menor) parte dos participantes que demonstraram ter interpretado de forma adequada a piada confrontativa.

Saucier e seus colaboradores discutem que a literatura sobre humor tem considerado o uso de piadas depreciativas como uma espécie de “espada” utilizada para atacar indivíduos e grupos sociais com base em sua aparência, vinculação política, raça, religião e gênero. No caso do humor racial, piadas depreciativas podem ser um veículo para disseminação de ideias preconceituosas, valores e julgamentos sobre as pessoas negras, com o intuito de estigmatizá-las e marginalizá-las. E justamente por ter como defesa o argumento de se tratarem de “apenas piadas”, sátiras depreciativas podem ser uma forma de expressar o preconceito racial sem incitar reações negativas da audiência. Com isso, cria-se um contexto no qual outras formas de expressão de preconceito sejam feitas mais livremente. A esperança dos autores era de que o humor confrontativo pudesse ser utilizado como uma forma de “escudo” para combater o preconceito racial. Os resultados os levam a recomendar cautela na utilização de piadas confrontativas, uma vez que, a depender da interpretação feita pelo público, o tiro pode sair pela culatra e ajudar a perpetuar o preconceito racial e o estigma contra pessoas negras em vigor na sociedade.

No dia 4 de julho, o youtuber Júlio Cocielo fez um vídeo pedindo desculpas pelo ocorrido e voltou a dizer que sua intenção não foi ofender ninguém e que só estava se referindo à velocidade do jogador francês. O estudo de Saucier e colaboradores demonstra que o youtuber ou qualquer outro influenciador digital deve ter muito cuidado com suas palavras e com o impacto que suas declarações e piadas podem ter sobre o público, mesmo que a intenção original seja a melhor possível.

Quer saber mais?

Saucier, D. A., Strain, M. L., Miller, S. S., O’Dea, C. J., & Fill, D. F. (2018). “What do you call a Black guy who flies a plane?”: The effects and understanding of disparagement and confrontational racial humor. Humor: International Journal of Humor Research, 31(1), online.

Julio Camargo

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Bolsista FAPESP e Membro do Instituto de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE).

* As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.