Notícia

Folha de Pernambuco

Duas conversas

Publicado em 31 outubro 2005

Por João Sayad

O Brasil é o país da América Latina que mais investe em pesquisa e desenvolvimento. Tem bom conjunto de instituições de pesquisa e financiamento: a Embrapa, o Instituto Agronômico de Campinas; o Instituto Manguinhos e o Butantã, em biologia; o ITA e o Inpe, na indústria aeronáutica espacial; e a Fapesp, o CNPq e a Finep, na área de financiamento.

São responsáveis pelo combate à febre amarela no início do século 20; pelas novas variedades de soja que transformaram o cerrado em terras férteis, pela indústria aeronáutica brasileira e por novas variedades de café e laranja.
O parque industrial brasileiro é complexo e diversificado. Até 1990, a política industrial se baseava em tarifas alfandegárias bem administradas, com poucos casos de exageros. No período de substituição de importações o país cresceu a taxas anuais de 6%, incluindo o período posterior à crise da dívida externa e à superinflação.

Nas conversas paralelas à conferência de economistas em Buenos Aires, brasileiros discutiam o futuro do país. Demonstravam duas preocupações: que, num segundo mandato, o presidente Lula teria pouco apoio do Congresso para continuar as 'reformas'; ou que outro presidente, 'populista' viesse a baixar as taxas de juros rapidamente e, pior ainda, implantasse uma nova política industrial.

Por que os juros têm que cair mais devagar do que sobem? O que há de errado em fazer política industrial como fazem os países do sudeste asiático, a Coréia, a China, a Europa e até os Estados Unidos com as inovações militares? A nova política industrial não seria igual à de antes. Deveria se basear em subsídios e apoio a novas tecnologias, de acordo com a melhor teoria de comércio internacional de Ricardo até Baghwati. Como fazem a Coréia, a China e os Estados Unidos através das pesquisas militares.
O argumento formulado na língua dos inimigos da política industrial não convenceu.

Economistas parecem repentistas do Nordeste que cantam crimes de amor ou de política. Louvam tudo o que aconteceu. Não mudam o destino dos personagens. Na televisão, em Washington, debate sobre as três religiões de Abraão e o terrorismo. O judeu, um israelense de jaqueta e sem gravata, como todos os israelenses, usava quipá e era muito falante. O cristão, um americano de terno, não se destinguia pela roupa. O Islã estava representado por um paquistanês, cabelos pretos disciplinados por brilhantina, terno escuro impecável e inglês perfeito. Parecia um súdito imperial da Inglaterra vitoriana. Foi o único que veio vestido com roupas que não eram suas.
Debatiam terrorismo. Concluíram que deveriam desenvolver argumentos antiterroristas usando o Alcorão e a religião dos terroristas. Não foi uma boa conversa: nem o terrorismo decorre do Alcorão nem as Cruzadas vêm dos Evangelhos.

Homens de diálogo parecem cordeiros que sobem o rio até onde está o lobo para explicar que não estão sujando a água. Não param de falar até ser devorados. Gostam de parecer ingênuos e bem intencionados, mas são, contudo, pretensiosos. Não me inspiram simpatia.

João Sayad escreve às segundas-feiras nesta coluna.