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Revista Amazônia

É a economia, estúpido! Entenda por que empresas dos EUA vão ignorar Trump e seguir o acordo de Paris

Publicado em 02 junho 2017

RIO – O que têm em comum o ícone da tecnologia Microsoft, os banqueiros do Goldman Sachs e a superperfuradora de poços de petróleo Exxon Mobil? Unidas a outros gigantes corporativos americanos, elas abriram guerra à decisão do presidente Donald Trump de retirar os EUA do Acordo de Paris, maior avanço no combate às mudanças climáticas já feito pela Humanidade. Porém, a decisão expressa muito, mas muito mais do que compromisso com o meio ambiente.

De investimentos já avançados às pressões de acionistas e consumidores, passando pela necessidade de recursos naturais e a própria sobrevivência, há fortes razões para que as companhias mirem a chamada economia de baixo carbono. Um mercado de fontes de energia, máquinas, equipamentos, veículos, softwares e soluções tecnológicas avançadas que, para início de conversa, movimenta pelo menos US$ 1,4 trilhão — o dobro do setor aéreo, ou praticamente o que o Brasil gera de riquezas durante um ano.

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!

“Estamos desapontados com a decisão da Casa Branca de retirar os EUA do histórico e mundialmente endossado Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Acreditamos que continuada participação dos EUA (nesses esforços) beneficia os negócios e a economia dos EUA de várias e importantes maneiras. Um arcabouço global fortalece a competitividade das empresas americanas. Cria novos mercados para tecnologias limpas inovadoras, da geração (de energia) verde aos smart grids (redes inteligentes) às soluções de armazenamento na nuvem. E, ao fortalecer uma ação global no longo prazo, o Acordo reduz os danos futuros do clima às pessoas e às organizações em todo o mundo”, escreveu Brad Smith, chefão mundial da área jurídica da Microsoft.

‘O aquecimento global é real e nós dividimos a responsabilidade de enfrentá-lo. A decisão de Trump não terá impacto nos esforços da Apple de proteger o meio ambiente’

– Tim Cook

Diretor-executivo da Apple

Mais claro impossível.

As grandes empresas americanas _ que são multinacionais _ estão reagindo a Trump porque o Acordo de Paris é vantajoso economicamente e tem amplo apoio da opinião pública, dentro e fora dos EUA. Uma posição ou plano de negócio hoje que ignore a causa ambiental pode literalmente causar prejuízo, tanto de imagem quanto financeiro, uma vez que a maioria das grandes empresas é listada em Bolsa de Valores e portanto presta contas aos seus acionistas.

Antes mesmo do anúncio oficial de Trump, na última quarta-feira, o mundo viu uma mostra da força dos investidores nas decisões das companhias nesse tema. Os acionistas da empresa de energia Exxon Mobil aprovaram, com maioria de 62%, uma proposta que vai forçar a companhia a endossar os termos do Acordo de Paris. A ideia é que haja uma avaliação de como a tecnologia verde e as regulações relacionadas com o aquecimento global vão influenciar os negócios até 2040 e depois disso.

Inicialmente, a empresa tinha ido contra o plano, que era apoiado por apenas 38% dos acionistas. A decisão é ainda mais emblemática pelo fato de o atual secretário de Estado dos Estados Unidos, Rex Tillerson, ter vindo do quadros da Exxon Mobil.

Da mesma forma, o chão das fábricas, os sistemas públicos de eletricidade e água e os escritórios das empresas americanas estão há anos fazendo a transição para as energias limpas. Por isso, avalia o diretor do Instituto de Energia da Universidade de Michigan, Mark Barteau, o efeito da decisão de Trump será limitado:

— O impacto na economia americana tende a ser pequeno. As fábricas estão avançadas em seus planos de abandonar a energia do carvão nas próximas duas décadas e trocar por energia renovável e gás natural. Trump não pode reverter isso. (…) Muitas das tendências de consumo de energia e emissões que vão levar aos objetivos de Paris estão firmemente em curso. A saída (do acordo) não vai afetar isso e terá pouco benefício para a economia.

Poder de pressão semelhante tem os consumidores, que podem se recusar a comprar de empresas que reneguem o aquecimento global. Professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Eduardo Viola lembra que uma parte importante da sociedade americana têm compromisso com a economia de baixo carbono, em estados importantes e que votaram em Donald Trump (51% dos republicanos poiam o acordo).

Os investimentos avançados feitos pelas companhias em tecnologias mais verdes também contam na hora de ignorar os movimentos de Trump. O bilionário Elon Musk foi um dos primeiros a protestar e deixou o Conselho Econômico de Trump. Ele comanda a Tesla, montadora que ultrapassou a Ford em valor de mercado recentemente e investiu pesado no carro elétrico. “Estou deixando os conselhos empresariais. O aquecimento global é real. Deixar Paris não é bom nem para a América nem para o mundo”, escreveu Musk em um tweet.

O diretor-executivo da Apple, Tim Cook, também expressou seu descontentamento com a decisão em e-mail a funcionários. “O aquecimento global é real e nós dividimos a responsabilidade de enfrentar isso. Eu quero reassegurar a vocês que os desenvolvimentos de hoje (decisão de Trump) não terá impacto nos esforços da Apple de proteger o meio ambiente. A energia de quase todas as nossas operações é renovável, o que acreditamos ser um exemplo de algo bom para o nosso planeta e que faz sentido para os negócios também”, dizia o texto.

Já o banco Goldman Sachs, por exemplo, reforçou recentemente seu interesse em financiar a economia de baixo carbono. A avaliação é que há uma transição estrutural para as tecnologias de baixo carbono, que segue mesmo em meio a mudanças de políticas. Empresas fabricantes de bebidas, como a Coca-Cola, têm se dedicado a temas como a preservação da água também por um instinto de sobrevivência, já que o futuro do negócio fica totalmente comprometido.

— Essa posição do governo Trump não vai ter muito efeito prático. As petrolíferas já incorporaram questões desse tipo nas suas operações. As empresas de outros setores também já estimam isso. (…) É uma medida demagógica e que não vai pegar. As coisas já estão ocorrendo no combate ao aquecimento global sem muita participação dos EUA. A atitude pode atrasar um pouco, mas não vai inviabilizar — afirma o professor da USP e presidente da Fapesp, José Goldemberg.

‘É uma medida demagógica. A atitude pode atrasar um pouco, mas não vai inviabilizar’

– José Goldemberg

Professor da USP e presidente da Fapesp

Na avaliação do professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Eduardo Viola, o impacto na condução das políticas das companhias em direção a uma economia de baixo carbono será limitado e restrito às empresas que hoje ainda não têm essa preocupação:

— Hoje, as energias de baixo carbono — combinadas com redes inteligentes de transmissão e baterias — são competitivas com a energia fóssil. Isso é irreversível. Empresas da economia digital e de alguns setores estão fortemente investidas na tecnologia de baixo carbono. As empresas já internalizaram as mudanças climáticas no processo de produção industrial, isso não vai mudar. Companhias que não avançaram tanto no tema, como a indústria automobilística, podem sofrer mais influência, como sofrer alguma lentidão agora que há menos incentivos.

A polêmica de Trump pode até mesmo provocar uma reação oposta, segundo Mark Barteau, com um esforço maior por parte de prefeitos e governadores, que são responsáveis por legislações locais que precisam ser obedecidas pelas companhias:

— Esta pode ser uma das ironias. Eu acho que a retirada do Acordo de Paris pode na verdade pressionar por mais esforços de estados e cidades por agendas de defesa climática. Já estamos ouvindo de governadores e prefeitos de todo o país.

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