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Duas passadas & o caminho do céu

Publicado em 17 setembro 2020

Por Luiz Alberto Machado

Havia uma reunião em que todos se preparavam para encenação da peça teatral O caminho do céu(Manuscrito-Campinas, 1883), primeira investida teatral da dramaturga, escritora e abolicionista Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). No tablado discutiam a situação atual com as outras peças da autora, tais como A herança, Doidos de amor, Nos jardins de Saul, Quem não perdoa, As urtigas, Os humildes, Laura, entre outras tantas do seu expressivo repertório, todas recolhidas da publicação A (in)visibilidade de um legado: seleta de textos dramatúrgicos inéditos de Júlia Lopes de Almeida (Intermeios/Fapesp, 2016), um estudo da socióloga e pesquisadora Michele Asmar Fanini. O debate acalorado entre atores e técnicos foi interrompido pela intervenção inopinada de um sacerdote indígena que aconselhou a todos prestarem bem atenção aos obstáculos do mundo subterrâneo, atentando inicialmente para as ondas largas do rio Chicnahuapan, que se prolongavam pelos mundos infernais até o repouso eterno da noite no nono e último mundo do Chicnahuatmictian. Os presentes se entreolharam interrogativos, ao passo que senti uma mão ao meu braço sussurrando que jamais encenariam seu texto: Quero escrever um livro novo, arrancado do meu sangue e do meu sonho, vivo, palpitante, com todos os retalhos de céu e de inferno que sinto dentro de mim; livro rebelde sem adulações, digno de um homem. Ela afugentou a todos com rispidez e zarpou dali sem se despedir. Não havia como tomar pé da situação, saí imediatamente, apressei o passo sem saber para onde ir. Fui.